Sexta-feira, 23 de Junho de 2006

11 considerações sobre o futebol e a vida

Se a memória não me falha, já ia eu com meus 8 anos ao pé do rádio para ouvir as narrações de futebol. Já havia também algumas transmissões ao vivo na TV, e nessas horas os brinquedos ficavam de lado e os olhos de menino grudavam na telinha. Daqui a alguns anos (poucos, infelizmente) terei meio século de bola rolando. Ou de bola parada, já que as histórias sobre o futebol são tão boas quanto o jogo em si. Nas últimas Copas do Mundo, quando minha juventude já era só uma lembrança e o viço da tenra idade e da ingenuidade já iam longe, mandei andar também o patriotismo. Sou um torcedor do futebol, e acho que Copa do Mundo serve para isso mesmo: festejar o esporte mais popular do planeta e a partir dele observar o mundo, as pessoas e os costumes.

Como a seleção brasileira andou doente dos pés e ruim da cabeça no início desta Copa, muito longe de ser a esquadra tão incensada antes da bola rolar, como o seu futebol ainda precisa evoluir muito a tempo de enfrentar uma seleção mais difícil (o jogo de ontem com o Japão não conta, até o Ronaldo Fofômeno conseguiu fazer 2 gols quase sem se movimentar!), andei torcendo contra meu panteão nacional, contra a bandeira que mais balouça e tremula nas TV’s, nos jornais, nas ruas. Caros brasileiros que me lêem, não me queiram mal. Tentarei explicar, posição a posição, as razões do meu desencanto. Seguem 11 considerações, os meus 11 porquês:

1) O futebol “de resultados” é uma praga. Joga-se mal, mas o resultado de 1 x 0 é festejado como uma goleada. O importante é se “classificar”, o importante é “vencer”. Essa filosofia é até aceitável nos campeonatos interclubes, afinal é a rivalidade que determina os comportamentos, as aflições, aquela dor de estômago antes de um jogo importante, a garganta seca antes de um clássico. Confesso meus pecados: se o meu Tricolor ganha do Corinthians, o arqui-rival, fecho os olhos para o pênalti não marcado contra minha cidadela, relevo um gol de mão do meu time que o juiz validou (afinal, nessas horas a “bola na mão” é a melhor desculpa...), esqueço que jogamos mal se vencemos no último minuto com um gol em impedimento. Sou um torcedor de clube politicamente incorreto! Agora, na Copa, é diferente. Principalmente para o Brasil, que tem a obrigação de jogar sempre bem.

2) O Brasil já é Penta Campeão do Mundo. Então, qual é a graça de ser Hexa jogando mal? Só para ter mais um título? É necessária mais essa comprovação? Ou é a baixa estima do nosso povo que precisa desse afago, não importando como ele veio? A julgar pelo que se vê na TV oficial, a Globo, e o que se nota em todo o canto, os fins parecem justificar os meios.

3) O futebol é, sem dúvida, o esporte mais popular do planeta. Devem existir milhares de teses sociológicas e filosóficas que tentam explicar essa verdade, mas trago comigo três grandes justificativas. A primeira, de cunho econômico: joga-se o futebol em qualquer canto, em qualquer campinho, tendo-se uma bola, é claro, e pelo menos dois jogadores. Uma brincadeira de disputa de pênaltis já é futebol, um campeonato de “embaixadas” já é futebol. Ou seja, é um esporte baratíssimo. A segunda, de cunho legislativo: as regras do futebol de campo são quase as mesmas desde quando foram inventadas. Ou seja, pouco se modificou nas leis no decorrer da história, e quase todo mundo sabe de cor o que pode e o que não pode. Só as mulheres não conseguem entender o que é o “fora de jogo”, o “impedimento”. O “impedimento” é o último segredo masculino e o último bastião da nossa “suposta” superioridade. A terceira, a mais importante, de cunho social: um pequeno pode vencer um grande, Davi pode vencer Golias. Ou seja, a habilidade, a sutileza e a astúcia têm as suas chances contra os poderosos. E o futebol, mais do qualquer outro esporte, apresenta essa possibilidade.

4) As grandes vitórias entram para a história. As grandes derrotas também. No entanto, as vitórias sem brilho nem sempre são lembradas, ou se o são, há sempre um “porém”, um “se”, um quase pedido de desculpas, um pouco de vergonha camuflada. Por isso discordo de quem desdenha a seleção brasileira da Copa de 1982, na Espanha. “O que adiantou jogar bonito e perder a Copa?”, dizem os idiotas da objetividade. A verdade para os que amam o futebol é que a seleção do técnico Telê Santana, de Zico, Sócrates, Falcão, Junior, etc., está no campo do imaginário, no olimpo dos deuses dos estádios, na nossa mais grata lembrança. É uma seleção reconhecida como uma das “dez mais” da história. Não ficou com a taça, mas será que isso é assim tão importante?

5) Há outras seleções que perderam, mas não perderam a majestade. A Holanda da Copa de 1974, o carrossel holandês, a “laranja mecânica” e seu endiabrado balé onde ninguém tinha posição fixa. A Holanda assombrou o mundo, revolucionou o futebol, trouxe novos horizontes para um esporte tão conhecido. Perdeu na final para uma poderosa Alemanha, dona da casa, que tinha também um grande time e que soube suportar e conter a correria e a habilidade dos laranjas. A Hungria da Copa de 1954 também fez história. Jogou tão bem que quem a viu jamais esqueceu. Impôs à Alemanha uma sonora goleada de 8 tentos na fase de classificação. E, para espanto do planeta, perdeu para a mesma Alemanha na final.

6) A derrota pode trazer em seu bojo a grande lição, o aprendizado, a iluminação, o “satori”. Nem sempre é assim, mas o drama e a tragédia da derrota podem ser reveladores, desnudar. A vitória que trás a alegria, a comemoração, pode às vezes encobertar, camuflar. O Brasil tinha o melhor time da Copa de 1950, jogava em casa e jamais havia conquistado a cobiçada Taça Jules Rimet. Era a nossa grande chance, era a nossa vez. Derrotou com folga todos os seus adversários no decorrer do torneio. A final com o Uruguai seria só mais uma etapa para o grande e definitivo sucesso. Jornais já impressos antes do jogo, manchetes entusiastas e ufanistas, éramos os melhores do mundo. Mas o Uruguai, com um gol no final da partida, venceu o Brasil. Quem estava presente no então recém inaugurado Maracanã viveu uma experiência fantástica e inesquecível. A mais inabalável das certezas cedeu a vez a um imenso descrédito, à mais terrível tristeza. Quase 200 mil pessoas no “maior do mundo” ficaram mudas, estáticas, sem se dar conta do que havia acontecido. Diz-se que foi o mais devastador silêncio de uma multidão que se tem notícia.

7) O cronista José Trajano, da ESPN Brasil, saiu-se com esta outro dia: a Copa do Mundo tem que encantar o entusiasta do futebol bem jogado, tem que trazer alguma novidade, tem que alçar ao estrelato um novo craque, tem que mostrar ao mundo uma nova escola de bola, enfim, tem que ser menos previsível. Se uma seleção tradicional for a vencedora, o que normalmente acontece, que o faça com mérito, com um pouco de sonho, com magia. Assino embaixo.

8) Há cantoras que têm uma boa voz, que não desafinam nunca, que são perfeitas tecnicamente, mas que não encantam. O que lhes falta é chama, alma, entrega, sonho, magia. Música e Futebol têm aí seus paralelos. Acho que é por isso que se diz que este ou aquele time joga por música. O Brasil da Copa de 1994 foi campeão, levantou a taça, mas não encantou. Foi um time burocrático, sem grandes lampejos, mas eficiente. A canção “A Cara do Brasil”, de Celso Viáfora e Vicente Barreto, um maxixe delicioso muito bem interpretado pelo Ney Matogrosso no disco “Olhos de Farol, tem uma ótima letra que busca identificar a real face da nossa nação. Tem um trecho que é sintomático do que analisamos aqui: “Brasil, Mauro Silva, Dunga e Zinho / Que é Brasil zero a zero e campeão / Ou o Brasil que parou no caminho / Zico, Sócrates, Júnior e Falcão?...”. O arranjo de metais, com direito a tuba e bombardino, é excelente. Prometo publicar a letra completa em outra coluna.

9) Nelson Rodrigues dizia que a seleção é a pátria de chuteiras. No seu tempo, e no meu de menino e mesmo depois já adulto, era mesmo. Todos os jogadores estavam no Brasil, torcíamos desesperadamente para que os melhores do nosso time fossem convocados, morríamos de medo que esses mesmos jogadores fizessem alguma besteira em jogo da seleção. Hoje, a identificação com a seleção é bem menos visceral, embora paradoxalmente haja mais “festa” nas ruas, nas casas, nos bares. E muito mais, mas muito mais mesmo, “orquestração” da mídia e de marketing.

10) A coluna de ontem do José Geraldo Couto na Folha de São Paulo cita uma frase do escritor britânico Samuel Johnson, proferida em 1775: “O patriotismo é o último refúgio de um canalha”. Forte, não? Forte, mas talvez seja bem apropriada para vários dos cronistas ufanistas daqui. É um bom momento para a reflexão, para repensar o país e sua gente.

11) E uma outra frase para encerrar: é do escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de “As Veias Abertas da América Latina”, um verdadeiro “manual” da minha juventude e da minha geração. Éramos idealistas, ingênuos, sonhávamos com uma utópica “nuestra” América Latina. Diz assim: “Com o tempo acabei assumindo a minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo, de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - uma linda jogada, pelo amor de Deus! E, quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre – sem me importar com o clube ou o país que o oferece”.

É isso, fico por aqui. Falei das 11 posições. Não vou fazer nenhuma substituição. Não vou colocar nenhum “reserva”. Vocês já devem estar cansados de tanta elocubração.
Publicado por popogirl às 16:27
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
1 comentário:
De Jogos de Carros a 11 de Maio de 2011 às 16:45
Impecavel, parabens pelo Blog, Ricardo


Comentar post

Bem Querer / Futuros Amantes


Veja mais vídeos aqui!

AVISO AOS NAVEGANTES :

ESTE BLOG É (TAMBÉM) UMA BASE DE DADOS ACTUALIZADOS SOBRE EUGÉNIA MELO E CASTRO. DESTINA-SE AO REGISTO DE ENTREVISTAS, MATERIAIS DE IMPRENSA, MÉDIAS, MP3, VIDEOS, MATERIAL DE PESQUISA, BIOGRAFIA, HISTÓRIAS, OPINIÕES, CRÓNICAS, FOTOS, DATAS, AUTORES, MÚSICOS ENVOLVIDOS, ASSUNTOS RELACIONADOS, DEPOIMENTOS, LINKS RELACIONADOS, AGENDA DE SHOWS, ACTUALIZAÇÃO DE ACTIVIDADES, LANÇAMENTOS E RELANÇAMENTOS DE CDs, DVDs, PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS, GRAVADORAS, DIREITOS AUTORAIS, LETRAS, CONVIDADOS ESPECIAIS, ONDE, COMO E QUANDO.

Arquivos

subscrever feeds

blogs SAPO