Terça-feira, 29 de Maio de 2007

TEXTO - MúSICA POR MÚSICA - POPORTUGAL by EMC + entrevista

POPortugal

POPortugal é o novo disco de Eugénia Melo e Castro.
São 10 canções feitas e cantadas por compositores portugueses entre 1972 e 2002.
Gravado em São Paulo entre Abril e Maio de 2007, POPortugal é o 21º trabalho discográfico desta artista portuguesa, todos lançados em ambos os países Portugal e Brasil.

É a segunda vez que Eugénia dedica um trabalho inteiramente a compositores Portugueses, tendo sido lançado o primeiro disco dedicado a esse tema em 1990, com o disco “Amor é cego e Vê – canções portuguesas.”

A escolha deste repertório baseou-se nas musicas pop em que Eugénia encontrou e sentiu uma possibilidade de interpretação e de intervenção, sua marca especial na reinterpretação das musicas que regrava.

O CD - Música por música :

1 – SE QUISERES OUVIR CANTAR – 1972 – ouvi esta musica no festival da canção cantada pelo autor, ToZé Brito, que na altura era um miúdo e eu uma miúda de 14 anos. Decorei a canção na hora e lembro-me da imagem e da voz dele, a canção era simples e perfeita, daquelas coisas que saiem á primeira e nascem prontas e redondas. Nunca mais esqueci, nem letra nem musica, e sempre a quis cantar,sempre.

2- ASAS- 2000- uma música linda do Rui Reininho, e GNR, que é desde sempre o meu grupo favorito nacional, o senso de humor, a irreverência inteligente, o gozo, a abertura, gosto muito deles. E Asas é uma musica linda, sempre a cantei e já fazia vocais e cantava ao volante do meu carro quando tocava no rádio, esta tinha de ser !

3 – AMOR – 1984 - sempre achei esta música dos Heróis do Mar com mil leituras possíveis, muito marcada pela interpretação deles, mas muito aberta a novas ideias. É uma canção de amor, leve e amorosa, e eu imaginei-a mais suave e melodiosa.

4 – O SOPRO DO CORAÇÃO – 2000 – não sei quem nasceu primeiro, se a música se a letra, mas é uma perfeição esta ideia, esta letra sensacional do Sérgio Godinho, a musica do Hélder Gonçalves, a voz da Manuela, a intenção, é muito difícil de reinterpretar devido á força original da composição, sem respirações e melodia muito marcada e definida. Mas num tom cool mais blues, que eu adoro, acho que consegui traze-la para o meu universo e interpretação. Também, quanto mais recentes são as musicas que regravei, mais se torna um desafio abordá-las de outra maneira.

5 – ROMARIA – 1983 – os Jáfumega sempre foram originais e criativos, tentaram transportar para o pop moderno da altura os temas populares e característicos do Porto. Eu sempre lhes achei graça, tinham músicos fabulosos, era uma proposta diferente. E esta deliciosa Romaria era a minha favorita, alegre, num ambiente de festas populares que eu sempre conheci e frequentei muito, quermesses, feiras, procissões , rifas, doces, tintol, era tudo muito divertido. E no Brasil também têm essas festas iguais até hoje, são as coisas muito mais que temos em comum entre os dois países, as romarias.

6- PÕE OS TEUS BRAÇOS Á VOLTA DE MIM- 1978- esta musica ficou na gaveta do esquecimento, nunca nem saiu em Cd, e a Gabrila Shaff que prometia vir a ser uma cantora actuante , desapareceu depois de umas tentativas de sobreviver ás duras provas de se aguentar nesta profissão de cantora nestas bandas...........e eu sempre fiquei com essa musica na cabeça, a letra, de vez em quando dava comigo a cantar isso, põe os teus braços á volta de mim.........sempre gostei e sempre a imaginei em outro arranjo e imagem musical.

7- EU SOU -1981– as Doce eram muito engraçadas, fizeram a alegria de muitas gerações, eram ousadas e abusadas, divertidas, criativas, sem responsabilidades culturais, foram a primeira bands girl de Portugal, impossível não encontrar no repertório delas uma canção para mim. Eu lembrava-me de uma que a Laura Diogo cantava sem voz, mas que era linda, sexy, embora o arranjo fosse aquela coisa..........daquela época.........esquecemos tudo, concentramo-nos na musica e na letra, e foi a que mais me desafiou, pelas características diferentes de tudo o que sempre fiz. Mas o resultado final é surpreendente , é a minha favorita deste disco, realmente as musicas que desafiam pela diferença são sempre o resultado das nossas melhores intervenções pessoais.


8 - SE EU FOSSE UM DIA O TEU OLHAR – 1995- confesso que esta é uma ousadia pura, mas considero-a uma composição perfeita musicalmente falando, e uma vez que era tudo quase falado, tentei cantar as falas, pelo menos dar-lhes um tom de canto. Eu penso neste disco para voos maiores, até também por isso se chama POPortugal. Vai ser lançado em outros países alem de Brasil e Portugal, por isso escolhi esta musica pelas possibilidades internacionais que ela acrescenta, com este arranjo numa linguagem alternativa hip hop soul, um subgénero do R&B contemporâneo http://en.wikipedia.org/wiki/hip_hop_soul . Eu nunca penso no aqui e agora AQUI neste momento, penso sempre num aqui, e num agora lá bem longe daqui, lugares, assuntos, tempo , em tudo. Este arranjo inclusive fui eu que disse tudo como queria exactamente, eu tinha na cabeça o som que tinha imaginado. Aliás cada vez eu interfiro mais nos sons que quero, nos arranjos, em todos, é uma trabalho a três mãos com o Eduardo Queiroz, duas dele e uma minha.


9 – SONHO AZUL – 1984 – Uma musica deliciosa na época, mas que mais uma vez caiu no esquecimento imediato, embora todos se lembrem bem quando começam a ouvir. Este é um disco de afectos musicais. Neste disco cada pessoa vai sentir cada musica de uma maneira diferente, de acordo com a sua memoria afectiva, com o seu gosto na altura , com o que estava a viver e a ouvir nessa época. A Né Ladeiras tem o timbre mais bonito de sempre da música cantada em português em Portugal, na minha opinião, uma voz diferente, adulta, quente e especial. Nesta nova versão tentei do meu modo, uma outra abordagem mais actual.

10- SOZINHA PELAS RUAS - 1995 - eu poderia gravar quase todas as musicas da Pilar, minha compositora favorita do panorama POP de Portugal, e escolhi esta por pura identificação com a letra do Tiago Torres da Silva, que na interpretação PERFEITA da Pilar soa triste e depressiva, e eu, nesta , especialmente nesta, EU quis dizer exactamente as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas notas, mas ao contrario, feliz, a rir, com vontade de ser ainda + feliz, que é o mote geral do disco, a alegria de vez em quando, igualzinha ás possibilidades da tristeza, faz muito bem a quem canta e a quem ouve. Não a alegria da inconsequência, mas a alegria da esperança e da força que só depende da forma como nos apresentamos ao mundo, e no fundo o que esperamos que ele entenda e nos devolva.


PERGUNTAS E RESPOSTAS – POPortugal By EMC, por Diego Muniz

Como surgiu a idéia de fazer um disco com músicas POP de Portugal?

Em 2006 eu estive parada para pensar, ou seja, só fiz shows até Março, no Brasil, e depois fiquei meses e meses em Lisboa a pensar na vida, sem nenhum compromisso. Dei comigo a ouvir vinis, comprei um giradiscos de vinil, sensacional, super moderno, e fui atrás dos meus vinis, dos meus discos de estimação que estavam guardados no Alentejo. Limpei, lavei, fui ouvindo vinis atrás de vinis, numa espécie de ritual neo chic, e dei comigo a viver coisas esquecidas, mas sem saudosismo, como se eu estivesse á procura de uma coisa bem clara e nova. Encontrei os discos que eu ouvia de pop portugues, entre outras coisas. Foi assim, reencontro puro com muitas coisas sensacionais. Não existe falta de material para graver, é só procurar e ter uma linha interna defenida.

Você é uma cantora acostumada a desafios. O que diria da música pop, também é um desafio?

Não propriamente, o POP é origem de POPular, sem ser folk, nem classico, nem jazz, nem erudito. Eu sempre fiz o meu Pop, tem pop modernos, pop antigos, pop bons, pop tudos, pop é só uma ideia pop, uma imagem, uma linguagem. O meu maior desafio neste caso era dar a minha cara a musicas muito marcadas. Assim como eu sempre fiz isso com outros compositores, outras escolhas. A minha ideia é sempre encaixar o meu som no universo musical já feito e refazer, sem perder a referência, mas diferente. Eu componho melodias em cima das musicas que canto dos outros, são apenas brincadeiras de quem canta uma musica a crescenta um canto…….

Quais são seus ídolos pop?

Eu não tenho ídolos, tenho gostos, referências, preferências de voz, de sons, gosto de coisas diferentes e antagónicas, e das muitas possibilidades das descobertas de outros sons. Neste momento estou a ouvir o disco da Charlotte Gainsburg, muito bom. Mas estou muito atenta a tudo o que se passa na musica no mundo, tenho grandes informantes, recebo pistas precisosas do que se passa no mundo, que não me deixam ficar parada um minuto……

Na mesma época que você resolve voltar a fazer shows em Portugal, você grava um CD com Pop Clássicos de Portugal. Qual a relação das duas coisas?

Só tem a coincidência, que eu adorei. Quando vi a possibilidade de juntar as duas coisas, já era, já tinha acontecido. Mas coincidências não existem , e é melhor juntar as forças nestas horas, eu estou fora do ar em Portugal ha muito tempo, fora dos circuitos de espectáculos, meio arredia. Fui-me fortalecer para poder voltar melhor, eu vejo assim. Cantei sem parar nestes anos, gravei muitos discos, ao vivo, em estudio, apresentei-me, aprendi a divertir-me no palco, sem crises nem cheliques de nervos……. Agora não adianta mais contar o que fiz, é melhor mostrar mais e falar menos…….
Claro que vou cantar musicas deste disco novo, mas serao espectaculos baseados em musicas dos 25 anos de carreira, ao longo de 20 discos………… nem vai ser um espectaculo longo, ja chegamos ao repertorio final, ta bem amarrado, estou animada. As canções mais antigas vão entrar no clima actual, vai ser um desafio, isso sim, eu não me via a cantar de novo certas coisas, e estou a adorar a ideia…..

Depois de Descontruir Chico Buarque chegou a vez de Descontruir e apresentar o pop português. Que critérios você usou para escolher o repertório?

Só o gosto pessoal, e sem muitas dificuldades. Queria fazer um disco que não fosse longo. Escolhi dez e foram dez. Nem mais uma. Precisei dessa disciplina, escolher sem culpa de deixar de fora outras coisas. No disco do Chico foram 22, quase enlouquecemos. Isso nunca mais, quase morremos de angustia, não se pode gravar sempre tudo, melhor ter bom senso……
Tentei concentrar-me nas musicas que eu me imaginava a cantar, ha sempre o cuidado das letras, que para mim é sempre uma questão complicada, ha palavras que eu não gosto, frases, letras que eu não me imagino a cantar. Mesmo assim estou bem mais aberta, vejo maiores possibilidades e muito menos receios.

Não podemos esquecer da sonoridade do novo álbum POPORTUGAL. Sem sair do Brasil como você conseguiu uma sonoridade digna de um CD de Beyoncé, super produção técnica….?

He eh he !!
A qualidade técnica deste disco só percebe quem sabe “das coisas” a sério de som. São engenheiros de som que trabalham com uma nova sonoridade, fazem pesquisa de som, com leituras diferentes de niveis e de colocação de ondas sonoras.
Existe uma grande diferença no som dos meus discos desde que trabalho com o Eduardo Queiróz, meu director musical nos meus 3 ultimos discos - PAZ , DESCONSTRUÇÃO E POPORTUGAL.
Temos vindo a tocar e a tentar encontrar um som que seja nosso, identificado com os arranjos, com a intenção, com os músicos, com a minha voz, e com o som própriamente dito, clareza de captação, de mistura, de niveis de instrumentos, de colocação. Isso sem interferir na interpretação, na execução dos instrumentos e da voz. Neste disco, pela primeira vez, eu tive de pedir para pôr a minha voz mais baixo, estava tão clara e tão crua que era demais. É o apuramento contra o volume. E muitas outras coisas, que nem eu sei explicar. Mas foi tudo feito em São Paulo, sem complications….. o outro segredo também tem a ver com o facto de estar a trabalhar sempre com os mesmos músicos, ao vivo e em gravações, já somos práticamente uma familia, sabemos o que podemos experimentar, onde cada um vai tocar cada vez melhor. São os musicos a favor de um som especial, e não o contrário.

Quais são suas expecativas com esse novo
trabalho, no Brasil e em Portugal?

São diferentes……no Brasil este disco vai soar como um disco de dez músicas praticamente inéditas, uma vez que não são músicas conhecidas lá. Mas também vai suscitar um interesse especial, devido ao título do disco, que será bem explicado nos médias. Acho que vai ser uma surpresa boa para eles…
Em Portugal é um disco que vai relembrar algumas músicas já meio esquecidas e dar também outras leituras a coisas mais recentes, bem diferentes, não sei, quando se ouve pela terceira vez já nem se estranha………espero que gostem…….. acho meio esquisito essa coisa de ter opiniões definitivas com apenas uma audição de um disco, eu sei que os primeiros sons que se ouvem já marcam as sensações, mas muitas coisas acontecem com as novas audições, eu por mim falo, primeiro meio que estranho, depois entendo, e aí sim, ou gosto SIM ou gosto NÃO…..

Você vai comemorar 25 anos de carreira. O que mais mudou na cantora Eugénia?

Na cantora….. mudaram muitas coisas, é natural, canto com mais simplicidade, sem tanta entoação, sem dramatismo, mais segurança, domino a minha voz de outra maneira, é tudo melhor, sofro menos, sinto mais, é um conjunto de fatores. Tudo isso tem a ver também com o facto de cantar muito ao vivo, ouvir o que me dizem os musicos, o produtor, e gostar do que faço. Mudei para melhor, eu acho.
Publicado por Eugénia Melo e Castro às 12:47
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