Sexta-feira, 5 de Maio de 2006

Samba-canção

Cheguei muito tarde em casa, exausto. Tínhamos tido um dia cheio, de muito trabalho, mas trazia comigo aquela sensação de dever cumprido. Finalizamos mais duas músicas para o disco, e a Eugénia estava radiante. Embora cansada, ainda era possível enxergar sua aura luminosa, o sorriso estampado no rosto, o corpo relaxado. A madrugada já ia alta quando resolvemos fechar o estúdio e ir embora. Deixei Eugénia em sua casa e fui para a minha recordando tudo que ocorrera naqueles últimos meses. Desde que ela me convidou para ser seu diretor musical, minha vida tinha virado do avesso. Todos sabemos que a mulher é um furacão, mas só trabalhando com ela para ter uma noção mais exata da realidade. Desde a concepção preliminar do disco, idéias em profusão e muitos dias de pesquisa, até a fase das gravações, o ritmo era vertiginoso, estimulante, desafiador.

Quando ela finalmente aceitou uma antiga idéia minha, a de gravar canções brasileiras de amor das décadas de 40 e 50, pensei que ia alçar vôo. Literalmente, se é que me entendem. Ficava imaginando o que ela poderia render com as nossas canções clássicas, fascinado que sou pelos seus discos com as canções portuguesas do início do século passado e pelo disco com as músicas do Vinícius de Moraes. E fomos à luta. Discos antigos, livros sobre o assunto, revistas de época, andamos por todo o canto para encontrar e definir as 14 canções do álbum.

Hoje quando terminamos a gravação de “Ocultei” do Ary Barroso, todos caíram no choro. Eu, os músicos, os técnicos, a Eugénia. O que tinha sido aquilo? Que sensações são essas que não conseguimos exprimir em palavras, que todos partilham ao mesmo tempo? Durante os ensaios, ríamos muito por causa da letra tragicômica, de amor e de ódio desbragados, e que propiciava à Eugénia soltar sua veia teatral ora dramática, ora pândega. Mas quando terminamos de gravar, aquele choro coletivo era uma fiel tradução da nossa herança de melancolia, brasileiros e uma portuguesa imensamente fragilizados, imersos numa espiral do tempo. Samba-canção e fado.

Nessa noite pensei muito em Nora Ney, Linda e Dircinha Baptista, Isaura Garcia, Sylvia Telles, Maysa, Claudette Soares, Dolores Duran, na Divina Eliseth Cardoso cantando “Ocultei” no disco “Canções à Meia Luz” de 1955. O amor derramado, desmedido, sem estribeiras. Não há mais espaço para ele nestes tempos bicudos.

O despertador tocou. A cena clássica toma conta de mim, de meu desassossego. Ergo-me de um salto, o quarto está na penumbra, uma luz tênue teima em passar pela fresta da janela. Foi um sonho. Pena.

Tudo bem, foi um sonho, mas não vou “ocultar” a letra da canção. Deliciem-se.

OCULTEI (Ary Barroso)

Ocultei,
Um sentimento de morte
Temendo a sorte
Do grande amor
Que te dei.

Procurei
Não perturbar
Nossa vida,
Que era florida
Como a princípio sonhei.

Hoje, porém,
Abri as portas do destino
Mandei andar o amor
Um mero clandestino.

Encerrei,
Um episódio funesto
Agora detesto
Aquele a quem
Tanto amei.

O meu mais ardente desejo
Que Deus me perdoe o pecado
É que outra mulher
Ao teu lado
Te mate, na hora de um beijo.
Publicado por Eugénia Melo e Castro às 22:11
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