Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007

Clipping imprensa

No jornal "Dica da semana", capa e entrevista com Eugénia Melo e Castro,


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"Um artista que não se apresente ao seu público ao vivo, não é um artista vivo"



13 anos depois de ter pisado um palco português pela última vez. Eugenia Melo e Castro
prepara-se para iniciar uma tournée nacional em Junho, cujo primeiro espectáculo está já
agendado para o Centro Cultural de Belém no dia 16. Aos 48 anos de idade e depois de ter apostado numa carreira além fronteiras, a cantora portuguesa sobe aos palcos nacionais para comemorar 25 anos de carreira e apresentar ao público português o seu último trabalho, intitulado "Des Cons Tru Ção", uma vez que desconstrói 22 músicas do cantor e compositor Chico Buarque. Antes de partir novamente para o Brasil, onde já se encontra em estúdio a gravar um novo disco, ainda sem edição prevista em Portugal, a cantora recebeu o jornal Dica da Semana na sua casa no centro de Lisboa, onde passa a maior parte do ano.


Dica da Semana - Como é que nasceu a ideia de desconstruir as músicas do Chico Buarque?
Eugenia Melo e Castro - A desconstrução específica das músicas é uma coisa que eu faço desde sempre e em quase todos os meus discos. O conceito começou a nascer na tournée do 'Paz", o meu disco anterior, onde já fazíamos a desconstrução do tema "Construção", do Chico. Começámos por ensaiar as músicas, depois fomo-las apresentando, as pessoas reagiram bem e de repente começámos a aperceber-nos de que tínhamos uma linha. A verdade é que eu sempre quis gravar um disco com músicas do Chico, mas não de uma maneira normal, porque isso já muita gente fez. No fundo, tudo tem a ver com o grande conhecimento que eu tenho da obra do Chico, porque só quando uma pessoa tem uma grande intimidade com uma coisa é que pode começar a desconstruí-la e a brincar com ela, porque lhe conhece muito bem as bases. Além disso, tivemos a sorte de o poder fazer com a aprovação do Chico, que inicialmente estava bastante curioso, porque não fazia ideia do que é que eu ia fazer com as músicas, mas depois, à medida que foi recebendo as demos foi-se entusiasmando cada vez mais. Ele praticamente não interferiu em nada, só dizia se gostava ou não.

DS - A escolha do repertório foi pacífica?
EMC - Começámos por escolher apenas temas de que o Chico fosse autor da música e da letra, o que já reduziu bastante o leque de selecção. Há temas que eu tive imensa pena de não ter gravado, porque eram temas feitos em parceria, como por exemplo o "Choro Bandido" ou a "Valsa Brasileira", que são dele e do Edu Lobo e a "Tatuagem", que é dele e do Ruy Guerra.

DS - Desconstruir músicas de um compositor como o Chico Buarque, por quem a Eugenia tem uma profunda admiração, provocou-lhe algumas angústias?
EMC - Se estiver a falar no sentido do medo, acho que é profundamente natural em alguém que tem o mínimo de juízo. Temos é que saber lidar com esse medo e não deixar que isso nos paralise. Acho que tive algum medo, mas soube usá-lo a meu favor, até porque já tenho uma longa carreira e poeticamente sinto-me muito mais segura. É preciso deixar bem claro que isto não foi uma experiência, este disco foi feito conscientemente e à minha maneira e isso, por si só, provoca logo à partida muito menos angústia, uma vez que as angústias e os medos vêm sempre das incertezas e eu nunca tive dúvidas em relação à consistência deste projecto.

DS - Quando partiu para o Brasil, com apenas 21 anos de idade, do que é que foi à procura?
EMC - Acima de tudo, de música e de liberdade, sendo que a liberdade é uma coisa muito difícil de administrar, principalmente a liberdade responsável e criativa, que foi aquilo que eu sempre procurei e que naquela época não existia em Portugal.

DS - E encontrou aquilo de que tinha ido à procura?
EMC - Encontrei, embora nunca tenha feito grandes fantasias. Eu sempre fui muito metódica e organizada e portanto não invento fantasias onde elas não existem. Fui para o Brasil de coração aberto, à espera de poder ver in loco o universo em que tinham nascido todas aquelas músicas que eu tinha ouvido durante toda a minha adolescência. No fundo, parti para o Brasil porque queria fazer parte de um universo do qual eu já era cúmplice em Portugal, enquanto ouvinte. Por isso, é que assim que lá cheguei me senti imediatamente integrada naquele conceito musical, talvez por isso é que eu tenha sido tão bem aceite, uma vez que nunca me coloquei como outsider.

DS - Foi um início de carreira fácil?
EMC - Não, as coisas foram extremamente difíceis. Fiquei quase quatros anos com a maquete na mão a tentar gravar o meu disco e não conseguia, até porque no meu tempo as pessoas ainda tinham de dar provas de capacidade para conseguirem gravar um disco, que é uma coisa que depois se foi perdendo, ou então era-se voz de um projecto de alguém, coisa que eu nunca quis. Por isso é que fiz uma carreira tão solitária, por saber muito bem aquilo que quero e que não quero. Além disso, nessa época recusei ir ao Festival da Canção, o que não foi muito bem aceite em Portugal, onde as pessoas diziam que eu nunca ia conseguir fazer carreira na música se não passasse pelo Festival da Canção. No entanto, a minha rebeldia nunca foi uma rebeldia sem causa, sempre foi estruturada. Eu simplesmente achava aquilo um horror, não gostava e portanto não queria fazer parte. Aquilo era tudo o que eu não queria. Felizmente, depois de ter ido para o Brasil o meu trabalho acabou por ser muito bem recebido aqui em Portugal, porque significou uma lufada de ar fresco.

DS - No entanto, ao longo destes 25 anos de carreira, o seu trabalho é muito mais reconhecido no Brasil do que em Portugal.
EMC - Os meus espectáculos ao vivo foram essencialmente lá e um artista que não se apresente ao seu público ao vivo, não é um artista vivo, é apenas um artista de disco, ou seja, se o público não o vê também não o sente. Não adianta muito eu lançar os meus discos em Portugal sem me apresentar aqui ao vivo, por isso é que eu não conquistei novos mercados nem novas gerações em Portugal. No Brasil há uma continuidade viva e real do meu trabalho, porque eu me apresento ao vivo frequentemente.

DS - Fá-lo por opção?
EMC - Sim, mas porque percebi que havia algumas adversidades e algumas coisas que me incomodavam em Portugal. Das poucas vezes que tentei apresentar-me ao vivo em Portugal as coisas não deram certo e as coisas quando não dão certo é porque não são para dar. No fundo, cansei-me um bocado de dar murros em ponta de faca, até porque culturalmente falando eu nunca coincidi com as fases portuguesas e nunca sequer tentei adaptar-me ao momento actual do país, para me conseguir inserir num determinado contexto musical. Esta foi a minha estratégia de vida e de sobrevivência, para não ter de fazer coisas de que não gostava.

DS - Acha que a ideia que o público português tem de si é correcta?
EMC - Não. O meu lado público é extremamente tímido. O meu problema em relação à exposição mediática não é ser reconhecida nem abordada, eu tenho é medo que exijam de mim uma postura pública quando eu estou numa situação pessoal. No início da minha carreira isso acontecia-me muito aqui em Portugal. Eu entrava num restaurante com um amigo para jantar ou para almoçar e no instante a seguir tinha o dono a pedir-me para cantar e isso incomodava--me imenso. Hoje sou a primeira a pedir para ir, mas durante muitos anos eu não conseguia ter essa liberdade e esse à vontade. Em situações públicas sempre fui extremamente tímida, por isso é que as pessoas têm uma ideia errada de mim, porque fico extremamente inibida, retraída e constrangida e isso deixa transparecer uma certa antipatia.

DS - O programa "Atlântico" foi um dos grandes projectos da sua vida?
EMC - Foi quase um dos projectos da minha morte. O resultado final foi muito bom, mas para mim foi muito complicado, porque a produção artística ficou quase toda a meu cargo. Terminei o programa com 47 quilos e sem conseguir articular uma palavra, porque já não tinha energia sequer para pensar, por isso é que dei a apresentação quase toda ao Nelson Mota e fiquei apenas como anfitriã. Foi um programa que me deu muito gozo fazer e idealizar, mas que ao nível pessoal foi extremamente desgastante. Apesar de tudo, já estou a pensar na possibilidade de fazer um novo programa desse género, inclusivamente com sangue novo e misturando gente de áreas musicais completamente diferentes. O que poderá acontecer em breve.

DS - Treze anos depois de ter actuado em Portugal pela última vez, está ansiosa por voltar à estrada, no seu país?
EMC -Acima de tudo estou cuidadosa, mas sinto-me muito bem preparada. Neste momento sinto-me uma mulher muito mais segura e tranquila, inclusivamente para poder enfrentar algum tipo de contrariedade que possa aparecer.

M.J.F.
Publicado por Eugénia Melo e Castro às 01:22
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