Segunda-feira, 9 de Outubro de 2006

Águas de todo o ano

Quando recebi o convite para fazer alguns textos sobre os discos da Eugénia, em comemoração aos seus 25 anos de carreira, fiquei muito lisonjeado e preocupado ao mesmo tempo. Perguntei aos meus botões se estaria à altura da empreitada. De cara, devo admitir que ninguém sabe mais da Eugénia que o Jonas, o nosso Rayoflight, que dividirá comigo as resenhas. Portanto, já saio em desvantagem. Por outro lado, pouca gente sabe tanto de música como a própria homenageada, e eu, a anos-luz de distância do seu conhecimento, me ponho a dar palpites. É uma grande petulância, não? Mas, enfim, vamos lá.

Por onde começar? Pelo começo, reza a minha cartilha da sensatez e da lógica. E o meu começo tem uma historinha pitoresca. Estamos em uma sexta-feira de 1983. Saí à noite para um compromisso, mas deixei meu videocassete programado para gravar um programa da TV Globo que se iniciaria lá pelas 23 horas. Retorno no início da madrugada, rebobino a fita para o início da gravação e percebo que tinha sido gravada a parte final do programa anterior na grade de emissora. Era uma parada mensal de sucessos da TV Globo, com as músicas do mês mais tocadas nas rádios. Coisas sem muita importância, como costumam ser os hits “do momento”. Apresso-me em acelerar a fita com imagem, quando vejo o Ney Matogrosso cantando com uma moça magrinha. Volto à velocidade normal, e a moça magrinha canta com sotaque português. Interesso-me imediatamente, retorno um pouco para o início do número. Uma voz em off diz: “E agora, a escolha musical da crítica especializada: Ney Matogrosso e Eugénia Melo e Castro, com ‘A Dança da Lua’”. O que era aquilo? De onde teria aparecido aquela menina magrinha, com cabelos muito curtos, e uma voz poderosa? E a música, então? Singela, brejeira, com uma levada irresistível. Pronto. Foi assim. Paixão à primeira vista. E essas paixões resistem ao tempo, independente de espaço, lugar, idade.

Naquele sábado corri à minha loja de discos preferida, em Pinheiros, cujo dono era uma figura e mantinha a loja dentro da sua própria casa. Era o Edgard, e a loja era a “Edgard Discos”. Quem tem a minha idade e que é fanático por música e por discos (de vinil, à época, naturalmente...), conheceu o Edgard. Ele tinha de tudo. Tudo, mesmo! Perguntei a ele se conhecia uma cantora portuguesa de nome Eugénia, e ele rapidamente me passou o “Terra de mel” e o “Águas de todo o ano”. “A Dança da Lua”, a minha “moeda nº 1 do Tio Patinhas”, estava lá, no “Águas”. E lá estava a cantora afinadíssima, a letrista inspirada, os parceiros brasileiros que eu tanto conhecia. Muito prazer, Dona Eugénia.

“Águas de todo o ano” é um disco pop por excelência. Pop no melhor sentido, pop de muita qualidade. Há um frescor de juventude, uma mistura de anseios e de sonhos de gente moça, mas com uma melancolia própria de gente madura. O Wagner Tiso fez a direção musical e os arranjos, os músicos são “top de linha”: Luis Alves, Ricardo Silveira, Mauro Senise, Robertinho Silva, Paulinho Braga, entre outros, além do próprio Wagner.

Não preciso dizer que quase risquei o disco de tanto ouvir. A canção “Águas de todo o ano” brinca com as impossibilidades, e talvez seja quase que uma parábola da própria aventura musical da Eugénia. “Lugar em fim”, é toda ibérica, é toda brazuca, e é também fundamentalmente moura, e vitrais se partem quando a Eugénia alcança um agudo fantástico. “Meu e assim”, em parceria com Caetano Veloso, é uma gostosura, canção que Eugénia retomaria no seu terceiro disco, o “III”, com um outro andamento. “Fora da Terra” é toda delicadeza, com o Paulinho Braga segurando o ritmo na bateria com muita classe e precisão. “Um gosto de sol”, canção emblemática de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, embora já tivesse sido gravada pelo Milton no “Clube de Esquina”, parece ter sido feita de medida para a Eugénia:
“Alguém que vi de passagem
Numa cidade estrangeira
Lembrou os sonhos que eu tinha
E esqueci sobre a mesa...”.

A lindíssima “Uma canção”, de Lô Borges e Ronaldo Bastos, fecha o disco com toda a propriedade:
“Uma canção é clara e pode penetrar
Negro desvão que um raio de sol
Com a súbita chama
Faz clarear”.

Eugénia foi para mim uma súbita chama. Mas, desde então, jamais se apagou.

P.S.: Antes que chovam pedidos, preciso informar que, inadvertidamente, devo ter apagado a fita de vídeo da historinha do início deste texto. Já procurei de todo o jeito na minha centena de fitas antigas, mas jamais voltei a encontrar aquele pequeno trecho do programa musical da TV Globo. Eu não me perdoarei jamais, mas se alguém aí nunca apagou sem querer uma fita de vídeo ou uma fita cassete rara, que atire a primeira pedra...
Publicado por Eugénia Melo e Castro às 15:09
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