Quarta-feira, 22 de Julho de 2009

As escolhas de Eloy Varandas

IMPRESCINDÍVEIS

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa, são bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons...

 “Choro Bandido”, Edu Lobo e Chico Buarque, 1985

 

Há discos e canções que são imprescindíveis, que povoam nosso imaginário musical desde o primeiro momento em que os ouvimos, que desde então têm aquele lugar cativo no nosso iPod existencial. Pouco importa se foram discos que venderam mais que chuchu em fim de feira ou se são canções que todo mundo assobiou nas ruas. Muitas vezes, ao contrário, se assemelham a tesouros secretos, vinhos raros, perfumes inesquecíveis, ou tenham aquele sabor inigualável da torta de maçã que só a nossa avó sabia fazer.

 

Todos nós, colecionadores de canções e ouvintes atentos, temos essa falsa impressão de exclusividade, de nos sentirmos detentores únicos do prazer da descoberta. Parecemos membros de uma seita de iniciados em delírios musicais, gostamos de trocar confissões entre uma gôndola e outra das lojas de discos, nos ajuntamos em grupos de devotos espalhados pela Internet e em outros fóruns. Se parecemos ridículos com essa devoção toda, nos resta, pelo menos, a certeza que o ridículo é o fim inexorável de todas as paixões.

 

Temos ojeriza às listas dos “100 mais”. Dos outros, é claro. Temos as nossas, muitas vezes guardadas a sete chaves para evitar as polêmicas, que padecem do mal da volubilidade pois nunca são as mesmas de um dia para o outro. E pior, extrapolam conceitos matemáticos, pois nunca conseguimos concluí-las ou limitá-las ao universo da centena.

 

Esse fascínio que sentimos em enquadrar qualidade em quantidade, destino fatal dos colecionadores (e dos fazedores de listas), traz no seu cerne uma indiscutível necessidade de posse. Numa palestra proferida em 1977, em Buenos Aires, o escritor argentino Jorge Luis Borges se refere ao clássico livro “As mil e uma noites” da seguinte maneira: “Os árabes dizem que ninguém pode ler ‘As mil e uma noites’ até o fim. Não por tédio, mas porque se sente que o livro é infinito. Tenho em casa os dezessete volumes da tradução de Burton. Sei que nunca os lerei todos mas sei também que essas noites estarão sempre à minha espera. Ainda que minha vida seja infeliz, os dezessete volumes aí estarão. Talvez esse possa ser um conceito para a eternidade”. Com um álibi desses, adaptado para o nosso caso, o genial escritor nos redime e nos isenta de culpa. Podemos seguir em frente com as coleções. E com as listas...

As canções e discos abaixo são alguns da minha lista pessoal de imprescindíveis, sem nenhuma classificação nem ordem cronológica. Talvez em umas 50 colunas eu possa listar os meus preferidos... E talvez, caro leitor e cara leitora, estes aqui possam fazer parte da lista de vocês...

ARRASTÃO – Composição de Edu Lobo e Vinícius de Moraes – Gravação de Tim Maia no disco “Songbook – Edu Lobo”, de 1994 –  O professor de harmonia, músico e arranjador Almir Chediak merece um lugar de destaque na história da música brasileira. Em 1986 fundou a Editora Lumiar com o objetivo de editar as partituras e as letras das obras dos grandes compositores brasileiros. Em 1991, com o apoio das gravadoras e com a colaboração de muitos artistas, passou a lançar também caprichados CD’s com as músicas dos compositores em gravações exclusivas para os projetos. O songbook de Edu Lobo, com 33 canções gravadas, tem esta pérola de arranjo feito pelo próprio Almir para a famosa “Arrastão”, de Edu e Vinicius, interpretada magistralmente por Tim Maia, com o seu vozeirão perfeitamente encaixado entre performances incríveis de Vittor Santos ao trombone e o lendário Wilson das Neves na bateria. Imperdível, é claro. Clique na capa do disco para ouvir a música.

DUNAS – Composição de Rosa Passos e Fernando Oliveira – Gravação de Rosa Passos no disco “Festa”, de 1993 – A baiana Rosa Passos lançou seu primeiro disco em 1979 e depois ficou 11 anos sem gravar. Ao retomar a carreira, lançou seu primeiro CD, “Curare”, onde recriava clássicos da música brasileira com muita naturalidade e sintonia com o que cantava, além de dedilhar um violão bossanovístico com muita competência.  Desde então ganhou notoriedade e disposição para se lançar mundo afora com a sua música e seu particularíssimo jeito de cantar. Como costuma acontecer, faz mais sucesso fora do que aqui, participando com muita freqüência nos badalados festivais de jazz da Europa, Estados Unidos e Canadá. O álbum “Festa” é o 3º da carreira, onde a Rosa mostra várias canções de sua autoria, como esta “Dunas”, quase um hino em louvor às praias de Salvador. Clique na capa do disco para ouvir a música.

CANTO GERAL – Composição de Geraldo Vandré e Hermeto Paschoal – Gravação do Quarteto Novo no disco homônimo, de 1967 –  O Quarteto Novo era formado por músicos fantásticos: Hermeto Paschoal (piano, flauta e ainda com cabelo curtinho), Heraldo do Monte (viola), Theo de Barros (violão e contrabaixo) e Airto Moreira (bateria e percussão). Este disco, o único lançado pelo grupo, é histórico e fundamental, pois abriu os horizontes da música instrumental brasileira para o riquíssimo universo nordestino, libertando-a dos até então permanentes grilhões da bossa-nova e do jazz. É referência até hoje para músicos e apreciadores da diversidade da nossa música. O disco teve uma reedição em vinil por volta de 1973, e foi relançado duas vezes no formato CD. Mas permanece sendo um objeto de culto de “iniciados”. “Canto Geral” é uma suíte nordestina com vários andamentos, com direito até uma espécie de “cantochão”. Uma beleza. Clique na capa do disco para ouvir a música.

DOIS AMORES – Composição de Djavan e Fátima Guedes – Gravação da autora no disco “Muito Intensa”, de 1999 – Carioca da Tijuca, Fátima Guedes já foi chamada de a “Chico Buarque de saias” quando era jovem e, com certeza, poderia ser lembrada como a Dolores Duran dos tempos mais recentes, tal a intensidade de suas canções de amor e vida, tal a exuberância com que trata das mais corriqueiras alegrias e tristezas da mulher comum. Essa busca intensa da simplicidade é atributo dos grandes criadores de canções. Sua qualidade como cantora, de voz diferenciada e perfeita assimilação de ritmos e andamentos tanto nas canções lentas quanto nas rápidas, a credencia a fazer parte do seleto grupo das grandes intérpretes brasileiras. Gravou somente 11 discos em 30 anos de carreira, porém todos eles com muito apuro e sensibilidade. “Muito Intensa”, de 1999, é um grande disco. E “Dois Amores”, um suingado samba de Djavan, tem uma letra formidável sobre as vicissitudes do desejo e de suas implicações na relação amorosa. Clique na capa do disco para ouvir a música.

MEDO DE AMAR – Composição de Vinicius de Moraes – Gravação de Eugénia Melo e Castro no disco “Eugénia canta Vinícius de Moraes”, de 1994 – Rio de Janeiro, agosto de 1994: no início das gravações do disco nos estúdios da Som Livre, a própria Eugénia, portuguesa da Covilhã, talvez não tivesse a noção exata que estava para ser concebido um dos mais belos discos da música brasileira de todos os tempos. Tampouco Wagner Tiso, diretor musical e co-produtor junto com a cantora, nem os brilhantes músicos que participariam das sessões, muito menos os diretores da gravadora, ninguém poderia antever o altíssimo grau de qualidade do trabalho que se produziria ali. As obras-primas não são programadas, elas nascem de um conjunto de fatores e de oportunidades únicas. Eugénia tinha a mais absoluta certeza que aquele trabalho correria na contramão das expectativas do mercado fonográfico do Brasil. E por que essa artista inquieta e avessa a quaisquer limites ao ato da criação musical, teria escolhido cantar Vinicius? E por que o Vinicius das grandes canções líricas dos anos 50, canções anteriores à bossa nova, muitas delas compostas com o grande Tom Jobim? Talvez porque Eugénia tenha essa rara qualidade de entender e discernir os pontos de contato entre as culturas de Portugal e do Brasil, e de enxergar, com notável acuidade, o amálgama do qual é formada a música brasileira. “Medo de Amar” tem música e letra de Vinicius (sim, o poeta também fazia melodias), e uma excelente performance do grande Paulo Moura no clarinete. Clique na capa do disco para ouvir a música.

Eloy Dias Varandas (colunistas@motornews.com.br) é engenheiro elétrico com especialização em Automação Industrial, pesquisador musical e colecionador de discos. Eloy tem a sua coluna quinzenal aqui no Motornews.

Publicado por popogirl às 05:21
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