Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

Coluna 12 !!

Contrafluxo  by Eloy Varandas

 

Direção Musical - 14/01/2010 12:04

E no domingo tinha festa pra dançar a noite inteira
Ninguém ficava encabulado de olhar a estrangeira
Do jeito que ela requebrava inteira
Dança polaca, havaiana, francesa
Chinesa, cubana, africana
Dança brasileira!

“A Estrangeira”, Sá & Guarabyra, 1997


Caro leitor e cara leitora, cá entre nós e sem que ninguém nos ouça, quantas vezes vocês já arriscaram soltar a voz em inglês, seja embaixo do chuveiro, no karaokê caseiro, dentro do carro, ou cantando em “dueto” com o seu artista preferido? Se todos nós tentamos, amadores constrangedoramente desafinados, é extremamente provável que todo país do mundo deva ter pelo menos um artista que cante em inglês. A língua “oficial” do planeta embala a imensa maioria das canções recordistas de vendagem pelo mundo afora. Há, é claro, sofisticadíssimos não franceses que cantam canções francesas, outros tantos não italianos cultores do bel canto que se arriscam nas românticas canções da Velha Bota, provavelmente deve haver um ou outro maluco não alemão que se espatifa na difícil língua germânica, mas é, sem dúvida, o inglês que predomina na canção popular.

O que poucos sabem é que tem muito estrangeiro cantando em português. A qualidade e a diversidade da música brasileira passaram a ser um chamariz e um desafio para cantores, cantoras e músicos de todo o mundo. Por paradoxal que pareça, a música brasileira e seus grandes artistas são, muitas vezes, mais cultuados fora do Brasil do que na sua própria terra. As razões são várias e as soluções parecem distantes, mas o que é importante perceber é que temos um excelente produto de exportação, que interessa a muita gente de diferentes países, etnias e culturas musicais.

Antonio Carlos Jobim, o nosso inigualável Tom, é, evidentemente, o compositor brasileiro mais gravado no exterior. São infindáveis as gravações de “Garota de Ipanema”, “Água de Beber”, “Águas de Março”, “Só danço samba” e outras tantas. Ivan Lins e Milton Nascimento também são bem classificados nesse “ranking”, pois se expuseram mais a esse “comércio exterior” e são conhecidíssimos fora do Brasil. Suas composições têm um feitio mais palatável para cantores e cantoras de jazz ou do pop mais sofisticado. Mas há muitos outros que fazem sucesso no exterior, que também são gravados com alguma freqüência, mas cujos estilos de compor não se encaixam com facilidade na “embocadura” dos artistas estrangeiros. Podemos dizer, com algumas pitadas de soberba e orgulho, que a nossa música não é mesmo muito fácil.

As dificuldades com a língua portuguesa, as divisões meio estranhas, por vezes uma certa falta de balanço e suingue, além de uma boa dose de humor involuntário, são características fáceis de encontrar nas gravações dessa gente que se aventura a cantar em português. Mas são performances interessantes e curiosas, sem dúvida, e é bastante saudável que esse contrafluxo possa continuar existindo. Às vezes é preferível ouvir estrangeiros cantando sem muito jeito em português do que ouvi-los cantar estultices do tipo “Boy from Ipanema” ou “He’s Carioca”. Vocês já imaginaram o “boy” da letra em inglês todo lampeiro com seu jeitinho de andar.....carioca? O Vinícius, lá no céu, deve pedir outra dose toda vez que escuta essas aberrantes versões “in english”.

A última “Direção Musical” do ano apresenta cinco canções brasileiras nas vozes de cinco ótimas cantoras que transitam pelo vasto mundo do jazz. Vamos a elas:


PONTA DE AREIA – Composição de Milton Nascimento e Fernando Brant – Gravação de Esperanza Spalding no disco “Esperanza”, de 2008 – A americana Esperanza Spalding tem apenas 25 anos mas já é bastante conhecida no cenário mundial do jazz. Começou a tocar violino muito cedo e depois, aos 15 anos, trocou-o pelo baixo acústico. Aos 17, entrou para o conceituado Berklee College of Music e, três anos depois, tornou-se a mais jovem professora de contrabaixo da instituição. Não é nada comum ver uma mulher tocando um baixo acústico e essa certa estranheza parece ser a mesma que sentimos quando ouvimos a mineiríssima “Ponta de Areia” transformada em uma canção jazzística cheia de nuances, entrecortada por vozes femininas que parecem estar em um universo paralelo ao mundo mineiro. A bela Esperanza rege a inusitada experiência com muita competência. Clique na capa do disco para ouvir a música.


BAHIA COM H – Composição de Denis Brean – Gravação de Clara Bellar no disco “Meu Coração Brasileiro”, de 2007 – Uma das mais belas canções sobre a Bahia foi feita por um paulista de Campinas, o múltiplo Denis Brean, compositor, jornalista, radialista, repórter e produtor musical. A canção, composta em 1948, foi gravada inúmeras vezes por cantores e cantoras, e é uma das pérolas do clássico repertório joãogilbertiano. A francesa Clara Bellar, tal qual o Denis, também pinta e borda, como atriz, produtora, diretora de cinema e cantora. Fala várias línguas mas tem uma afeição especial pela nossa, talvez advinda de seu interesse pela música brasileira. Este disco, produzido e arranjado por Dori Caymmi, só tem canções em português, que a francesa dá conta com muita graça e quase sem nenhum sotaque. Clique na capa do disco para ouvir a música.


EU VIM DA BAHIA – Composição de Gilberto Gil – Gravação de Carol Welsman no disco homônimo, de 2007 – A viagem pela Bahia continua nesta canção pré-tropicalista de Gilberto Gil, interpretada por Carol Welsman, uma cantora e pianista canadense, detentora de vários prêmios como vocalista de jazz. A Carol  tem toda a estampa da “loira-bonita-que-canta-e-toca-piano”, tão em voga hoje em dia, mas certamente não é apenas isso. O fascínio pelo jazz e pela música a levou, ainda jovem, ao Berklee College of Music de Boston, onde se graduou em piano. Passou alguns anos na Europa, estudou canto com  Christiane Legrand, irmã do pianista e compositor Michel Legrand, andou pelo meio musical do Velho Mundo e voltou para o Canadá em 1990, disposta a abraçar definitivamente a carreira. Lançou seu primeiro disco em 1995, "Lucky To Be Me", que incluía a indefectível “Garota de Ipanema” cantada  em português. Desde esse primeiro momento, a música brasileira tem feito parte do repertório de seus discos e shows. É engraçado ouvir uma canadense dizendo que “veio da Bahia”, mas provavelmente a tal da globalização deve ter alguma coisa a ver com isso. Clique na capa do disco para ouvir a música.


DANÇAPÉ – Composição de Mário Gil e Rodolfo Stroeter – Gravação de Josee Koning no disco “Bem Brasileiro”, de 2007 – A cantora holandesa Josee Koning tem um verdadeiro caso de amor com a música brasileira. Após os anos de estudo no conservatório de Amsterdam, aprofundou-se em música e cultura brasileira e passou, desde então, a viajar freqüentemente ao Brasil. O seu primeiro disco solo já era completamente “brasileiro”. “Tribute to Antonio Carlos Jobim”, de 1995, foi gravado em Los Angeles, com a produção e os arranjos de Dori Caymmi, e era praticamente todo cantado em português. O segundo disco, “Dois Mundos”, gravado em 1998, tinha canções de Ivan Lins, Sérgio Mendes, Caetano Veloso, Chico Buarque e Milton Nascimento, entre outros. O terceiro, “Recorded in Rio”, não requer maiores explicações sobre o conteúdo. Só o quarto disco, “Verdronken Vlinder”, de 2005, foi “holandês” mesmo. No seu quinto disco, “Bem Brasileiro”, Josee retorna à sua paixão musical e apresenta um excelente trabalho. “Dançapé”, canção do talentoso Mário Gil e do grande baixista Rodolfo Stroeter (este também produtor do CD), é um primor de “mistura” de termos brasileiros e africanos. Clique na capa do disco para ouvir a música.


SÓ TINHA DE SER COM VOCÊ – Composição de Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira – Gravação de Jane Monheit no disco “Surrender”, de 2007 – É claro que não poderia faltar Tom Jobim nesta lista. Esta bela canção de 1964, composta ainda no período histórico e “oficial” da Bossa Nova, é cantada por Jane Monheit, uma americana de Oakdale, Long Island, cantora que é reconhecida como uma das melhores vozes femininas do jazz atual. Segura, com uma grande extensão vocal e um timbre cristalino, a jovem Jane de 32 anos tem se pautado por gravar os grandes “standards” da música americana, sem abrir muita brecha para as experimentações. Também fã da música brasileira, Jane Monheit segue calmamente na estrada musical sem grandes sustos nem sobressaltos. Isso é um defeito? Claro que não. Que bom que ainda existam artistas assim, com ligações fortes com a tradição e com o antigo significado de “qualidade”. Como é muito bom também que existam outros que quebrem tudo e que nos levem a repensar nossos valores e nossas expectativas. Música (com M maiúsculo) é isso. Clique na capa do disco para ouvir a música.


Eloy Dias Varandas (colunistas@motornews.com.br) é engenheiro elétrico com especialização em Automação Industrial, pesquisador musical e colecionador de discos. Quinzenalmente (ou quase), Eloy apresenta a sua coluna aqui no Motor News.

Publicado por popogirl às 16:16
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