Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Abertura dos portos......

aqui !!

 

She bounces off the boulders, she runs on the rocks
She's taking her time from her grandfather clocks.
And over the border, and down on the land
She's living in the future
and it lies in her hand

“Mama Lion”, David Crosby & Graham Nash, 1975 (sobre e para Joni Mitchell)


Se há uma verdade inquestionável neste mundo em decomposição é a de que a música não tem pátria. É claro que ela tem muitos endereços fixos, com CEP e impostos em dia, como é o caso do Brasil, mas a grande música não tem fronteiras nem conhece limites. No entanto, vivemos em um tempo de paradoxos e de incertezas. Se é possível saber por conta do avanço das tecnologias, e quase em tempo real, o que um músico da Somália está criando ou mesmo ouvir o seu trabalho, não é menos verdade que o excesso de informação banaliza conceitos e expectativas.
O retumbante relançamento dos discos dos Beatles, remasterizados por uma equipe de engenheiros dos estúdios da Abbey Road, com uma campanha de marketing e divulgação quase sem paralelos na história da indústria fonográfica mundial, me fez lembrar da ansiedade que em ficávamos lá na pré-histórica década de 60, quando ficávamos sabendo que os meninos de Liverpool tinham gravado um novo disco, e que logo ouviríamos alguma música no rádio, e que, meses depois, a bolacha chegaria às lojas do Brasil. E quando algum mais abastado da turma comprava o álbum, corríamos para ouvi-lo em grupo, quase em liturgia, em um silêncio nada compatível com um disco de rock, mas que fazia o maior sentido.
Os tempos mudaram, o mundo mudou, as relações entre as pessoas se transformaram. Em um desses canais da TV paga, assisti outro dia um campeonato “mundial” de “Air Guitar”, onde malucos de todas as pátrias competem em um torneio de solos de guitarras. E o que é mais impressionante: sem as guitarras! Tocam guitarras invisíveis, pulam, saltam, contorcem-se, fazem todo o tipo de maneirismos típicos dos guitarristas “com guitarra”, e depois são analisados por uma banca de jurados, que, pasmem, atribui notas e laudos detalhados de cada apresentação. Se eu fosse um bilionário entediado e encarcerado em alguma mansão de 50 aposentos, chamaria meu mordomo e pediria “Nicholas, por favor, meus sais”. Como a minha conta bancária reluta a se afastar do zero absoluto e não tenho mordomo, talvez a saída seja me tornar um monge e ir para algum convento no Tibete. Sem televisão e sem campeonatos de “Air Guitar”.
Se a música não tem pátria e é feminina, pelo menos no conceito deste colunista, nada mais natural que a “Direção Musical” inicie sua abertura dos portos às nações amigas com 5 cantoras estrangeiras de muito talento e versatilidade. Vale lembrar que esta nossa fase “D. João VI” já havia começado com a maravilhosa Eugénia Melo e Castro e sua sofisticadíssima visão da música brasileira. E segue agora, com 5 canções sem nenhuma palavra na nossa língua-mãe.


HIMALAYA’S BIJOU – Composição de Cæcilie Norby – Gravação de Cæcilie Norby no disco “Queen of Bad Excuses”, de 1999 – A dinamarquesa Cæcilie Norby é uma grande cantora de jazz à moda da Europa, que por vezes flerta com o pop, com o fusion e até mesmo com a nossa internacionalíssima bossa-nova. Voz portentosa, está sempre acompanhada por excelentes músicos de todas as pátrias, e alguns dos seus excelentes discos saíram pela prestigiosa Blue Note. Experimentem o “My corner of the sky”, de 1996, mais “jazz”, e o “Queen of Bad Excuses”, de 1999, que tem um acento mais pop e no qual Cæcilie brilha também como compositora de todas as canções. Vai ser complicado encontrar os discos da moça nas lojas do Brasil, mesmo porque cantoras dinamarquesas não costumam ser “best-sellers”, ainda mais tendo esse “æ” no nome, de difícil catalogação. Ainda bem que ainda existem algumas lojas que resistem bravamente ao anunciado fim do disco, por isso o “Queen” pode ser ouvido um pouquinho por aqui. Clique na capa do disco para ouvir a música.


I CAN SEE CLEARLY NOW – Composição de Johnny Nash – Gravação de Holly Cole no disco “Don’t Smoke in Bed”, de 1993 – A canção de Johnny Nash lançada em 1972 e que foi um grande sucesso muitos anos depois com o jamaicano Jimmy Cliff, tem uma releitura bem interessante com a bela canadense Holly Cole, uma cantora de voz bonita e fraseado seguro, e que é considerada como uma das musas do novo jazz da América do Norte, uma mistura das influências dos grandes “standards” da música americana com a música pop mais sofisticada. A canção tem uma letra meio “xaroposa”, bem na linha da “auto-ajuda”, mas que propicia um momento saboroso ao ouvinte, quando Holly solta a voz na segunda parte e ilumina a sala com o aludido brilho do sol. Ficamos todos a um passo da felicidade, com vontade de sair para a rua, abraçar todo o mundo e cantar de mãos dadas como naqueles videoclipes mais manjados da TV. É uma pena que a vida não seja assim, mas, cara Holly, valeu o esforço. Clique na capa do disco para ouvir a música.


ALL AT ONCE – Composição de Bonnie Raitt – Gravação de Bonnie Raitt no disco “Luck of the Draw”, de 1991 – A cantora e compositora californiana Bonnie Raitt é uma dessas legendas da música americana pouco conhecidas no Brasil. Erroneamente colocada nas prateleiras de “country music” das lojas de discos, a pianista, guitarrista e “bandleader” tem uma história marcante na música e no ativismo político e social dos Estados Unidos. Se há algum movimento em defesa dos direitos humanos na América ou na África, lá está a Bonnie. Se a questão é a preservação das florestas nativas, lá está a Bonnie. Fundou até uma associação de apoio à geração de energia segura, a “Musicians United for Safe Energy”, que deve ser a glória para os músicos ambientalistas. Prestes a completar 60 anos, com pelo menos 20 discos de carreira e vários Grammy’s na estante da sala, Bonnie Raitt tem uma bela história prá contar. A pungente balada “All at Once” é uma boa amostra de seu talento. Clique na capa do disco para ouvir a música.


THE LOOK OF LOVE – Composição de Burt Bacharach e Hal David – Gravação de Traincha no disco “The Look of Love”, de 2006 – A holandesa Judith Katrijntje Oosterhuis não tem mesmo um nome muito palatável para o mundo da música popular, por isso adotou “Traincha” como nome artístico. Digamos que a coisa não melhorou muito, mas o fato é que um nome estranho, uma bela capa e um selo confiável, a Blue Note, chamaram a atenção de um inveterado comprador de discos. E lá está a Traincha cantando os clássicos do velho e bom Burt Bacharach. Se algum distraído assobiasse uma canção de Bacharach entre o final dos 60’s e boa parte dos 70’s, anos rebeldes da contracultura e das canções de protesto, com certeza levaria uma tremenda vaia, e amargaria um sentimento de culpa e uma vergonha escondida. Mas o tempo passa, as ilusões se vão e todas as antigas certezas já ficaram esquecidas em algum canto. Burt Bacharach, se já era um clássico, agora é “cult”. E a Traincha canta direitinho, os arranjos para a Metropole Orchestra são bonitos e o disco “The Look of Love” tem aquele gostinho bom de nostalgia. Clique na capa do disco para ouvir a música.


HEJIRA – Composição de Joni Mitchell – Gravação de Joni Mitchell no disco “Hejira”, de 1976 – Poucos artistas contemporâneos podem carregar impunemente o título de mito. Nestes tempos de celebridades instantâneas e brilhos fugazes, uma artista com 40 anos de carreira e pelo menos há uns 30 sendo considerada como “referência”, é, para dizer o mínimo, prova de um talento raro. A cantora e compositora Joni Mitchell, nascida no Canadá em 1943, é a mais importante artista da música popular contemporânea de língua inglesa das últimas décadas. Reclusa, avessa a exposições de caráter eminentemente midiáticos, iniciou sua carreira como uma “folk singer” em 1968 e, aos poucos, foi abrindo seus horizontes e criando uma música que prescinde de rótulos, mesmo porque estes não teriam o menor sentido. Suas letras longas de intensa poesia são emolduradas por músicas de complexidade melódica e harmônica únicas. Cultuada por jazzistas, roqueiros e eruditos, é a “inspiração” para 9 entre 10 das cantoras da música pop mundial dita, digamos assim, de qualidade. Joni Mitchell é citada explicitamente ou foi serviu como inspiração para cerca de 30 músicas, já foi homenageada por incontáveis “tributos”, teve sua música como “personagem” de pelo menos 2 filmes (o interessante “Simplesmente Amor” com a excelente Emma Thompson, e o “água-com-açúcar” “Sintonia de Amor” – título “nada-a-ver” em português para o original “Sleepless in Seattle”, com a lindinha Meg Ryan no papel de uma sua fã incondicional), e teve suas canções regravadas mais de 2000 vezes por outros artistas. “Hejira”, de 1976, é um disco seminal, estradeiro, um marco da contracultura e da geração “beatnick”, uma espécie de “divisor-de-águas” de sua carreira, e a canção-título que é apresentada aqui tem uma estrutura em espiral, algo assim como um novelo sem pontas, totalmente diferente das estruturas convencionais da música popular. Clique na capa do disco para ouvir a música.

 

Eloy Dias Varandas (colunistas@motornews.com.br) é engenheiro elétrico com especialização em Automação Industrial, pesquisador musical e colecionador de discos. Quinzenalmente (ou quase), Eloy apresenta a sua coluna aqui no Motor News.

Publicado por popogirl às 20:42
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