Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Entrevista à Revista Gula - Brasil !!

Revista Gula, 7 de Abril de 2009

 

A cantora e compositora portuguesa Eugénia  Melo e Castro não é apenas uma artista talentosa, cultuada por um público fiel em seu país e no Brasil, que reconhece nela o extremo bom gosto na escolha do repertório. É também uma cozinheira virtuosa e apaixonada, que guarda na memória as lembranças de uma infância incrível numa portentosa casa na cidade de Covilhã, aos pés da mítica Serra da Estrela dos famosos queijos, na região da Beira Baixa.

 

Filha dos escritores Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro, Eugénia ficou desde cedo apaixonada pela música brasileira por um desvio do destino: aos 16 anos, e prestes a entrar na carreira artística como atriz de cinema, teve um problema de saúde que a obrigou a ir a Londres para um longo tratamento de três anos, seis meses deles dentro de uma bolha. A música era seu conforto e ela escolheu a companhia sonora constante de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e outros cantores-compositores brasileiros. Isso a marcou para sempre.

 

Em 1981, com a cara e a coragem, veio ao Brasil e procurou o talentoso compositor e arranjador Wagner Tiso, propondo a ele a gravação de seu primeiro disco, Terra de Mel, do qual participaram músicos brasileiros e portugueses. Foi considerado o melhor disco editado em Portugal naquele ano, e Eugénia a melhor cantora portuguesa. A partir daí seguiu-se uma rica discografia, com mais de 20 CDs, entre eles o espetacular Desconstrução, com músicas de Chico Buarque. Hoje, morando em São Paulo e voltando sempre a Portugal, Eugénia Melo e Castro estabeleceu uma contínua ponte musical entre os dois países, sem jamais esquecer a riqueza culinária com que foi criada. Seus momentos mais emotivos no dia-a-dia ou nas festas foram revelados a GULA durante um agradável almoço no restaurante paulistano Piselli

 

O que representava a cozinha de sua casa?

 

Era tudo. A cozinha da minha casa na Covilhã tinha 150 metros quadrados. Para ter uma idéia do tamanho, eu e minha irmã Alberta fazíamos gincanas de bicicleta dentro dela. Morava lá com meus avós, que tinham 20 empregadas! Era um solar extraordinário, com três enormes andares, e ali vivíamos verdadeiramente no país das maravilhas. A casa era um palácio, hoje em dia é uma parte museu, outra parte sede da directoria da Universidade Interior da Beira.

Tínhamos um fogão a lenha, com cerca de 4 metros de comprimento e oito bocas com chapas de ferro. Todo o aquecimento da casa e a comida eram a lenha. A cozinha tinha uma pia de pedra maciça, como se fosse uma pia batismal imensa e era onde se lavava tudo. Do que mais gostava de fazer era ajudar as cozinheiras a preparar a comida. Também matei muitas galinhas, é uma coisa que hoje em dia não posso nem imaginar. Pendurava a galinha e cortava seu pescoço com a faca... Acompanhávamos todo o ciclo: ovo, nascimento e panela (risos).

 

De onde vinham os ingredientes usados?

 

Tudo o que consumíamos vinha de nossa quinta, a Quinta Nossa Senhora das Luzes, a aproximadamente 13 quilômetros de distância: todas as semanas chegavam as favas, as ervilhas, as batatas, as verduras, aves, tudo.

 

Faziam vinho e queijo?

 

Na quinta e na casa da Covilhã havia lagares para fazer vinho. Na casa, o lagar era imenso, rodeado de pipas, fazia-se tanto, mas tanto vinho que as pessoas iam lá com um garrafão para pegar. E o que mais me lembro é que eu caí várias vezes no lagar; numa dessas vezes estava quase a me afogar e o trabalhador que me salvou foi o mesmo que salvou meu pai numa mesma situação, quando ele era criança! Bebíamos vinho desde criança, no almoço e no jantar, misturado à água, naturalmente. Fazíamos quase só vinho tinto, e era bastante forte. Eu sei que é uma heresia, mas até hoje gosto de misturar água ao vinho, me lembra a infância.

 

Quem elaborava o vinho?

 

Meu avô Ernesto, que era engenheiro químico e maestro, e tocava violino divinamente. Ficava enfiado na biblioteca ouvindo Beethoven, de manhã à noite. Mas a mais forte lembrança que tenho dele era quando descia até à adega, que ficava no porão sombrio, onde ficavam os tonéis de vinho, para fazer análises quimicas e medir o teor de álcool de cada amostra de vinho. Enquanto esperava os resultados, tocava seu violino e o som ecoava, tinha uma acústica perfeita. Eu ficava escondida atrás de um barril, absolutamente hipnotizada! Meu avô foi a mais forte influência que tive na vida, um homem elegante, extraordinário e misterioso.

 

Era feliz e sabia?

 

Sim, até os 15 anos vivi com o pé na terra, na maior liberdade possível, em contato direto com a natureza. Vivíamos as quatro estações, havia a colheita das cerejas, das castanhas de São Martinho, a ginja, o fazer dos doces de abóbora de fila e de abóbora-menina. Minha avó Maria Gonzaga, ou avó Gonzaguinha, era uma exímia cozinheira. Mãe de meu pai, ela registrava suas receitas em cadernos, uma beleza, com aquela letra antiga, direitinho. Foi ela quem me ensinou a cozinhar. As receitas eram extraordinárias, porque em casa costumava-se cozinhar para até 60 pessoas. O sabor de tudo que existia naquela casa é algo que jamais encontrei depois.

 

Qual é o prato que mais evoca sua infância?

 

Lembro-me particularmente do tempero das saladas, nunca mais consegui um tempero como aquele. Havia a pescada cozida, com ovos duros, legumes, couves, batatas, eu adorava. Os empadões de carne eram maravilhosos, feitos com restos de carne. Minha avó seguia muito a política do aproveitamento. Apesar da opulência da casa, não havia muito dinheiro solto, existia sempre uma contenção, era tudo muito comedido. Ah, e havia as migas, que cheirinho... O alho era frito no azeite, depois se tirava o alho e os pãezinhos eram mergulhados nesse azeite. Era só fritar, fritar e fritar, embrulhar, e tínhamos o pão de azeite, que era servido como acompanhamento. Fazíamos muito o típico pastel de molho, herança judaica, de azeite com carne e uma massa completamente diferente, parecida com a massa folhada e mergulhada num caldo de açafrão.

 

Comiam muita carne de porco?

 

Não comíamos muito porco na Covilhã, por causa da tradição judaica na região. Somos descendentes diretos de António José da Silva, somos cristãos-novos. Minha avó fazia galantinas de vitela, alheiras, comíamos muita carne de vaca, cabrito, sobretudo a chanfana de cabrito, e coelho. Já no Alentejo, de meus avós maternos, sempre se comeu porco.

 

No dia-a-dia, quais eram os doces mais freqüentes?

 

Os doces lá em casa eram ovos moles, leite creme (como o crème brûlée, o açúcar queimado com a chapa do fogão), as gargantas de freira, massa de hóstia enrolada como um charutinho e recheada com fios de ovos; os bolos, eu adorava comer a massa crua, bater as claras. Tudo era feito em casa. Pão-de-ló era feito sempre, também. Ah, e as marmeladas! Tinha a branca e a vermelha, feitas nos grandes tachos de cobre.

 

Do que mais gosta de fazer?

 

Tenho algumas especialidades, como o rosbife. Meu rosbife é delicioso, feito com lagarto, a peça bem limpa. Faço arroz de pato, uma glória, e meu arroz de tomate é imbatível.

 

Como é feito?

 

Faço o refogado de cebola e alho, coloco o arroz, a água, um pouquinho de noz-moscada, pimenta-do-reino preta e salsinha. Quando já está cozinhando, pego os tomates, bastante tomate, sem pele e sem sementes, pedaços grandes, e deixo terminar o cozimento, deixando o arroz molhado.

 

Publicado por popogirl às 00:08
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