Domingo, 11 de Dezembro de 2005

In Jornal de Notícias

Eugénia Melo e Castro

"Os portugueses têm uma ideia falsa de mim"

 Passados 23 anos sobre a edição do inaugural "Terra de mel" e depois de 20 álbuns editados em Portugal e no Brasil, Eugénia Melo e Castro lança "Desconstrução". É uma selecção revisitada de 15 obras de Chico Buarque - entre as 300 que a cantora achava fundamentais. Ao longo de um ano, o autor acompanhou toda a feitura do disco e, conta Eugénia, concluiu "Depois disto vai ser difícil escutar as minhas músicas como eram antigamente. Como vai ser agora?"

[Jornal de Notícias] Recorda-se da primeira vez que conheceu Chico Buarque pessoalmente?

[Eugénia Melo e Castro] Foi em Lisboa, na época da Barraca, em 1977. Ele e a Marieta foram a jantar na casa do Augusto Bual. Estava muita gente e, porque para o Chico mais do que cinco pessoas já é uma multidão, ele ficou muito calado o tempo todo. Anos depois, convidei-o para um jantar íntimo em minha casa. Mas a notícia correu e, nessa noite, nunca tive tantos amigos [risos]. Foi uma loucura vieram cerca de 50 pessoas. E ele, mais uma vez, ficou quieto num canto.

E qual foi a primeira impressão que recolheu? A de alguém muito observador, com um sentido de humor enorme, mas sempre na dele. Percebi, depois quando convivi com ele no Brasil, que é alegre e falador apenas num circuito muito íntimo.

Como se encantou pela obra de Chico Buarque? Pela generosidade poética. Quase uma esquizofrenia. Ele tem a capacidade de se colocar na posição dos outros sem ser hermético, no pior sentido do termo. Isso aliado a uma grande qualidade e profundidade poética e ao carismo pessoal apaixona. Mais o Chico tem um mercado imenso e o mercado também faz os artistas.

A dimensão do país é decisiva para o reconhecimento do artista? Ajuda muito. Um artista pode ser genial, mas apenas se puder expandir-se. Num país muito pequeno, acaba por não se ter uma representatividade no mercado internacional, que é o que acontece com os artistas porugueses. No Brasil, vendem-se 100 mil discos e isso já é uma referência.

Foi por isso que tentou equilibrar os mercados português e brasileiro na sua carreira? Eu não equilibrei [gargalhada], mas adoraria ter equilibrado. É totalmente impossível. Eu só consegui lançar os discos todos em Portugal e no Brasil, porque me plantei na porta das editoras. Foi uma aposta minha que me deu uma liberdade e autonomia fundamentais. Não estou presa a nenhuma editora, conceito ou falsa segurança. Às vezes, os artistas estão muito protegidos atrás de um aparato que, no fundo, é uma prisão. Eu não tenho essas prisões nem pessoais nem profissionais.

Entretanto, acaba por dedicar-se mais ao mercado brasileiro... Sim, nos últimos dez anos. Faço questão que os discos saiam cá, mas este nem queria que saísse, já tinha desistido. Queria que chegasse cá pelo mercado internacional e ficava feliz. Mas depois acabam por me convencer e lanço o disco aqui em homenagem às pessoas que nunca me abandonaram.

Por que tinha desistido? Para me proteger. Com o tempo começamos a tentar proteger-nos. A tentar. Não sei... É um receio de não me sentir já muito à vontade. As pessoas têm uma ideia pré-definida de mim que não corresponde minimamente à realidade. Não entendo o que aconteceu. E afasto-me para me proteger. Há uma dessincronia entre o que sou e o que pensam de mim. É realmente estranho. Há uns tempos, ficava muito ofendida quando me classificavam como um caso à parte. Isso é uma maneira simples de classificar uma coisa que não tem classificação. Mas não há dúvida que não existem muitos outros patamares para me pôr.

E o que pensam de si? Pensam que estou na praia e que tudo me cai do céu só porque não me queixo. Até tenho esse lado de lamúria, mas guardo-o para mim. Não dou entrevistas para me queixar. Todas as dificuldades que tive - e foram muitas - sempre as transformei a meu favor. É um dom, que posso fazer? E quando não posso, esqueço.

Já no Brasil recebeu inúmeras distinções desde 1989. Que impacto têm sobre si? Evito colocar os prémios nas biografias, mas é verdade que tenho sido distinguida todos os anos no Brasil. Há um retorno contínuo. O Brasil é assim aparecem pessoas extraordinárias por metro quadrado em cada 24 horas. Lá temos que suar e ser constantes.

De onde veio essa afinidade pela música brasileira? Não sei, não sei..... é epidérmico. Essa geração do Tom Jobim e do João Gilberto tem muita qualidade, é uma coisa que transforma estados de espírito e provoca coisas extraordinárias nas pessoas. Em mim e em três ziliões de pessoas. Não foram só os portugueses que se renderam aos brasileiros, foi o mundo inteiro. É como jazz. E quem está atento é apanhado na rede. Uma afinidade que se estende à música apenas... A música sempre foi a coisa mais importante para mim. Se morrer prematuramente, a minha grande aflição sempre foi deixar de ouvir as músicas que ainda estão por compor. É uma doença à qual resolvi dedicar-me.

A cantora que tentou conciliar Portugal e Brasil regressa com novo disco sobre e com Chico Buarque

"A minha grande aflição é deixar de ouvir músicas que ainda estão por compor"

Publicado por Eugénia Melo e Castro às 04:39
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