Domingo, 2 de Março de 2008

TEXTO / ENTREVISTA BASE PARA MATÉRIA NO JORNAL DO FUNDÃO !!

Entrevista a  E u g é n i a M e l o e C a s t r o
Por
Cláudia Elias
 
.Começou por estudar Artes Gráficas em Lisboa, estudou cinema e fotografia em Londres, fez teatro e cinema. Que lugar ocupava então a música na sua vida?
 
- Eu sempre estive ligada à música, desde que me lembro de mim. A música sempre foi a minha maior companhia, minha inspiração natural. O facto de ter estudado artes gráficas e de me interessar por teatro e cinema era também uma outra forma de estar na música. Tudo sempre tinha e continua a ter relação com a música.
 
.Que recordações guarda do teatro e da experiência como actriz? Foram boas bases para um maior à-vontade no palco enquanto cantora?
 
- Eram épocas de grandes descobertas, próprias dos 20 anos…….Sim, fazer teatro ajudou-me a aprender a estar em palco, e lidar com as inseguranças. Mas eu fui muito lenta no aprendizado do palco, muito crítica e perfeccionista, sempre achei, e ainda acho, que sou muito melhor produtora e idealizadora do que artista de multidões……
 
.Quando pensou verdadeiramente em abraçar uma carreira como cantora?
 
- Desde os 6 anos de idade que o pessoal lá de casa me ouvia dizer que queria ser cantora. Nem sei o que foi que me levou a pensar nisso logo tão claramente. Mas sempre me lembro de querer ser cantora e nem pensar seriamente em mais nada. Gostava de fotografia e de realização de cinema. E também pensei em arquitectura, preparei-me e estudei para isso, mas a vida entortou para outros lados e a música foi a grande sobrevivente…
 
.O seu primeiro trabalho ("Terra de Mel") foi considerado o melhor disco editado em Portugal nesse ano (1982) e proporcionou-lhe o contacto com vários artistas brasileiros, que tem fomentado até hoje. Pode dizer-se que começou da melhor maneira? Esperava que assim fosse? O que sentiu na altura?
 
- Esse meu primeiro disco foi uma boa surpresa para todos e também para mim. Foi muito bem recebido e deu-me motivos para continuar a querer cantar e compor com outros artistas, portugueses e brasileiros. Eu tinha muito claro na minha cabeça que trabalhar com outros artistas de Portugal e do Brasil era muito importante para a abertura criativa e de mercado entre os dois países. Isso sempre foi evidente e normal para mim, mas na época isso nem sempre foi bem entendido aqui em Portugal. Agora, 25 anos depois isso já parece ser uma atitude natural dos artistas. Abriram-se muitas portas entretanto, para todos os lados, foi quase uma prova de resistência, às vezes dava vontade de continuar a cantar mas não lançar nem mostrar nada a ninguém aqui.
 
 
.Em 2007 celebrou 25 anos de carreira e lançou "POPortugal". Qual foi o critério de escolha das músicas? Há alguma que destaque em particular?
 
- O critério da escolha foi pessoal, eu procurei musicas de que eu me lembrasse naturalmente, que fossem boas para eu cantar, mudar os arranjos, canções que me marcaram e que eu acho que são atemporais. A que eu me lembrava inteirinha há mais tempo é a que abre o disco “Se quiseres ouvir cantar “, sempre adorei essa canção, desde míuda.
 
.Foi uma forma de se reaproximar de Portugal?
 
- Foi uma forma de Portugal se reaproximar de mim, isso sim…!! Eu sempre estive aqui, em 25 anos gravei e lancei 21 discos em Portugal e no Brasil, fiz um trabalho contínuo. Este disco POP foi uma ideia que foi tomando forma, eu já tinha feito um disco em 1990 que se chama “Amor é cego e vê” só com canções portuguesas também, nesse caso dos anos 50 e 60. E o “Lisboa dentro de mim”, de 1994, também o tema principal era a música portuguesa. Ou seja, eu sempre misturei tudo, sempre experimentei o que me ia apetecendo.
 
.Apesar das canções portuguesas, o trabalho foi gravado no Brasil. Porquê?
 
- Eu gravo onde as condições são mais adequadas no momento. Onde se grava não tem nada a ver com o que se grava. Neste caso eu gravei em São Paulo porque os músicos com quem eu estou a trabalhar nestes ultimos discos moram lá, e também porque eles nunca tinham ouvido estas musicas portuguesas e isso era importante para o resultado que eu queria ter.
 
.Foi a primeira cantora portuguesa a gravar com um artista brasileiro ("Dança da Lua", com Ney Matogrosso). Como vê hoje a relação entre os artistas de ambos os países?
 
- Nem tem nada a ver com aquela época, hoje muitos artistas gravam com outros artistas de outros países, normalmente, não só com brasileiros. Isso acontece em todo o mundo, houve uma abertura e uma necessidade de trocar sons e influências, livremente.
 
.A música portuguesa é já mais conhecida no Brasil?
 
- Muito pouco, mas bem mais que antes…pelo menos o Brasil de hoje sabe que existe um outro Portugal, a todos os níveis culturais e sociais.
 
.Em 2001 disse que se considerava «um caso à parte» no Mercado brasileiro.
 
- Eu não digo, alguém disse isso, eu só repeti……. “Caso à parte” porque faço um trabalho diferente….e não sou uma cantora típica de Portugal que vai ao Brasil de vez em quando cantar e depois vai embora.
 
.A distribuição era para si um problema. Continua a sentir isso?
 
- ERA e continua a ser !!! Para mim e para todos os artistas. Agora então com a alteração das normas de mercado, novas tecnologias, novas linguagens, + pirataria e etc e tal, novas soluções serão necessárias para entender este ”novo mundo”!!
 
.E em Portugal, como têm sido recebidos os seus trabalhos? "POPortugal", por exemplo?
 
- Tem sido muiiiiiiiittttttttooooooo bem recebido !!!!
 
.Disse já sentir-se mais alegre no Brasil. Se lhe perguntarem a sua morada, o que responde: Portugal ou Brasil?
 
- Eu moro em Lisboa na mesma casa há 30 anos……… e tenho um apartamento em São Paulo, onde eu vivo quando tenho trabalho no Brasil…. detesto viver em hotéis. Quanto à alegria é uma questão de ambiente, no Brasil, a vida é vivida de uma maneira menos pesada, mais optimista, deve ser por ser tropical, clima quente, novo mundo.
 
.Que recordações guarda da infância, do local onde nasceu (foi mesmo na cidade da Covilhã?)?
 
A Covilhã foi o meu primeiro contacto com quase tudo. Amigos, família, silêncios, neve, comida, vindimas, vinho, disciplina e, no meu caso, indisciplina, livros, musica, piano, riqueza, pobreza, diferenças, tudo o que faz parte de um começo de vida.
Eu sou muito ligada às memórias do meu jardim, da minha casa, dos cheiros, das vozes das pessoas, do que eu imaginava para mim lá do alto da minha nespereira, um dos meus refúgios secretos. Ainda ouço o ranger da porta da escada principal, os sons, as luzes, os vitrais, o silêncio habitado, as sombras. Era uma casa maravilhosa. Hoje custa-me muito passar lá na frente, aquela casa era MINHA, não pelo sentido físico da propriedade, mas era minha por dentro de mim, era parte de mim, era o meu palácio encantado, eu era uma princesa solitária, errante e sonhadora, e um dia ruiu o palácio e ninguém me avisou de nada. Até hoje esse é o maior problema interno não resolvido da minha vida, a minha casa da Covilhã. Nunca lá voltei a entrar, nem no pátio de pedra da porta de entrada. Depois das obras e da venda, nem sequer espreitei. Passo por outras ruas, evito passar por lá… Jamais eu me permitiria ver, nem sequer imaginar, tudo como é agora. O meu mundo é meu e é sagrado. Aquela casa era sagrada, intocável. Foi um outro tempo, posso conviver com quase todas as contrariedades da vida, mas essa é uma das mais difíceis, uma parte de mim ficou lá.......se eu pudesse recuperar a casa não hesitaria, não para reviver o passado, mas para continuar uma outra história.
 
.Costuma visitar a região quando está em Portugal?
 
- Sim, vou directamente para a Serra. Continua uma beleza e ainda tem muitos cantinhos só meus…heheheh
 
.No ano passado actuou na Covilhã. Como foi?
 
- Foi muito bom e emotivo, encontrei pessoas que já não via há muitos anos, muito carinho e amizade, foi mesmo muito bom !!
 
.Segundo disse já, a paixão pela música brasileira remota à sua infância. Com apenas dez anos ouviu "A Banda", de Chico Buarque, e entendeu a letra. O facto de ser filha de escritores proporcionou-lhe uma educação diferente da maioria das crianças que naquela e local frequentavam, por exemplo, a mesma escola?
 
- Sim, sem dúvida. Na minha casa tudo era bem diferente da casa das minhas amigas de colégio. O ambiente era muito mais aberto, e minha irmã e eu podíamos participar das conversas, das exposições de arte, lançamentos de livros, concertos, viagens culturais, éramos constantemente estimuladas para coisas bem diferentes e fora do comum. Por outro lado os meus avós eram bastante severos e conservadores, o que nos dava uma noção de limites e educação.
 
.Que outros artistas a marcaram durante a infância e adolescência?
 
- Milton Nascimento, Gal Costa, Elis Regina, Tom Jobim, Caetano Veloso, Maria Bethania……. Além de Beethoven, Beatles, Doors…….
 
.Que gosta de fazer quando não está a trabalhar?
 
- Dormir e viajar, ler, andar à deriva.
 
.Escrever para o blog é já um hobby indispensável? O feedback tem sido interessante?
 
- Acho divertido, e é uma maneira de escrever algumas coisas e de actualizar as minhas actividades, agenda de shows, perspectivas de ideias.
 
.O que mais a chateia?
 
- O pessimismo. O fatalismo. A estupidez. A ignorância. A burrice……… e a rotina, detesto rotinas.
Publicado por Eugénia Melo e Castro às 02:52
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos
1 comentário:
De Jaqueline a 30 de Maio de 2009 às 12:13
Adoro a geninha


Comentar post

Ouça aqui

EMAIL/ CONTACTOS/ SITE OFICIAL

eugeniamc@sapo.pt http://www.eugeniameloecastro.com

Bem Querer / Futuros Amantes


Veja mais vídeos aqui!

AVISO AOS NAVEGANTES :

ESTE BLOG É (TAMBÉM) UMA BASE DE DADOS ACTUALIZADOS SOBRE EUGÉNIA MELO E CASTRO. DESTINA-SE AO REGISTO DE ENTREVISTAS, MATERIAIS DE IMPRENSA, MÉDIAS, MP3, VIDEOS, MATERIAL DE PESQUISA, BIOGRAFIA, HISTÓRIAS, OPINIÕES, CRÓNICAS, FOTOS, DATAS, AUTORES, MÚSICOS ENVOLVIDOS, ASSUNTOS RELACIONADOS, DEPOIMENTOS, LINKS RELACIONADOS, AGENDA DE SHOWS, ACTUALIZAÇÃO DE ACTIVIDADES, LANÇAMENTOS E RELANÇAMENTOS DE CDs, DVDs, PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS, GRAVADORAS, DIREITOS AUTORAIS, LETRAS, CONVIDADOS ESPECIAIS, ONDE, COMO E QUANDO.

Arquivos

subscrever feeds

blogs SAPO