Domingo, 23 de Abril de 2006

6 canções para se ter em casa (II)

Há uma máxima que diz que a luz está no caminho e não no destino. É a procura, a busca, que trazem o conhecimento e a sabedoria, e não os portos de chegada. As canções de estrada, as chamadas canções estradeiras, seriam a tradução em música dessa máxima, desse conceito filosófico e espiritualista.

Neste capítulo das “6 canções para se ter em casa” (o primeiro “lote” está no dia 27 de fevereiro deste blog, para quem quiser dar uma olhadinha), o tema é esse, a estrada, o caminho, a procura.

Na música brasileira, há muitos exemplos bastante significativos da “canção de estrada”. Seguem algumas sugestões brasileiras e um exemplo da música “de viagem” americana. Vamos nessa?

“Fogo Caipira”, de Sá e Guarabyra – Álbum “Paraíso Agora”, de 1984: ícones da canção estradeira, Sá e Guarabyra viajaram o Brasil inteiro, sertão e litoral, conheceram pessoas, lugares, tradições e costumes, e retrataram durante anos a fio as histórias da gente do interior, de uma maneira singela e muitas vezes comovente. São muitos os exemplos, mas escolhi esta linda canção que fala da viagem, do amor simples e de uma saudade: “...por mais que eu viva a viajar, fogo caipira acende em mim a lembrança que você deixou...” .

“Na carreira”, de Edu Lobo e Chico Buarque – Álbum “O Grande Circo Místico”, de 1982: o circo sempre remete ao deslumbramento, às lembranças da infância, ao protótipo mais bem acabado do artista mambembe, da troupe que chega e parte, que não tem morada. O disco “O Grande Circo Místico” é um álbum fundamental da música brasileira. Canções maravilhosas, interpretações inesquecíveis, exemplos irrefutáveis da genialidade do Chico Buarque e Edu Lobo. O Chico não é um “viajante” na acepção metafórica do termo, mas como ele é múltiplo, futebolista que chuta com as duas, cabeceia e lança sem olhar, incluí-lo por 3 vezes nesta lista, passa a ser uma homenagem. E também um agradecimento por ele ter denominado seu próximo DVD de “Desconstrução”, o que só pode ser uma clara homenagem à nossa Eugénia, já que plagiador ele nunca foi. Voltando ao nosso tema, a canção “Na carreira”, última faixa do “Circo Místico”, trata dessa incessante viagem dos artistas na busca do encantamento: “hora de ir embora, quando o corpo quer ficar, toda alma de artista tem que partir, arte de deixar algum lugar, quando não se tem pra onde ir”. Belíssima.

“Bye, Bye, Brasil”, de Roberto Menescal e Chico Buarque – Álbum “Vida” de Chico Buarque, de 1980: a canção do caminhoneiro que viaja por um Brasil sem fim, numa viagem sem retorno e com uma saudade infinita e sem remédio. Está tudo ali, a espiral do tempo, a melancolia, um humor ao mesmo tempo sutil e cruel, a realidade multifacetada e bem diferente “do Brasil que vi na TV”. Tiro certeiro, uma das grandes letras do Chico, musicada pelo incansável Roberto Menescal.

“Mano a Mano”, de João Bosco e Chico Buarque – Álbum “Chico Buarque”, de 1985: desta vez, são dois os caminhoneiros, irmãos e amigos, parceiros desde sempre, a amizade perfeita e imortal. “Eu era ele, ele era eu” era o mote, o lema. Só que o destino prega uma peça, e o amor por uma mesma mulher traz a desgraça, o final bíblico. Chico enumera os possíveis nomes dessa mulher fatal, citando cidades do interior do Brasil, como “Nova Viçosa”, “Matriz”, “Flor do Sertão”, “Diamantina”, “Imperatriz”, “Estrela”. E a gravação conta com o “auxílio luxuoso” do co-autor João Bosco, na segunda voz e com seu violão endiabrado. De se tirar o fôlego.

“Sétima do Pontal”, de Renato Borghetti – Álbum “Renato Borghetti”, de 1987: existem canções que não precisam de letra para apontar caminhos para a nossa imaginação. Esta música instrumental do grande Borghettinho, acordeonista admirável do Rio Grande do Sul, nos leva aos pampas gaúchos, sem escalas, com direito a chimarrão, bombachas, e largos horizontes.

“Refuge of de the roads”, de Joni Mitchell – Álbum “Hejira”, de 1976: a compositora e cantora canadense Joni Mitchell é uma das grandes “viajantes” da música popular norte-americana. Seu disco “Hejira”, já citado por este colunista no primeiro “lote” das canções para se ter em casa, é seu trabalho mais estradeiro, mais “beatnick”. A canção “Refuge of the roads” leva o ouvinte para uma viagem emocional pelas infindáveis planícies americanas.

Pronto, aí está um roteiro mínimo. Boa viagem a todos. Não esqueçam do cinto de segurança, pois as emoções serão fortes.
Publicado por Eugénia Melo e Castro às 11:22
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