Terça-feira, 10 de Janeiro de 2006

ROMPANTE DE PRETENSÃO

Certas canções que ouço / cabem tão dentro de mim / que perguntar carece / como não fui eu que fiz?.

Essa letra do Milton Nascimento para uma canção do Tunai Certas Canções, traduz fielmente a inveja santa que tenho de alguns compositores. Quantas canções que eu gostaria de ter feito! Mas não as fiz e tenho que me contentar com um outro dom, sem dúvida muitíssimo mais modesto, que é o de amá-las, e de tê-las comigo pela vida afora. Procurar e garimpar belas canções esquecidas em discos é outro exercício que me dá muito prazer. Infelizmente, o mercado não tem planos para elas, as rádios não tocam, acredito que os próprios autores acabam por esquecê-las. São aquelas canções que não pegam em uma primeira audição, onde é necessário o tempo de maturação para que elas ganhem vida, que floresçam, que dêem frutos.

A Eugénia garimpou uma dessas minhas canções do Chico Buarque, no Desconstrução, a belíssima Trapaças. Para mim foi um verdadeiro presente, entre tantos outros que ela me deu, em seus discos e shows. Pois então, num rompante de pretensão e já a pedir desculpas à Eugénia pelo atrevimento, ouso sugerir-lhe uma outra canção do Chico Buarque, para o Desconstrução 2: UMA PALAVRA, que tem uma letra formidável, que trata do doce embate entre o poeta e a palavra. Fico imaginando o que a Eugénia, ela mesmo uma letrista tão inspirada, faria com a canção, trazendo-a à tona, dando-lhe uma outra vida. Com certeza, ficaria o máximo. Está no disco Chico Buarque, de 1989. Sem mais delongas, segue a letra:

Palavra prima

Uma palavra só, a crua palavra

Que quer dizer

Tudo Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva

Palavra com temperatura, palavra

Que se produz

Muda

Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil

Palavra d água para qualquer moldura

Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa,

Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha

Matéria, minha criatura, palavra

Que me conduz

Mudo

E que me escreve desatento, palavra

Talvez, à noite

Quase-palavra que um de nós murmura

Que ela mistura as letras, que eu invento

Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa Não de fazer literatura, palavra

Mas de habitar

Fundo

O coração do pensamento, palavra

Publicado por Eugénia Melo e Castro às 13:42
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