Sábado, 4 de Julho de 2009

Eloy Varandas, o sertanejo ?????????? srsrsrsrrs

Os Sertões

 

“Onde resiste o sertão

 

toda casinha é feliz

 

porque à tardinha

 

tem Ave Maria

 

e o beijo da solidão”

 

 

“Casinha Feliz”, Gilberto Gil, 1985

 

Floresta no interior de um continente, região longe da costa, local afastado de povoações. É assim que os dicionários definem o termo “sertão”, de uma forma preponderantemente geográfica. E é nesses grotões do nosso continente, no meio do mato, em estradas de terra batida, com muita lama e poeira, que está rolando a 17ª edição do Rally Internacional dos Sertões. A largada foi em Goiânia, na noite do dia 23 de junho e a chegada será em Natal, já longe dos sertões, no dia 3 de julho. Largaram 128 veículos, somando-se carros, quadriciclos e caminhões, dirigidos e governados por 190 profissionais do ramo, que passarão por mais cinco estados: Tocantins, Bahia, Pernambuco, Ceará e Paraíba. Outros 1700 profissionais estão acompanhando a caravana, e mais 3000 darão suporte e assistência nas cidades-sede. É muita gente por esse mundão afora.

 

Todas essas pessoas já estão habituadas com aventuras desse tipo. Com certeza, já sabem que o Sertão é infinitamente maior do que as descrições geográficas dos dicionários. Misterioso e histórico, esse mundo habitado por homens e mulheres que vivem outro tipo de aventura, a da própria sobrevivência, cercados por lendas, estórias, “causos” e crendices, donos de um olhar completamente diferente do olhar urbano e conduzidos por um tempo mais vagaroso e onipresente, já foi tema de inúmeras canções de outros seres urbanos, aventureiros da música e de outros tipos de emoção.

 

A nossa música popular já teve milhares de edições desses ralis sertanejos, conduzidos por compositores, músicos, cantores e cantoras, que buscam no mítico universo do sertão, pistas para decifrar a alma brasileira. Gente das cidades grandes, gente do interior, gente que busca entender o reverso da grandiosidade do mar.

 

A turma do 17º Rally já está longe, mas ainda é tempo de buscar carona em cinco canções ambientadas no universo interiorano. Boa viagem...

 

 

NOITES DO SERTÃOComposição de Tavinho Moura e Milton Nascimento – Gravação de Milton Nascimento no disco “Encontros e Despedidas”, de 1985 –  Milton Nascimento, o ilustre mineiro que nasceu no Rio de Janeiro, mas que viveu sua infância e parte da juventude em Três Pontas-MG, sempre teve seu olhar voltado para o interior brasileiro, mesmo sendo dono de uma música sofisticada e indubitavelmente urbana. Esta bela e significativa canção, feita em parceria com Tavinho Moura, mineiro de Juiz de Fora, busca entender o mistério das noites sertanejas e sua relação com outro mistério, esse talvez ainda mais complexo, o do amor. Se ainda não é, fica aqui a sugestão para compor a trilha dos aventureiros dos ralis reais e os das viagens existenciais pelo imenso Brasil. Clique na capa do disco para ouvir a música.

 

 

VIOLEIROSComposição de Djavan – Gravação do autor no disco “Coisa de Acender”, de 1991 – As histórias de violeiros e suas sagas pelo interior brasileiro são temas de inúmeras canções da nossa música popular. Os famosos concursos de violeiros que ainda existem Brasil afora, desfilam o virtuosismo dos tocadores de viola, acompanhados ou não das apresentações dos repentistas, artistas do improviso do verso que se apresentam geralmente em dupla, desafiando um ao outro sobre a habilidade de juntar palavras e temas, que vão desde o duplo sentido bem-humorado e malicioso das histórias de amor e sexo, até outros mais complexos, carregados de adivinhações, enigmas, curiosidades, religiosidades, quando não caem no vasto terreno dos mais criativos insultos. Djavan, alagoano de Maceió, volta e meia põe o pé nessas regiões mais distantes das praias das Alagoas. E o faz com precisão como nesta canção sobre o mundo da música sertaneja. Clique na capa do disco para ouvir a música.

 

 

FOI-SE O QUE ERA DOCEComposição de João Bosco e Aldir Blanc – Gravação de João Bosco no disco “Essa é a sua vida”, de 1981 – João Bosco, mineiro de Ponte Nova, e o carioquíssimo Aldir Blanc, ex-psiquiatra, ex-baterista, e um dos maiores poetas da música brasileira, recriam o ambiente de uma típica festa do interior nesta impagável “Foi-se o que era doce”. A festa de noivado da filha de um tal Ribamar é cenário para um indefectível quebra-pau, típico de festas sejam elas do interior ou das cidades grandes (quem já não presenciou um?), narrado pela verve afiada de Aldir Blanc, e emoldurado pela rica música de João Bosco e seu violão irresistível. Aproveitem os acepipes e as guloseimas antes que a festa vire a maior bagunça. Clique na capa do disco para ouvir a música.

 

 

ATRÁS POEIRA

Composição de Ivan Lins e Vitor Martins – Gravação de Sá e Guarabyra no disco “Vamos por aí”, de 1997 Os viajantes Sá e Guarabyra, um carioca e outro baiano de Barra, fizeram de suas canções o itinerário da turma da mochila que, em tempos idos, buscou desbravar o interior brasileiro. Suas canções marcadamente autobiográficas são ricas na descrição dos cenários, dos locais, das pessoas e dos costumes da gente do interior. Raramente gravaram obras de outros compositores, mas esta canção do carioca Ivan Lins e de seu constante parceiro Vitor Martins, tem todo o estilo e a estética do que sempre se propuseram a fazer. Uma história em espiral sobre traições, vinganças, desacertos, amores desfeitos e uma saudade sem remédio, é ambientada no insondável sertão e vivida por seus personagens trágicos. Clique na capa do disco para ouvir a música.

 

 

CUITELINHO – Canção folclórica recolhida por Paulo Vanzolini e Antonio Xandó – Gravação de Pena Branca e Xavantinho no disco “Cio da Terra”, de 1987 – Mineiros de Uberlândia, Pena Branca e Xavantinho são gente da terra, do interior profundo, e podem cantar com toda a verdade e propriedade, as nuances da singela “Cuitelinho”, uma bonita canção folclórica. Alçados ao palco do horário nobre da TV em uma histórica apresentação com Milton Nascimento no programa “Chico & Caetano” da Rede Globo, veiculado de abril a dezembro de 1986, tornaram-se desde então uma referência para a canção sertaneja, tão bela e cheia de significados de um Brasil imemorial. Xavantinho já foi tocar viola no céu, Pena Branca ainda está firme por aí, mas a música da dupla continua espelhando em sua simplicidade e paradoxal grandeza, a imensidão do tempo e a fertilidade das raízes musicais brasileiras. Clique na capa do disco para ouvir a música.


Eloy Dias Varandas (
colunistas@motornews.com.br) é engenheiro elétrico com especialização em Automação Industrial, pesquisador musical e colecionador de discos. Eloy estréia sua coluna aqui no Motor News.

 
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Publicado por Eugénia Melo e Castro às 23:51
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