Quinta-feira, 18 de Maio de 2006

Fundo do baú

Alma sem fronteiras


Um bate-papo suculento com Eugénia Melo e Castro por Iuri Dantas 08/02/2001


Se Portugal e Brasil falassem a mesma língua, talvez Eugénia não tivesse se interessado pelo nosso país há exatos 20 anos. A diferença que existe na semelhança da língua portuguesa, cativou a cantora. Ao lado do jornalista Nelson Motta, ela apresentou o programa Atlântico, apostando em duetos luso-brasileiros. Confira a entrevista abaixo:


 - Como surgiu a idéia de vir para o Brasil em 1981? Eugénia Melo e Castro - Vim um pouco seguida pelo meu instinto. Era muito nova, tinha apenas 21 anos. Para mim, era um pouco vir conferir o que havia conhecido por discos sobre a MPB; era vir conferir, no fundo, se haveria um espaço possível, se não seria uma utopia algum tipo de atividade positiva de uma cantora portuguesa... No fundo, fazer uma viagem em relação ao meu sonho.


- Como foi seu primeiro contato com a música brasileira? Eugénia - Comecei com Caymmi, Caetano, Gal, Chico, que era mais urbano, Milton em Minas. Passei a conhecer as várias regiões do Brasil através da música.


- Como foram esses 20 anos de carreira? Eugénia - Sei trabalhar devagar. Ir em frente é o que me interessa. Minha vida é totalmente dedicada, pra cá e pra lá gravação, composição conhecimento... sempre muito na minha, sem empresário, sem agente. Ajuda tive dos amigos. Nada muito profissional no mau sentido; foi tudo feito de uma forma profissional no sentido de quem gosta de fazer as coisas da sua maneira e quando tive pressão do mercado fugi.


- E isso foi bom? Eugénia - Ajudou por um lado, porque sempre consegui ser fiel a mim mesma o tempo todo, sempre culpo a mim pelas coisas não muito bem-feitas. Mas, com 20 anos passados, adoraria, ajoelho no milho à procura de um empresário como apoio jurídico, estou um bocado cansada e há certas coisas que já não interessam nada como batalhar divulgação e outras chatices.


 - Isso acaba desanimando... Eugénia - Obviamente, estou cansada. Chega uma certa altura em que as coisas acontecem de outra forma. Para mim, é um esforço enorme fazer 5, 6 viagens por ano, envolver-me com burocracia, autorizações de show, etc. O tempo que estou no palco ou a compor é mínimo comparado a resolver chatices. Nunca vou desistir da música, mas talvez esfrie um pouco o querer mostrar. Talvez me recolha mais e fique na minha, quieta.


 - Existe algum tema preferido nas suas composições? Eugénia - Nunca abordei temas do cotidiano, crítica social ou análise social nem nada político. Cheguei a cantar com Zeca Afonso, comecei com a luta contra ditadura, mas o meu conteúdo tem mais a ver com relações humanas. Um tema de grande emoção em torno do significado das palavras, algo mais literário.


- Você possui algum escritor preferido? Eugénia - Não tenho muito autores preferidos. Absorvo tudo aquilo que me interessa. Tenho esse dom de passar completamente ao lado do que não vai me acrescentar. Sou tão exclusivista naquilo que me interessa que nem vejo o resto. Estou sempre atenta, sempre a ver. Às vezes é um texto no jornal ou um caso que soube ou uma coisa que li. Aos 16 anos convivia com Gabriel Garcia Marques, por causa de sua amizade com meu pai... Em minha vida tudo sempre foi muito exagerado, em relação à musica, à poesia. Tudo do bom e do profundo.


- Como foi a experiência com o projeto Atlântico? É possível Portugal e Brasil estreitarem os laços musicais por causa da língua? Eugénia - Foi uma grande empreitada. Tirei disso tudo depois de ter visto, que é possível fazer trabalhos conjuntos entre Brasil e Portugal. O interesse interno de cada artista é o que move o acontecer das coisas, são criadas poucas opções, acho que foi um trabalho muito recompensador. Tivemos duetos extraordinários.


 - Este ano serão seis novos discos no mercado. É ir um pouco contra a corrente da maioria que acaba fazendo um ou dois CDs por ano, não acha? Eugénia - É a tal história. Não acho que tenha de obedecer nenhum tipo de regra. As regras nunca existiram e não existem para a música que faço. Sempre me consideraram outsider. Não estou nem aí para as regras, vou lançando à medida que os discos saem das fábricas. Como o mercado, à medida que me conhece, quer saber o que eu fiz e como foi, o que me interessa é que as pessoas consigam entrar numa loja e comprar meu disco. Não tenho ilusões de que vai estourar. Nunca estive na onda do momento e tenho que tirar proveito disso. Só vou ter os discos todos cá fora até o final de junho, intenciono começar a cantar ao vivo. Farei duas apresentações na Funarte, em São Paulo, em abril e depois em maio os shows pelo Brasil.


- Para quem está de fora, parece que a MPB da bossa nova e tropicália marcaram demais sua carreira. Poderia falar um pouco mais sobre isso? Eugénia - A primeira coisa que me chegou foi o Chico. A Banda, porque conseguia entender a letra. Na época a língua era meio rejeitada. De repente, tudo mudou um pouco com essa descoberta. A partir daí meu pai veio aqui no Brasil e começou a procurar Joao Gilberto... tornei-me uma central de música brasileira e via de tudo: Maria Bethania, Jovem guarda, Rita Lee, Raul Seixas... A música começou a sair um pouco desta linha, quando o pop começou a tomar espaço, a arrebentar mesmo e aí eu já estava aqui. Acompanhei todos os movimentos. Estes discos que estou lançando são da década de 1980. Os duetos foram feitos nestes vinte anos.


- É o registro de toda a sua carreira... Eugénia - Quero fazer um trabalho completamente diferente, um dos motivos de lançar toda a obra, é para me livrar um pouco dela. Uma morte mais representativa, para me libertar dessa época e passar para uma coisa nova, que não tem nada a ver com MPB. Estou propensa a voar em outras direções.


- Os vinte anos de carreira trouxeram mais inspiração? É diferente, agora? Eugénia - Uma coisa é a sede de realidade e cultivar os sonhos e vencer batalhas. Na juventude, os nãos são sempre talvez. Agora, estou mais de curtir o momento, quando acontece alguma coisa boa consigo esticar mais possível o momento. Os quarenta foi uma benção porque havia um lado um pouquinho mais ansiosa que está mais calmo ou acho que está em vias de ficar. Com 20, 21 anos, quando lancei meu primeiro disco dei uma entrevista e do alto da minha inocência, disse que estava doida para fazer 40 anos. É claro que ganhei todos os prêmios de mulher do ano por causa dessa frase... Bem, mas lá fui eu. Achava que a minha vida seria um mar de rosas, que aos quarenta teria chegado lá... Mas quando cheguei, pensei que não tenho mais vinte ou trinta anos para conseguir tudo que quero. Os sonhos não acabam só muda a maneira de os conseguir.


- Quem é Eugenia Melo e Castro? Como vc se define? Eugénia - É cada vez mais uma pessoa a procura de um determinado sossego. Fui uma pessoa extremamente sonhadora, empreendedora. Nunca peço a ninguém para fazer nada, sou ativa, o trabalho não mete medo, a única coisa que me mete medo é incompetencia e maldade. O resto pode vir que eu estou pronta Não gosto de ficar parada. Gosto de rir, sou extremamente sarcástica, crítica, mas não a ponto de ofender ninguém, sou atenta a tudo que se faz, e ao mesmo tempo sou desatenta com o que não me interessa. Levo grande sustos com isso.

Publicado por Eugénia Melo e Castro às 01:08
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Ouça aqui

EMAIL/ CONTACTOS/ SITE OFICIAL

eugeniamc@sapo.pt http://www.eugeniameloecastro.com

Bem Querer / Futuros Amantes


Veja mais vídeos aqui!

AVISO AOS NAVEGANTES :

ESTE BLOG É (TAMBÉM) UMA BASE DE DADOS ACTUALIZADOS SOBRE EUGÉNIA MELO E CASTRO. DESTINA-SE AO REGISTO DE ENTREVISTAS, MATERIAIS DE IMPRENSA, MÉDIAS, MP3, VIDEOS, MATERIAL DE PESQUISA, BIOGRAFIA, HISTÓRIAS, OPINIÕES, CRÓNICAS, FOTOS, DATAS, AUTORES, MÚSICOS ENVOLVIDOS, ASSUNTOS RELACIONADOS, DEPOIMENTOS, LINKS RELACIONADOS, AGENDA DE SHOWS, ACTUALIZAÇÃO DE ACTIVIDADES, LANÇAMENTOS E RELANÇAMENTOS DE CDs, DVDs, PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS, GRAVADORAS, DIREITOS AUTORAIS, LETRAS, CONVIDADOS ESPECIAIS, ONDE, COMO E QUANDO.

Arquivos

subscrever feeds

blogs SAPO