Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Entrevista ao Jornal do Algarve


 

29/05/09

 

Eugénia Melo e Castro, uma das grandes vozes da música nacional, esteve recentemente no Algarve. O Jornal do Algarve Magazine aproveitou a oportunidade para entrevistar a artista, que passa grande parte do seu tempo no Brasil. Eugénia falou-nos das razões que a trouxeram a terras algarvias e dos seus projectos actuais e futuros. A cantora expôs ainda ao JA Magazine as diferenças entre a indústria musical portuguesa e brasileira,
 
Jornal do Algarve Magazine - A que é que se deve a sua presença aqui no Algarve, em Monte Gordo?
 
Eugénia Melo e Castro - Eu vim a convite da Susana Travassos, passar o fim-de-semana, porque conheci a Susana através dos projectos dela. É uma jovem que quer fazer carreira, que tem ideias muito concretas e muito firmes, e que me despertou interesse porque quando a ouço falar é como se me estivesse a ouvir falar há muitos anos atrás, portanto acho que isto é uma continuação gira. Acho que é uma pessoa completamente diferente de mim, com uma voz extraordinária, e é de outra geração. É 25 anos mais nova que eu, tem tantos anos como eu de carreira. Essas coisas são revigorantes.
 
 
J.A.M. - E curiosamente ela começa a cantar também música brasileira sem sotaque, não é verdade?
 
E.M.C. - Sim, ela tem mais ou menos a mesma ideia da música, dos sons da língua portuguesa na música, acho que isso é muito importante, é importante que ela esteja sempre à procura de coisas novas e questione as existentes, que são pontos que foram importantes para mim, também. Ela fez isso por ela mesma, faz-me não me sentir assim tão sozinha quando passava por essas coisas.
 
 
J.A.M. - Portanto conheceu o trabalho dela, e depois encontrou-a no Brasil. Encontraram-se em São Paulo, certo?
 
E.M.C. - Exactamente, ela estava a fazer apresentações em São Paulo e para mim foi interessantíssimo conhecer pessoalmente o espectáculo dela, e gostei imenso. Foi digamos que amor à primeira vista.
 
 
J.A.M. - Mas ela também foi assistir a um espectáculo seu. Começou aí a nascer uma grande amizade?
 
E.M.C. – Exacto, porque eu percebi que a Susana é uma pessoa com muita garra, com muita força, que sabe bem o que quer. É muito nova mas é muito segura das suas intenções e das suas afirmações, parece ter uma bagagem de informação, cultural e musical enorme. E humana também.
 
 
J.A.M. - Toda a gente sabe que fazer carreira no Brasil não é fácil, mas a Eugénia tem tido reconhecimento e cantou ao lado de grandes vozes brasileiras, como Tom Jobim, Caetano Veloso, Ney Matogrosso. Qual é a diferença no público, nos críticos e na forma como o artista se impõe no Brasil e aqui em Portugal?
 
E.M.C. - São mercados completamente diferentes, desde a estrutura ao tamanho, Portugal é um mercado pequeno, mas tirando esse factor geográfico e nacional, há uma posição positiva em relação ao Brasil, de resolver as coisas, de vamos fazer, não complicar, de viabilizar. As pessoas fazem parcerias umas com as outras, embora não queira dizer que não exista rivalidade, que não exista competição. Há uma rivalidade positiva, e muitas vezes as pessoas juntam-se para fazer as coisas melhor.
 
J.A.M. - E também é mais fácil impor um certo tipo de música no Brasil, um certo estilo muito diferente do comercial que se ouve muito em Portugal?!
 
E.M.C. - Sim, o Brasil é um país extremamente musical e o seu tamanho proporciona que cada gueto, digamos, musical, seja um gueto com um mercado próprio, portanto que se auto-sustenta. Ou seja, se eu sou uma cantora de blues, eu tenho os meus seguidores de blues garantidos, e ainda posso ir buscar uns ao samba, outros ao jazz... ou seja, há espaço para fazer carreira nos vários estilos musicais. Em Portugal, o que acontece é que os espaços para todos os tipo de música são muito pequenos.
 
J.A.M. - A Eugénia ainda fez aqui em Portugal um programa para tentar inverter um pouco essa situação. Chamava-se Atlântico. Qual era a filosofia do programa?
 
E.M.C. - A filosofia do programa era juntar artistas de Portugal e do Brasil para cantarem e fazerem música juntos. Houve grandes sucessos nessa empreitada. Quando eu comecei, era muito estranho alguém ir ao Brasil e trazer compositores brasileiros para cá, mas hoje em dia é um universo muito normal, já não é uma coisa que estranhe a ninguém. E agora lanço sempre os meus discos no Brasil e em Portugal.
 
J.A.M. - Qual foi o último? E qual é o próximo?
 
E.M.C. - O último lançamento aqui em Portugal foi o PoPortugal, que foi em 2007. No Brasil saiu o PoPortugal, em 2008, e saiu agora um disco de duetos totalmente remasterizado que ainda não saiu em Portugal mas vai sair lá para o Verão. É um disco de 30 anos de carreira. E está para sair até ao fim de 2009 o novo Cd UM GOSTO DE SOL, que já está gravado e pronto.
 
J.A.M. - Vive em São Paulo?
 
E.M.C. - Quando estou no Brasil, a minha residência é mais em São Paulo. Foi durante uns anos o Rio, hoje em dia é São Paulo. O último disco que eu acabei de gravar,  que ainda não saiu, é um disco de homenagem a Minas Gerais e foi gravado em Belo Horizonte. Portugal tem muito em comum com Minas Gerais, há um tipo de personalidade que se desenvolve numa terra fechada... As pessoas são muito da terra que são. Para mim, Minas Gerais é o Estado brasileiro mais português em tudo, até na comida, na maneira de ser... Mas eu moro em Lisboa, a minha residencia fixa é sempre em Lisboa.
 
 
J.A.M. - E é mais fácil ter este tipo de produções no Brasil do que em Portugal. Ou não?
 
E.M.C. - É mais fácil fazer lá.  As leis de mecenato em Portugal funcionam muito mal. Minas Gerais, por exemplo, é um dos estados mais organizados em termos desse tipo de apoio. É uma coisa impressionante o que lá se passa, os mais velhos a trabalhar com os mais novos, em concertos em conjunto, e o governo a incentivar as empresas. Há incentivos de lei fiscal para espectáculos ao vivo, para teatro, cinemas, livros... As coisas funcionam e não há dúvida que daqui a uns anos vai-se ter um retorno imenso.
 
 
J.A.M. - Então e quais são os seus projectos, agora? Passam pelo Brasil... Mas também gostaria que passassem aqui por Portugal?!
 
E.M.C. - Eu tenho sempre esse ideia de ser convidada palra vir fazer espectáculos em Portugal e poder mostrar aquilo que ando a fazer no Brasil, porque há pessoas que acham que eu a certa altura deixei de cantar,  e eu não parei nunca...
 
J.A.M. - E continua a manter amizades com os músicos brasileiros e a fazer parcerias com eles?
 
E.M.C. - Sim, este disco novo tem um dueto com o Milton Nascimento . Eu continuo sempre a trabalhar. Eu procuro trabalhar com cantores e compositores que eu admiro,  que são os grandes mestres da música popular brasileira, e também aproveitar a garotada que está em termos de música com imensas coisas novas, sons extraordinários e toda uma criatividade e uma qualidade incrível.
 
 
J.A.M. - A Eugénia vinha muito para o Algarve quando era mais jovem?
 
E.M.C. - Eu tenho uma ligação muito forte ao Algarve. Mais com a ilha de Faro. Os meus pais tinham um grande grupo de amigos, a Sophia de Mello Breyner, o Manuel Baptista, o Vespeira, sei lá, eles faziam parte de um círculo de intelectuais... O meu pai é poeta e escritor e a minha mãe também.  Alugavam aquelas casas ali na ilha de Faro, as casas que os pescadores deixavam no Verão. E nós ficávamos ali dois meses, três meses, na praia à solta. E depois passámos a ir para a praia da Rocha que também era um paraíso.
 
 
J.A.M. - Portanto cresceu no Algarve...
 
E.M.C. - Eu passava três meses por ano, todos os anos no Algarve. Comecei a vir mais para esta zona de Monte Gordo e Tavira há cerca de 10 anos..
 
 
J.A.M. - E como é que vê a evolução do Algarve...?
 
E.M.C. - Vamos só falar das coisas que melhoraram. Tem uma nova  ciclovia extraordinária que liga o Algarve de ponta a ponta !!!  O único desporto que eu faço é andar a pé e de bicicleta, são as coisas de que mais gosto. Sou incapaz de me enfiar num ginásio. E o Algarve tem um cheiro especial... Eu já vi muitas praias, já frequentei praias de muitos locais no mundo, nada comparado ao Algarve. O cheiro do mar, da praia, não há nada igual.
 
Fernando Reis/Maria Zambujal
 
Marta Reis (foto)
Publicado por popogirl às 00:54
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