Terça-feira, 26 de Outubro de 2010

Em 2008 era assim...

MÚSICA PORTUGUESA 1988-2008 - Tudo se transforma

É um olhar sobre o feminino, em duas décadas que confirmaram o crescimento - sem quotas mas com passos seguros - da presença das mulheres na música portuguesa. Lamentam-se as desaparecidas "em combate", saudam-se as revelações. A música não pára, mas os nomes não se apagam.
  
O "fenómeno" Doce, traduzido numa girls band de imagem agressiva e cançonetas de contornos provocadores, já se aproximava da zona de memórias, abrindo a porta a cíclicos revivalismos e até uma versão infantil. Esfumavam-se promessas como Gabriela Schaaf e Dona, cujo disco de regresso continua misteriosamente adiado. Na Primavera de 1988, as rádios rendiam-se à Pop ambiciosa e elegante dos Ban, em profunda mutação, capaz de revelar uma parceira de palco e de microfone para João Loureiro: Ana Deus, uma das vozes que se candidatara ao núcleo dos Madredeus, que dava cartas em canções como Irreal Social ou Num Filme Pop. Ao mesmo tempo, Anabela Duarte, a voz inspirada dos Mler Ife Dada, dava os primeiros sinais de inquietação ao publicar Lishbunah, disco reservado a uma "espécie" inédita de Fado.
  Maria João estava em trânsito, de uma fase declaradamente nacional para internacionalização: de um lado e do outro desta fronteira, ficam os álbuns Conversa e Looking For Love, o primeiro do seu ciclo com a pianista japonesa Aki Takase. Também em mudanças, Né Ladeiras deixava esgotar os ecos retro de Sonho Azul e preparava-se para uma notável aventura que o tempo se encarregaria de fazer desaparecer - Corsária, de 1989, cujas edições em vinil e CD são hoje raridades estimadas pelos seus legítimos proprietários. Em 1988, Né Ladeiras era uma das vozes "secretas" de um projecto concebido para concorrer ao Prémio Nacional de Música, variante efémera do Festival RTP da Canção: Ana e As Suas Irmãs, em que a cantora de palco aparecia sempre mascarada e irreconhecível. Não era Né, cuja voz se ouvia numa das versões da canção Nono Andar, publicada em single. Lena d'Água, cuja editora de então parara a meio caminho na intenção de a transformar em estrela internacional, preparava um dos maiores desafios da sua carreira - Tu Aqui, com inéditos de António Variações. Com excepção de um álbum infantil e de uma colectânea de "melodias de sempre", só voltaria a gravar dúzia e meia de anos mais tarde.
  Nesses últimos passos da década de 80, haveria ainda espaço para a estreia de Pilar Homem de Mello, sempre com carreira discográfica intermitente. Nesta matéria, as últimas notícias datam já de 2003, ano em que lançou Põe Um Bocadinho + Alto. Anamar publicava Feia Bonita, também uma das luzes mais fortes da intermitência que se seguiria. Adelaide Ferreira ziguezagueava entre o rock da sua paixão e as canções que se entendiam mais adequadas ao seu perfil, com destaque para as baladas. Esse vaivém implicava mudanças de imagem, de atitude, de linguagem que acabavam por desagregar um público potencial - custou-lhe anos de espera e um corte radical até assentar num perfil de estabilidade.
  Xana gozava - finalmente - os louros e as glórias dos Rádio Macau, reconhecidos depois da edição de O Elevador da Glória. Manteve-se fiel à estética rock, mesmo quando o grupo "hibernou" e a cantora teve aportunidade para assinar dois discos solitários, As Meninas Boas Vão Para o Céu... e Manual de Sobrevivência. Com o regresso da banda à actividade, Xana reocupou o seu lugar e com méritos plenos, como se constata da excelência sonora de 8 (disco do presente ano). A revelação, por essa altura, cabia a uma jovem Mafalda Veiga que rapidamente reconheceria os prós e os contras de um sucesso avassalador: Planície foi primeiro uma montanha de rendições à novidade e à frescura para rapidamente se transformar num vale de exagero e preconceito na análise de (quase) tudo o resto que ia fazendo. Pacientemente, praticamente sem percalços, Mafalda foi capaz de dar a volta a este "destino traçado", ao ponto de se transformar numa das vozes mais acarinhadas dos nossos dias, como atesta o mais recente dos seus álbuns, Chão. Ainda nos anos ontem, falta referir a figura tímida e literalmente adolescente de uma voz que o acaso colocara no caminho de Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão, numa noite de surtida pelo Bairro Alto lisboeta. Convidada a integrar o projecto Madredeus - que inicialmente não visava mais do que um disco, sem continuidade -, Teresa Salgueiro não podia adivinhar o que a esperava: com a edição de segundo disco, Existir, ficava lançada a proposta musical portuguesa que foi uma justa bandeira da nossa criação e da nossa alma, que desbravou caminhos até então inóspitos para a melodia de Portugal. Durou mais de dúzia e meia de anos este trajecto, agora posto em sossego.
  Em 2007, vimos Teresa Salgueiro em três frentes distintas: com os brasileiros do Septeto de João Cristal gravou Você e Eu; com o Lusitânia Ensemble, lançou La Serena, que juntava novas versões de canções portuguesas, brasileiras, americanas, francesas, cabo-verdianas e argentinas, entre outras; teve tempo ainda para ser a voz do álbum Silence, Night and Dreams, do compositor polaco Zbigniew Presiner. Não há outra conclusão - está feita uma "artista de variedades".
  Com o passar dos tempos, outras vozes foram emergindo. Uma das mais cristalinas, a de Natália Casanova, cantora do grupo Diva, deixou marcas entre 1990 e 1996, mas acabou por desaparecer em seguida. Viviane também acompanhou todo o percurso de uma banda, os Entre Aspas, mas soube agarrar a oportunidade de um percurso próprio, já confirmado com dois discos. Mónica Ferraz tem contribuído para a regularidade dos Mesa, mas os maiores destaques deste sector "retrato de grupo com senhora" vão para Sónia Tavares, que impõe a sua voz grave como emblema dos The Gift, e sobretudo para Manuela Azevedo que - a meio da década passada - começou a chamar a atenção para os agora consagrados Clã. A cantora do Norte teve ainda tempo e talento para uma participação especial no colectivo Humanos, dedicado a explorar o baú de preciosidades de António Variações, partilhando a linha da frente com David Fonseca e Camané. Outra das vocações emergentes nesta dupla década feminina terá de reconhecer-se em Sara tavares: começou por ganhar um concurso de imitações (Chuva de Estrelas) e, logo de seguida, por triunfar no Festival RTP. Podia muito bem ser a "morte da artista" que, logo ao primeiro álbum em nome próprio, ainda radicalizou a aventura, editando um álbum de gospel. Tudo se compôs nas aventuras seguintes, com Mi Ma Bô e Balancê, ambos distinguidos pela crítica internacional. Já Diana Basto, dona de uma assinalável vozeirão e vinda dos viveiros dos Bandemónio, de Pedro Abrunhosa, ficou abaixo das expectativas no disco a solo. E Rita Guerra terá estagnado. Esperam reactivação ou confirmação, tal como acontece com Mafalda Sachetti (filha de Paulo de Carvalho), Margarida Pinto (dos Coldfinger), Maria Vasconcelos ou Claud. Neste sector mais ligeiro, a palma de ouro vai para Susana Félix, que se tem sabido impor, sem deixar de pisar terrenos perigosos, mas com bom gosto.
  Na área tantas vezes esquecida da música mais tradicional, avulta o nome de Filipa Pais, com dois álbuns excelentes... e mal divulgados. Melhores dias virão? Merecem nota de destaque as duas cantoras do grupo Frei Fado D'El Rei, Carla Lopes e Cristina Bacelar. E não pode esquecer-se esse vulcão que é Dulce Pontes que, começando a sua pessoalíssima viagem na música ligeira, soube aproximar-se do Fado e dos terrenos tradicionais, até chegar a um património híbrido que quase lhe vale uma categoria à parte, com tudo o que isso acarreta de bom e de mau. Uma situação que tem pontos de contacto com aquilo que ocorre com Cristina Branco, uma das grandes vozes que Portugal soube ir recuperar à "emigração" e que, reconhecida pelo meio musical e pela crítica, precisa ainda de um salto em frente para conquistar o quinhão de público que merece.
  Amélia Muge, como voz e como arquitecta de canções, é um caso à parte. Pena que a indústria a fustigue com tamanha intermitência nos seus discos. Curiosas duas experiências colectivas, integralmente femininas: os grupos Xaile e Tucanas.
  No jazz, sempre liderado por Maria João - que soube descobrir no pianista e compositor Mário Laguinha um cúmplice para todas as aventuras -, outros nomes têm imposto regras próprias. Depois de Maria Anadon e Fátima Serro, confirmada Paula Oliveira (infelizmente mais conhecida como professora de canto da televisiva Operação Triunfo), o destaque óbvio vai para Jacinta, a mais madura das modernas, mas há sinais de fumo já visíveis por parte de Sara Valente, Joana Rios e, sobretudo, Marta Hugon.
  Se fosse possível atribuir um prémio de regularidade - e outro de combatividade - acabaríamos por ter de bater à porta de Eugénia Melo e Castro, que já dobrou os 25 anos de actividade contínua, desde Terra de Mel até PoPortugal. Nunca esteve disposta a baixar a fasquia e andou sempre em óptimas companhias, de Jobim a Chico Buarque.
  Estes são os anos em que descobrimos óptimas alternativas, como as que nos estendem Marisa Pinto, voz e imagem dos Donna Maria, Ana Bacalhau, a cantora que solta as amarras dos Deolinda, e Rita Pereira, devidamente "mascarada" no projecto Rita Redshoes. Mas estes são os tempos que concluímos que, apesar de algumas perdas, há por aqui - como fica provado - muita resistência e muita inovação. Significativas são as mudanças: a voz do pop vanguardista de há 20 anos, Anabela Duarte (Mler Ife Dada, insiste-se), está hoje ao serviço do canto lírico, gravando canções de Donizetti, Bellini e Rossini, enquanto a mulher que foi feita imagem da explosão do rock português, Lena d'Água, está, e muito bem, convertida ao jazz. Tudo se transforma...
 
Máxima (Outubro 2008)
Publicado por popogirl às 02:50
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