Sábado, 27 de Junho de 2009

Mineirices de Eloy Varandas !!!

Mineirices

Onde é que estás,
oh, minas gerais,
na música aérea
das tuas vogais?

“Minas Goiás”, Francis Hime e Cacaso, 2003


Era o dia 30/11/1966, uma quarta-feira à noite, no Mineirão: mais de 77.000 pessoas aguardavam o primeiro jogo da decisão da Taça Brasil. O Santos havia vencido as 5 edições anteriores, de 1961 a 1965. Pelé e Companhia, com a soberba dos invencíveis, partiam para mais um capítulo da enfadonha rotina de ganhar títulos. O Cruzeiro, um dos grandes clubes de Minas Gerais, ainda não era muito conhecido além das montanhas mineiras. Fim do jogo: 6 x 2 para o Cruzeiro, com uma atuação de gala de Tostão, Dirceu Lopes, Natal, Wilson Piazza e demais companheiros. Incrédulo, o Santos nem viu a cor da bola. Segundo jogo, Pacaembu, 07/12/66, na quarta-feira seguinte. O Santos daria o troco? Não, não houve troco, mas sim mais uma festa mineira: Cruzeiro 3 x 2 Santos.

Em 19/10/1967, quinta-feira à noite, Maracanãzinho lotado: começava a primeira eliminatória do II FIC (Festival Internacional da Canção) da TV Globo. A notícia que um mesmo compositor tinha classificado 3 músicas do total de 46 músicas concorrentes, havia sido muito comentada nos meios musicais e jornalísticos. Era um carioca de origem mas mineiro por adoção, negro, magro e muito tímido. Ao ser chamado para o palco para defender uma de suas canções, havia uma expectativa diferente no ar. Os primeiros acordes de “Travessia”, tornados clássicos tempos depois, encheram o espaço do ginásio. Milton Nascimento começava ali a desenhar uma das páginas mais importantes da música brasileira.

Quietos, sem alarde, quase em surdina, os mineiros Tostão, Dirceu, Piazza e Milton, conquistaram o Brasil. Também foi assim com Juscelino, Guimarães, Tancredo, Drummond e tantos outros. Essas históricas odisséias são exemplos da mineiridade, característica tão propalada em prosa e verso, e fonte mesmo de muitos “causos” do anedotário nacional. Há muitos e diferentes Brasis no Brasil. Mas Minas é diferente de todos eles. Tudo em Minas tem uma outra forma, um outro conteúdo, um outro conceito. O jeito do mineiro olhar o mundo é diferente. E sua música, tão bela e multifacetada, é o espelho de sua alma.

Refletindo sobre o sentimento e a cultura dos mineiros, o poeta Affonso Ávila declara que “somos um povo festivo, extremamente criativo, temos uma visão sensual da vida, mas ao mesmo tempo somos recolhidos e conservadores do ponto de vista social e ideológico. É essa dualidade barroca, a meu ver, que caracteriza a chamada mineiridade”.

Fernando Brant, poeta e um dos mais assíduos letristas das canções de Milton Nascimento, sintetiza a relação dos mineiros com a música com precisão:

– “Temos a alegria festeira, que se exprime em música nas cerimônias sacras e nas profanas. Sabemos festejar, mas a primeira impressão que guardam de nós é a de que somos tristes e macambúzios, fechados em melancolia, reza e dor. Somos isso e muito mais. De onde vem esse jeito recatado e solene que é uma parte de nós? Virá da herança moura que, entranhada por séculos na península ibérica, chegou a nós pelo nosso lado português? Ou virá, também, do banzo que os negros trouxeram das terras africanas? Em momentos diamantinos de delírio, no meio das pedras e da paisagem tijucana que parece ter sido fundo de mar, inventei a hipótese de que os nossos pretos eram, já na África, habitantes do interior. Por isso já traziam, de lá do outro lado do Atlântico, a nostalgia do mar. Vindos do centro de um continente para o meio de outro, sina redobrada, sofriam em dose dupla a falta de mar. A música que se faz em Minas Gerais é rica e diversificada. Não há uma maneira única de Minas fazer canções, ela é plural em seus conhecimentos e criações. Minas são muitas e muitos e variados são os mineiros. Os compositores surgem de todos os Gerais e trazem do interior a memória dos antepassados, os cheiros das terras, o sentimento amoroso das cidadezinhas plantadas entre vales, rios e montanhas”.

Alguém já disse que o tempo passa mais devagar em Minas. Será esse o segredo dos mineiros e da sua música? Talvez. Tudo parece possível lá pelas bandas das “Geraes”. Um pouquinho do mistério dessa terra montanhosa segue abaixo, distribuído em 5 canções.

GALANGA CHICO-REI
– Composição de Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro – Gravação de Sérgio Santos no disco “Áfrico”, de 2001 –  A cantora e compositora Joyce, uma das principais vozes do universo feminino da música brasileira, disse certa vez: “Desde muito tempo existe a lenda de que não há renovação na música popular brasileira. De que os grandes autores pararam no tempo, de que não existem mais Jobins, Miltons, Doris, Edus, etc. Pois preparem seus ouvidos que aí está Sérgio Santos”. Nos últimos anos, esse mineiro de Varginha tem sistematicamente recebido elogios da crítica especializada e dos ouvintes mais atentos. “Áfrico” é o terceiro dos cinco discos de Sérgio Santos e deslumbra a cada audição a quem quer sempre um pouquinho mais em música. Violonista apurado, excelente cantor, fera nas composições e arranjador inventivo, Sérgio criou em “Áfrico” um painel denso e conceitual da relação histórica e sentimental do Brasil com a África, apoiado nas excepcionais letras do poeta Paulo César Pinheiro. Um disco para as antologias. Atesto e dou fé. Clique na capa do disco para ouvir a música


ESTRADA REAL DE VILLA RICA
Composição de Celso Adolfo – Gravação do autor no disco homônimo, de 2008 – O disco “Estrada de Villa Rica” tem 18 composições baseadas e inspiradas na história e nos destinos do ouro e dos diamantes mineiros dos séculos 18 e 19. Essa riqueza trafegava pela Estrada Real e era severamente controlada pela corte portuguesa. Eram tempos de ambição, riqueza, medo e traição. São histórias de tropeiros, escravos, viajantes solitários e soldados da Coroa. Tudo muito bem temperado pela excelência da música de Celso Adolfo, mineiro de São Domingos do Prata, cuja sólida carreira começou em 1983 com o disco “Coração Brasileiro”, produzido pelo onipresente Milton Nascimento. De lá para cá, foram mais 7 discos, incluindo este último, um belíssimo trabalho, seja de música, de letra, de pesquisa histórica e de arte gráfica. Para quem se contenta em baixar músicas da Internet, que pelo menos vá até uma boa loja de discos e peça permissão ao atendente para tirar aquela capinha de plástico e ver a caixa do CD com os encartes. É um trabalho tão bem cuidado que é possível que o moderno ouvinte de música sinta vontade e curta o prazer de comprar um ótimo disco.


SAMBA DO DESENREDO
– Composição de Kristoff Silva e Alda Rezende – Gravação de Alda Rezende no disco “Samba Solto”, de 2001 –  Mineira de Belo Horizonte, Alda Rezende é cantora, compositora e dona de uma voz incomum, grave e sensual. “Samba Solto” é o primeiro dos seus três discos, e reúne muita gente da novíssima música mineira, como Kristoff Silva (também natural de Belo Horizonte e co-autor desta canção), Makely Ka (compositor, poeta, escritor, produtor cultural), Marco Aur, Décio Ramos, Paulo Thomas, entre outros. Alda vive entre Minas, Nova Zelândia e Austrália, países onde tem carreira bem-sucedida.  “Samba Solto” é um trabalho não convencional, cheio de sons inesperados, instrumentos incomuns e letras que podem até causar estranhamento, tudo isso como moldura para a voz diferente da Alda, que se mistura à trama sonora de sons acústicos e algumas “graças” eletrônicas. Clique na capa do disco para ouvir a música


FLOR DE MIM
– Composição de Renato Motha – Gravação do autor no disco “Amarelo”, de 1997 – Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 1963, Renato Motha é cantor, compositor, violonista e arranjador. “Amarelo” é o seu segundo disco, mas Renato já tem 9 discos gravados, já ganhou muitos prêmios e já foi elogiado por muita gente que entende de música no Brasil e também no exterior. “Flor de Mim” é uma refinada toada que tem o espírito dos rios e das montanhas de Minas, com direito a uma citação ao mineiro Guimarães Rosa, um dos mais fundamentais criadores da literatura brasileira e do próprio ofício de escrever. Para quem ainda não conhece Renato Motha, está aqui uma boa amostra do seu trabalho. Clique na capa do disco para ouvir a música


CLUBE DE ESQUINA Nº 2 – Composição de Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges – Gravação de Valéria Andrade no disco “Na Esquina”, de 2005 – Mineira de Sete Lagoas, Valéria Andrade incluiu 8 temas do lendário disco “Clube de Esquina” em seu disco de estréia,  o interessante álbum “Na Esquina”, e o completou com mais 3 canções da mesma turma. “Clube de Esquina” é um disco fundamental lançado em 1972 por um grupo de mineiros capitaneados pelo já então reconhecido Milton Nascimento. Era uma turma prá lá de competente, que tinha Lô Borges, Márcio Borges, Fernando Brant, Wagner Tiso, Beto Guedes, Toninho Horta, Robertinho Silva, Luiz Alves, Nelson Ângelo, o carioca Ronaldo Bastos e outros tantos. O disco fez história e alçou Minas ao palco da música popular brasileira de forma definitiva. Valéria apresenta as canções com reverência mas as reveste, sem exageros, com algumas técnicas da moderna eletrônica digital, com apuro e bom gosto. Vale a pena ouvi-lo com atenção. Clique na capa do disco para ouvir a música.

Eloy Dias Varandas (colunistas@motornews.com.br) é engenheiro elétrico com especialização em Automação Industrial, pesquisador musical e colecionador de discos. Eloy agora tem sua coluna aqui no Motor News semanalmente.

 
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Publicado por popogirl às 22:28
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1 comentário:
De Leonardo B. a 30 de Junho de 2009 às 11:51
Grandes Bons Dias, minha cara...

não imagina o tamanho que ficou aqui o tambor do lado esquerdo do peito, quando ouvi estes "amigos" aqui... muito em particular o Celso Adolfo e o Sérgio Santos... uma das grandes maravilhas do mundo é a nossa "insaciável ignorância", quando acorda todos os dias e tem de concordar que ainda há tantos mundos por descobrir... bastam ouvidos ligados directamente na tomada do coração!

Um enorme obrigado e tudo do melhor do mundo para você...

Leonardo B.
Bizarril

(estes aqui, "nem que a Vaca tussa", tenho que "descobrir"... aqui no quintal, não creio possivel... nem que seja na "auto-estrada"... ah, lá isso tem que ser!)


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