PROGRAMA ATLÂNTICO
Um programa de televisão realizado e produzido em Lisboa no verão de 1998. Estreou em 7 de Março de 1999 em Portugal, e no Brasil em Abril de 2000, na TV Cultura. Eugénia idealizou, fez a produção artística e apresentou uma série de 14 programas de 50 minutos cada, na RTP 1, tendo ao seu lado, como convidado especial na apresentação do programa, o produtor e compositor brasileiro Nelson Motta, que propositadamente de deslocou a Portugal para esse feito. Foi o concretizar de um projecto cuja intenção tinha solitariamente começado 20 anos antes: reunir duplas de artistas brasileiros e portugueses numa conversa informal dita e cantada. Duetos Realizados no Programa Atlântico: Vitorino e Elba Ramalho/ Rui Reininho e Hebert Vianna/ Luis Represas e Gal Costa/ Cesaria Évora e Marisa Monte/ Sérgio Godinho, Edu Lobo e Clã/ Eugénia Melo e Castro e Wagner Tiso/ Paulo Bragança e Ney Matogrosso/ Antonio Alçada Batista e Maria Bethânia/ Blackout e Ed Motta/ Cool Hipnose e Fernanda Abreu/ Rui Veloso e Leila Pinheiro/ Dulce Pontes e Simone/ Né Ladeiras e Chico César
OCEANO PACÍFICO Eduardo Prado Coelho Jornal PÚBLICO, 9 de Março de 1999. Abri o rádio do carro e saltou uma voz conhecida, que eu sabia que me era familiar. Neste caso, a voz indolentemente cantante de Eugénia Melo e Castro. Explicava ela, com uma simplicidade que os economistas estão longe de ter, o que foi viver no Brasil com a inflação: Quando se faziam as contas das despesas do mês, nunca se sabia se o dinheiro ia chegar, porque o que ele valia num dia já não era o que valia 30 dias depois. Os mais informados andavam de telefone em punho a dar instruções aos bancos, porque tinham aprendido a jogar com o sorvedouro da inflação. Os outros viam o dinheiro sumir - sumir, simplesmente. E esse pesadelo, explicava a Eugénia, que durante quatro anos as pessoas julgaram que tinha desaparecido, começa agora a regressar, desmentido por políticos e economistas, mas insidiosamente presente, forrando de medos, ansiedades e ganâncias o dia a dia de cada brasileiro. E era isto que a Eugénia explicava, com a serena evidência de quem não explica, mas vê . Percebe-se o desespero e a desolação daqueles que gostam muito do Brasil (é o meu caso) e vêem este país confrontar-se com o bloqueamento de tantas esperanças. Mas fica - ficará sempre - um corpo, uma árvore, uma lagoa, uma praia, uma dança nocturna. E Eugénia Melo e Castro, que tanto tem feito em concreto para que portugueses e brasileiros se conheçam melhor, falou também do seu projecto televisivo agora concretizado na RTP: um Atlântico de duos musicais onde algumas das mais belas vozes da língua portuguesa se irão encontrar. A ideia é magnífica, o resultado, pelo que vi no primeiro programa, certamente também. Esperemos que as comemorações do ano 2000 tenham muitas ideias assim.
MAR DE TALENTOS - Atlântico: um exemplo de cuidado e de carinho com a música, ainda por cima da boa! João Gobern, Revista VISÃO 25/03/99. Quantos anos foram precisos, depois de ouvirmos falar em ponte cultural luso-brasileira (aplicada sobretudo à música), até deixarmos de pagar portagem? Muitos, demasiados, para quem, afinal, canta na mesma Língua e sabe fazer pontos fortes do comum e do diverso. E pode um simples programa de televisão como ATLÂNTICO acabar com a fronteira, com o preconceito? É duvidoso! Mas do que já não se pode descrer, passadas três semanas sobre a estreia, provocados outros tantos encontros entre músicos de Portugal e do Brasil, é que a ideia de Eugénia Melo e Castro, posta em prática pela RTP 1, integra o grupo das mais válidas e agradáveis que o nosso "panorama audiovisual" tem para mostrar. Vejamos: o fascínio dos diálogos musicais tem-se revelado inquestionável. Se Luís Represas e Gal Costa se valeram sobretudo dos instintos, já houve outra dimensão nas duplas Dulce Pontes - Simone, e Né Ladeiras - Chico César, cruzamentos de experiências, de emoções, de aventuras musicais que só cabiam na nossa imaginação. Depois o programa é multiplamente cuidadoso: bem realizado, por alguém que se percebe sentir a música; bem iluminado e com um dos mais apetecíveis cenários que já se viram na RTP; rigoroso na captação sonora das músicas; bem conduzido, com Eugénia Melo e Castro num contido papel de anfitriã, e Nelson Motta como catalisador da palavra, sem atropelos, com tempo para que as pessoas realmente falem... Sabe-se que o programa vai estrear na Televisão Cultura no Brasil, arriscando assim a oferecer-se à "outra face", permitindo que também os artistas portugueses cheguem lá caucionados por gente acima de suspeita. A partir daí, desejavelmente, podem esbater-se ou extinguir-se tantos álibis que têm impelido a exportação da música portuguesa - que fica provado, se bate de igual para igual - para o lado de lá do mar. Seja como for, a quebra da inércia está assegurada com uma emissão que prova que a música, quando acarinhada e escolhida, garante excelentes momentos de televisão, daqueles que apetece gravar para lá regressar mais tarde.
ENTRE A VOZ E O MAR Jorge Henrique Bastos, Jornal EXPRESSO Março de 1999. Um encontro de vozes, paixões e estilos provenientes de Portugal, Brasil e África marcaram a realização do programa " ATLÂNTICO ", numa iniciativa fundamental para estreitar os laços culturais entre os dois lados do oceano onde se fala português. Se há um dado a demarcar este momento único no actual panorama dos países que se expressam no idioma de Camões é a música, que se transforma numa espécie de baluarte a encabeçar a actuação de estilos distintos entre si, mas que encontram aqui laços visivelmente sólidos.
EUGÉNIA À BEIRA DO ATLÂNTICO Mário Castrim, Jornal TAL E QUAL 16 de Abril de 1999. Ninguém sabe medir ao certo as audiências, e veja-se o caso de " os Lusíadas ", que teve uma tiragem inicial de 200 exemplares. Há hoje programas que duram apenas um dia, há os que vão acumulando audiências ao longo do tempo. Atlântico é um desses. Nunca vai perder actualidade. Eugénia Melo e Castro dá-nos o exemplo de alguém que, não sendo apresentadora de profissão, resolve apresentar um programa da melhor maneira: não o apresentando. Resultou uma apresentação perfeita! Ela está ali. É quanto basta. Como se repetisse a única oração que sabia o São Cristóvão: " Senhor, aqui está o Cristóvão!" "Atlântico" não quer ter muito público: quer ganhar muito público. Vai consegui-lo, pois é o que acontece a um programa, quando não morre logo.
AO CABO DA BOA ESPERANÇA Nuno Pacheco Jornal PÚBLICO, 29 de Março de 1999. O Programa Atlântico, de Eugénia Melo e Castro, tem um projecto e é bem concretizado. Haver uma ideia inteligente, tão concreta e definida, já é uma dádiva invulgar; que ela seja posta em prática sem perder essa qualidade primeira, eis o que é realmente de espantar! Com as várias peças do puzzle, o programa, sem ser apressado, tem ritmo, um balanço bom, há coisas acontecendo umas a seguir às outras como as ondas no mar. Faz-se música, fala-se de música e no final está feita a viagem transatlântica. Um bom programa de televisão. E ainda por cima este oceano cumpre uma promessa não dita: revelar música popular de língua portuguesa com qualidade, deixar de fora o Adamastor "pimba" e as Tormentas da música popular exclusivamente comercial - como se o Atlântico lavasse as mãos, e os ouvidos, de quem o escuta!
ARCO ATLÂNTICO Paulo Neves, Jornal INDEPENDENTE Abril de 1999. Outra senhora não poderia "comandar" os destinos do Atlântico que não fosse Eugénia Melo e Castro. Quando muitos se preocupavam, nos distantes anos oitenta, com o umbigo ou guerras-de-alecrim-e-mangerona, ela já desbravava os caminhos de Santa Cruz. Por ela, muitos entraram e triunfaram no Brasil. Ela continuou no seu (belo) canto sem pedir nada em troca. Agora, e volvidos todos estes anos, e com verdadeira persistência chinesa, conseguiu ter o seu programa na televisão portuguesa, e brasileira (Televisão Cultura). Em parceria com o brasileiro Nelson Motta dá-nos 50 minutos de rara beleza harmónica, com duetos de excelente nível. Pelo canal 1 da RTP já passaram grandes nomes da música popular brasileira e novos sons vindos do outro lado do Atlântico. Os nossos músicos não ficam atrás!
ATLÂNTICO Miguel Gaspar DIÁRIO DE NOTÍCIAS Abril de 1999. A RTP já não estava habituada a tanto elogio por centímetro quadrado de prosa. Mas aconteceu. Com Atlântico, o serviço público reencontrou um consenso em seu redor. Em tudo contrastante com a atitude que tem rodeado as apostas mais recentes da programação da casa. Já tudo foi dito sobre a qualidade do programa de Eugénia Melo e Castro. Da qualidade dos duetos ao nível da apresentação de Nelson Motta e da própria Eugénia, de dinâmica do programa ao modo como soube projectar a sua homogeneidade temática. Um sucesso merecido, Atlântico foi uma aposta certa. E espera-se, tenderá a fazer um caminho em crescendo, ao nível da necessária aceitação pública. Sendo um produto televisivo conseguido, grande parte do êxito de Atlântico deve-se ao facto de Ter introduzido uma ruptura no modo como a música tem sido tratada na televisão, e não apenas na RTP. Ou seja, cortou-se com a ideia de que a lógica televisiva e só a lógica televisiva deve dominar em matéria de programas musicais. O essencial aqui é a música ter qualidade. Sem isso, todos os méritos televisivos de Atlântico resultariam em meros adornos para um conteúdo oco. Porque é que a lógica musical é dominante? Porque se foram buscar alguns dos realmente melhores e criou-se um evento não só autêntico, mas único, do ponto de vista artístico. Além disso, Atlântico aproxima de facto Portugal e o Brasil. Mostra ainda, para bem do nosso ego nacional, como a música popular portuguesa aguenta hoje esse encontro com a melhor música popular do mundo. Não é coisa pouca. Renunciou-se assim à vacuidade do espectáculo televisivo em favor do que tem realmente sentido. Atlântico venceu e com ele, espera-se, foi derrotada a ideia de que é preciso ser-se vazio e artificial para ganhar no pequeno ecrã.
ATLÂNTICAMENTE CANTANDO Mário Castrim TAL E QUAL, 26 de Março de 1999. Certamente já um pouco fatigado de ser oceano à tantos séculos, o Atlântico pensou que também tinha direito a ir à televisão. E foi. E viu que era bom. A ideia partiu de Eugénia Melo e Castro, também ela filha do Atlântico, com a voz e a alma repartidas por Portugal e o Brasil. Uma ideia pela qual se bateu durante três anos e que realizou integralmente em três meses. O Atlântico de Eugénia é um mano a mano de alguns dos maiores nomes da música popular lusófona, principalmente Portugal e Brasil. Não é, logo, uma embalagem descartável, não começa a morrer logo que termina....A sua grandeza fica realçada pela aproximação e não pela ostentação. Não são o pretexto para o espectáculo: São o espectáculo! Eugénia, o motor daquele sonho, passa quase despercebida. Marca a diferença entre ser criadora e ser dona. Seus pais são poetas, Aquele programa é o poema dela. E como se diz que a poesia é contagiosa, seria bom que o Atlântico causasse uma epidemia!