Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

A coluna do Eloy !!!

 
CAMISA 10
 
Pelé só teve um. Inquestionável. Insuperável. Hors-concours. Unanimidade. Bem, quase unanimidade. Os argentinos não concordam com a verdade cristalina. E é bom que seja assim, pois se a unanimidade é burra, como disse Nelson Rodrigues, então estamos livres dessa ignorância. Por vias tortas, deveríamos agradecer aos argentinos e ao seu principal “Camisa 10”, Don Diego Maradona, o personagem da discordância. Mas o fato histórico, esse sim, definitivamente inegável, é que Pelé inventou a “Camisa 10”. A camisa definitiva dos grandes. Esta “Direção Musical” nº 10, com a humildade característica de um típico ponta-esquerda camisa 11 de outros tempos, daqueles que só serviam para completar o time, tem o intuito de homenagear alguns “Camisas 10” da música brasileira. Então, vamos lá. Aos que discordam, aceitamos cartas com repúdios veementes ou queixas inconformadas.

Depois de Pelé, os melhores do futebol, principalmente aqueles que transitavam entre o meio-campo e o ataque, e que eram fundamentais para seus times, pela técnica, pela habilidade e pela visão de jogo, passaram a vestir a “10”. Rivelino, Gerson, Ademir da Guia, Zico, entre tantos outros, foram donos dessa camisa mítica. Eram os melhores, mas não havia mais sentido apontar o “melhor”. Também é assim na música. Não há como eleger o “melhor” nas incontáveis maneiras e formas de se fazer música. Mas há inúmeros ou inúmeras “Camisas 10” nesse universo sonoro, sejam eles compositores, intérpretes, músicos, discos, canções, shows, movimentos musicais, e por aí vai.

A música popular brasileira em si, é uma “Camisa 10”  das mais reverenciadas. Infelizmente, de muitos anos para cá, é mais objeto de culto no exterior do que nas nossas “quatro linhas”. Quem tem pelo menos um olho prá enxergar e um ouvido atento, sabe do que estou falando. Se somos incomparáveis na ala dos compositores, se estamos no pelotão de frente dos intérpretes, se temos músicos extraordinários que empatam na técnica e no virtuosismo com os craques lá de fora, mas que, via de regra, os sobrepujam em criatividade, no mínimo por terem à disposição uma gama inigualável de ritmos, gêneros e expressões de um Brasil multifacetado, por outro lado o homem comum das esquinas não se dá conta dessa riqueza. Nem se importa com ela.

Exagerei? Pode ser. O meu “pachequismo nacionalista” às vezes transborda. Muita gente tem me solicitado uma abertura aos portos amigos. Prometo que vou atender os pedidos. Mesmo porque, como pretendi defender logo acima, não há sentido fazer “competições” em música, embora o sentimento de competição esteja cada vez mais enraizado em todos os campos da atividade humana. Mas, cá entre nós, que ninguém nos ouça, e que fique confinado às 4 paredes do nosso cantinho musical: em futebol e música, não tem prá ninguém.


ONE O’CLOCK LAST MORNING, 20th APRIL 1970 – Composição de Gilberto Gil – Gravação de Gilberto Gil no disco homônimo, de 1971 – O lendário e pouco executado disco “inglês” de Gilberto Gil, é absolutamente acústico. Gil nos vocais, violões, guitarras e percussão, e Chris Bonett no baixo e nos vocais de apoio, fizeram um compêndio vigoroso de ritmo e balanço, como se nota nesta canção de nome comprido, cheia de sobreposição de vozes e efeitos percussivos. No exílio, bem mais adaptado a Londres do que Caetano Veloso, Gil empreendeu uma viagem definitiva ao mundo do pop. Se os baianos já tinham explodido as estruturas da música brasileira anos antes, com a catarse tropicalista e seus desdobramentos musicais, culturais e políticos, o caminho pessoal de Gil em busca da experimentação e do rompimento de barreiras, estava irremediavelmente selado. Arquiteto de diversas estruturas sonoras, Gil já foi sintetizado como uma improvável intersecção dos revolucionários João Gilberto, Luiz Gonzaga e Beatles. Pode ser, é uma frase até bem engraçada, explica alguma coisa, mas Gil, fundamentalmente, é um “Camisa 10” originalíssimo, sem paralelos nem similares. Clique na capa do disco para ouvir a música.


BYE BYE, BRASIL – Composição de Chico Buarque e Roberto Menescal – Gravação de Chico Buarque no disco “Vida”, de 1980 – Chico Buarque é “Camisa 10” na música, na literatura e no seu time Politheama, famosa equipe do futebol carioca. Do futebol soçaite, é claro, mas, na atual conjuntura dos times do Rio de Janeiro, é bem provável que o Politheama fizesse mais sucesso no Brasileirão do que os co-irmãos Flamengo, Fluminense e Botafogo. O repertório do Chico tem inúmeras canções “Camisa 10”. São tantas que, paradoxalmente, fica difícil escolher uma. “Bye Bye, Brasil” demonstra, com sobras, a habilidade que Chico tem para misturar humor e drama em suas músicas. Essas características estão exemplarmente ressaltadas nesta típica canção de estrada, que narra as desventuras de um caminhoneiro pelo Brasil distante e profundo, onde saudade, perplexidade, resignação e esperança se fundem e confundem a todo instante. O japonês do orelhão, a dona infeliz com um tufão nos quadris, o sol inclemente, a possibilidade remota e quase irreal de mudar de vida, o retorno para casa que é pura miragem, são algumas imagens desse verdadeiro road-movie, embalado pela música do incansável Roberto Menescal. Clique na capa do disco para ouvir a música.


SURFBOARD– Composição de Tom Jobim – Gravação de Gilson Peranzzetta e Marcio Montarroyos, no Songbook “Antonio Carlos Jobim – Instrumental”, de 2004 – Os excelentes songbooks produzidos pelo saudoso Almir Chediak, guardam em si uma das mais inestimáveis contribuições à nossa música. Este songbook sobre a música instrumental de Tom Jobim é um dos melhores álbuns da história. A idéia de concentrar em 2 CD’s a maioria das composições instrumentais do Maestro Soberano, foi um verdadeiro presente para aficionados. Tom Jobim, um dos mais extraordinários “Camisas 10” da música, tem um trabalho maravilhoso focado em temas sem letra, dispersos em seus inúmeros discos. Almir Chediak reuniu 32 desses temas e chamou mais de 100 músicos para executá-los. Gente de primeiro time, uma legião de “Camisas 10”. Esta faixa tem Gilson Peranzzetta ao piano, fazendo a “cama” para uma sensacional interpretação de Marcio Montarroyos no flughel horn. Os discos foram gravados poucos meses após a morte de Tom, e é perceptível a emoção com que os músicos se entregaram ao projeto. “Surfboard” é prá se ouvir em qualquer lugar, mas experimentem ouvi-la em frente ao mar. É puro Jobim, fantástico. Clique na capa do disco para ouvir a música.


PECADO ORIGINAL – Composição de Caetano Veloso – Gravação de Caetano para a trilha sonora do filme “A Dama do Lotação”, de 1978 – Viemos ao mundo com ele, o pecado original, por causa das artimanhas de Eva e da Serpente, e assim, puros de tudo, ou de quase tudo, fomos obrigados a extirpá-lo pelas bençãos do batismo. Nascemos devedores, portanto, e já carregados da culpa ancestral do desejo. Podemos dizer que a nossa vida em pecado não começa do zero, já iniciamos o jogo com um gol contra. Ou a favor, dependendo do referencial. Caetano Veloso conseguiu exprimir em música e letra essa herança inerente ao ser humano, a da dependência do desejo, de seus sortilégios, de suas armadilhas e enleios. "Pecado Original" foi tema do filme "A Dama do Lotação", de Neville de Almeida, onde uma gloriosa Sonia Braga, no auge da beleza e da sensualidade, estimulava os nossos mais escondidos sonhos. O filme não é lá essas coisas, é até bastante gaiato e cafajeste, mas a canção-tema tem uma letra surpreendente, cheia de achados como, por exemplo, a frase "todo o corpo em movimento está cheio de inferno e céu", um conciso resumo sobre o nosso inexorável destino. Uma canção “Camisa 10”, para as antologias. Clique na capa do disco para ouvir a música.


OBA, LÁ VEM ELA – Composição de Jorge Ben – Gravação de Jorge Ben no disco “Força Bruta”, de 1970 – Jorge Ben é um capítulo à parte na música brasileira. Jorge Ben é Jorge Ben, e estamos conversados. Ou, atualizando, como há tempos Jorge Ben tem um Jor a mais no nome, Jorge Ben é Jorge Ben Jor e continuamos conversados. Quando estreou sua carreira musical com um tal de samba “esquema novo”, ninguém conseguiu enquadrá-lo em nenhuma corrente, em nenhuma estante. Com certeza aquilo era samba, mas que samba era aquele? “Sambalanço”, alguém arriscou. “Sambossa”, gritou um outro. Um engraçadinho, anos mais tarde, rotulou sua música de “samba-rock” e, pasmem, nem ficou vermelho. De certo mesmo, aquele carioca cheio de ginga tinha um pé na África, outro pé nos morros cariocas, e mãos ágeis que dedilhavam o violão de um jeito que ninguém havia tocado antes. E fazia letras que eram puro “Jorge Ben”, se é que me faço entender. “Força Bruta” é um disco antológico e, a meu ver, a sua obra-prima. Jorge e o Trio Mocotó balançam irresistivelmente em 10 faixas, amparados por um respeitoso naipe de cordas em algumas canções. Não sei se a informação a seguir tem alguma importância para a história da música, mas “Força Bruta” foi o meu primeiro LP. De cara, um LP “Camisa 10”. Clique na capa do disco para ouvir a música.

Eloy Dias Varandas (colunistas@motornews.com.br) é engenheiro elétrico com especialização em Automação Industrial, pesquisador musical e colecionador de discos. Quinzenalmente (ou quase), Eloy apresenta a sua coluna aqui no Motor News.

Publicado por popogirl às 19:43
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1 comentário:
De Miguel a 3 de Outubro de 2009 às 18:16
Adoro o ByeBye Brasil mas aquilo da camisa 10... e então o "demónio das pernas tortas" Garrincha? Camisa 7.


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