Sábado, 18 de Março de 2006

SOU PORTUGUESA

Sou portuguesa.
Já começo mal.
O bom povo português tem apenas as saudades do que já nem se lembra bem. Sensações de distância, que por si só distanciam a realidade do horror da sua verdadeira essência. Dispensável, não essencial. Sobrevivente.
Cada vez menos delicado, cada vez mais bruto e seco. Descrever o pavor de ser português, numa mistura de sentidos, inferno, interno.
Descrever, escrever, prescrever.
Eu não tenho nada, não sou nada, nasci aqui, aprendi a língua que me foi ensinada naturalmente, falei, cresci, vivi. Pouco sei de antes, pouco sei depois. Durante tem sido durante. Não me queixo de nada naturalmente, nem sabia que me poderia queixar com razão para isso, muito menos sem ela, a dos outros, a minha, a de ninguém.
Continuo sem razões de queixa, por natureza. Apenas a natureza continua inevitável, a tristeza continua inevitável.
Sempre esteve comigo, a par de uma imensa alegria, numa esquizofrenia interna.
Nunca me levei a sério, não tinha ideia do que isso era, não ser sério.
Sempre achei mais elegante ser triste, mais romântico, não por amor, por poesia pura.
Mas nem isso eu poderia saber, sobre poesia ninguém sabe nada, a própria poesia tem esse papel.
Eu pensava em melodias, em sons, em palavras, em ruídos, em silêncio.
O castigo máximo foi-me aplicado regularmente em criança, não falar durante dias e dias. Aprendi a ficar calada, as palavras têm peso e sentido.
Ficar mesmo em silêncio sempre foi a minha reação.
A minha acção não precisa de reação.
Sou atenta para ser atenta.
Entendo a atenção e destingo os ruídos.
Os sentidos.
Observadores.
Não noto, não reparo no óbvio. Sou distraída para a vida normal.
Voltamos ao começo.
Ser portuguesa é sentir. Sentir sentimentos estranhos, contraditórios, invisíveis, grandes, pequenos, insensíveis, minúsculos, desprezíveis, sonhadores, atrasados, inúteis, sem fim.
Quem dera o mar afinal tivesse fim, mas não, sempre se volta para trás, se volta para a frente, se quer chegar, se quer partir, se quer fugir, encarar de novo, renascer e morrer, principalmente morrer.
Eu só penso em morrer em Portugal. Melhor, Portugal leva-me a pensar em morrer.
Pior, o motivo aparente, morrer apenas.
Não por ser em Portugal, morrer normalmente, tanto faz onde.
Morrer tem sido ir embora cada vez que a saída é sempre essa. Tenho medo. Muito medo.
Portugal destrói e corrói o que ainda nem nasceu. Dizem que sempre foi assim, mas eu não digo nada. Fico calada.
Tenho outra vida. Onde eu vivo eu vivo. Onde eu moro, Onde eu morro, onde eu me mato e ressucito..
Nasci com outra vida. Esta aqui.
Tenho alguns outros medos. Outros normais. Estão sempre comigo, sempre hão-de servir para alguma coisa, para me salvar em caso de perigos inúteis.
Verdadeiro é o medo de estar viva e me ofender ao me defender com a vida.
Não existem medos úteis, nem perigos.
Nem explicações para o tempo que nos roubam e nos devolvem mais tristes.
Mais fortes.
Mais fracos, frágeis, menos ágeis, mais velhos.
Eu sou corajosa. Mas a coragem não se expõe para os outros. O medo é sempre o mesmo medo da memória dispersa. Se existisse em Portugal um medo superior, de alguma coisa verdadeiramente séria, talvez, muito a custo, se explicaria o invisível nivel de coragem e de visão. Somos apenas sobreviventes. Destemidos, corajosos, viventes do mesmo e eterno incendio , esse rescaldo inutil e permanente das vidas já geladas em Portugal.
Esse rescaldo inteligente do dia anterior.
Não se chega aos limites, não se chega às linhas que nos separam, estamos sempre lá, longe ou perto.
Impossível de evitar o confronto, a convivência desumana, ao entre nós e os outros.
Pretendo continuar a esconder-me desta penunbra eternamente noite. Na propria noite me refugio. Entre os olhos felhados e os olhos tapados.
Portugal é lindo de morrer , origem de tão ilustre elogio funebre turístico.
A esperança ameaça despertar eternamente dos sempre mesmos sonhos repetidos.
Mas Portugal não dorme, não pode despertar.
Vagueia na doce melancolia da distância do caminho.
Batem leve, lentamente, como quem não chama por mim, e chego a pensar que é dor, a dor que devora assim, que outrora sempre senti, na estranha melancolia, do regresso ao indiferente, que é de noite eternamente, e o dia pensa que é dia, na distância do caminho, que chega a pensar que é gente, descontente, sem destino, numa tristeza sem fim.
Fui ver.


EUGÉNIA NOVEMBRO 2005 - LANÇAMENTO "DES CONS TRU ÇÃO" EM PORTUGAL
Publicado por Eugénia Melo e Castro às 01:37
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