Sábado, 6 de Janeiro de 2007

TERRA DE MEL FAZ HOJE 25 ANOS - JORNAL PÚBLICO

Eugénia Melo e Castro "Continuo nos riscos sinceros"
Por Nuno Pacheco

Eugénia Melo e Castro repensa a sua relação com Portugal, corrigindo uma distância que assume como "erro" seu. Na agenda para 2007 tem vários espectáculos, dois CD e dois DVD.

Quando Eugénia Melo e Castro lançou o seu disco de estreia, Terra de Mel, a 6 de Janeiro de 1982, público e crítica receberam-no com elogios. Depois, como ela recorda passados estes 25 anos, a carreira correu-lhe bem no Brasil (de cujos primeiros contactos o disco já dava mostra) e menos bem ou mesmo mal em Portugal.

Ao olhar para trás, Eugénia vê um balanço positivo, expresso nos vinte discos que até hoje gravou: "Não desisti um minuto, não saí da minha linha um minuto e continuo a fazer aquilo em que acreditava quando fiz o Terra de Mel. A ideia está cá toda." Mas reconhece que "houve um erro": "Um erro meu, de estratégia, que só percebi com nitidez há dias: o de pensar que poderia ter carreiras paralelas em Portugal e no Brasil. E isso não aconteceu. A minha carreira evoluiu imenso no Brasil, com naturalidade, enquanto em Portugal os discos foram saindo sem o devido acompanhamento da minha parte." Mas não foi apenas ausência ou sequer afastamento: "É como se eu, numa bipolaridade esquizofrénica, tivesse criado duas carreiras, duas cantoras, duas pessoas completamente diferentes. Uma é a Eugénia Melo e Castro no Brasil, que se estabeleceu com uma identidade, que as pessoas vêem nos espectáculos, ouvem os discos, etc. Outra, que para mim é tão sincera como a primeira, é a Geninha em Portugal, que era aquela menina que apareceu a cantar umas coisas giras com uns brasileiros... de quem ela é amiga. Ponto."

"Prestar atenção às pessoas aqui em Portugal"
"Do que eu me queixo, em relação a mim mesma, é de não ter percebido as dimensões. Portugal é um país pequeno com uma dimensão afectiva imensa e o Brasil é um país imenso com uma dimensão profissional." No mercado português, isso reflecte-se numa fraca vendagem de discos: "Sou uma boa trabalhadora, nunca vou parar de trabalhar, mas nunca fui boa vendedora de discos. Isso sucede desde o Terra de Mel." Ela diz que é porque não a ouvem, ou talvez porque os seus discos "não interessam" a Portugal. "Acho que quando as pessoas quebram o preconceito e descobrem os meus discos, podem até achar-lhes alguma graça. É esse lado que me interessa explorar. E a única forma é prestar atenção às pessoas aqui em Portugal. Não achar que o meu trabalho vale por si próprio mas que precisa de ser mostrado por mim própria, ao público. Tenho que ir devagar."

Onde é que estão as artistas mulheres? Em relação a Portugal, ela observa ainda duas outras coisas no campo das artes: o silêncio de muitos potenciais criadores e a marginalização das mulheres. "Em Portugal, as pessoas mais interessantes são aquelas que a gente não sabe quem são. Existe um universo obscuro e silencioso de gente talentosíssima - actores, escritores, cantores, músicos - que ainda não mostraram o que valem porque estão com muito medo de ficar ligados a esta era, que é sinistra em Portugal. Os últimos dez anos mostraram aqui o que há de mais medíocre à superfície da terra. Por isso há muita gente calada, à espera de uma luz, de que haja uma brecha para se dar o devido valor às coisas." Em relação às mulheres, interroga-se: "Onde é que elas estão? O que é que fazem com as artistas mulheres? São tidas como uma paixão e depois deixam-nas. À segunda tentativa, a mulher é abatida, não resiste à pressão. Eu aguentei-me porque estive no Brasil e porque sou teimosa. Mas aqui, quem vemos a comemorar 25 ou 30 anos de carreira na música? Tudo homens."

"Espécie de Terra de Mel II"
Para 2007, Eugénia tem em mão "cinco ou seis projectos". Além de espectáculos no Japão e na Europa, tem uma digressão programada para Portugal em Abril/Maio (já com salas reservadas em Braga, Porto, Sintra, Covilhã, Coimbra e Açores) e vai fechar a noite brasileira no Festival de Montreaux, apesar de ser portuguesa e apresentada como tal. Em Portugal, lançará um disco: "Será numa linha bastante intimista, canções extremamente simples, umas mais actuais outras menos, mas com um tratamento tipo Paz [o disco de 2002]. Esta, para mim, vai ser a minha comemoração destes 25 anos, uma espécie de Terra de Mel II."
No Brasil, além de um novo CD na forja (desta vez dedicado ao reportório de Caetano Veloso), lançará dois DVD: um a gravar em Montreaux e outro com o show do disco Des Construção, do qual fez mais de 200 apresentações no Brasil.

"Cada coisa para mim significa um risco sincero. E eu continuo nos riscos sinceros", diz Eugénia. "Agora sinto que estou num aprimoramento da voz que não quer espalhafato. Tenho vontade de cantar baixinho, em pequenas coisas. Eu comecei logo na ribalta, com muitas exigências. E hoje em dia não sou nada disso. Se chegar a um lugar e começar por onde todas as pessoas começam, só piano e voz ou só violão e voz, mesmo que estejam só dez pessoas, o importante é que elas ouçam."

Publicado por Eugénia Melo e Castro às 12:14
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