Terça-feira, 22 de Julho de 2008

PARTE 1 - BIOGRAFIA VERDADEIRA- JULHO 2007

 
 
É numa das ruas mais lisboetas de Lisboa, na da Escola Politécnica ao Príncipe Real, zona onde habitam mais artistas e intelectuais por metro quadrado da capital, que Eugénia Melo e Castro tem uma metade da sua vida. Aquela que diz respeito aos seus afectos. A outra metade, para onde voa de dois em dois ou de três em três meses, está instalada numa outra rua, de uma outra metrópole, a um oceano de distância: em São Paulo, no Brasil. Esta, embora igualmente povoada de afectos, é a sua base de trabalho. O Brasil soube acolhê-la melhor do que Portugal. Por cá, subsistem recordações dos maiores sucessos de Terra de Mel (o seu primeiro disco, lançado em 1981). Por lá, dá concertos para milhares de pessoas e já gravou com Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ney Matogrosso e até com Tom Jobim, pouco antes da sua morte (foi a única artista portuguesa a fazê-lo). Por cá, e à falta de patrocínio, aluga, por sua conta e risco, uma sala no CCB para comemorar os seus 25 anos de carreira. Por lá, Caetano diz: "Eugénia é iluminada. (...) Ainda por cima, é uma cantora e compositora de música de primeira qualidade. Então, não é só a atitude que é bela, mas ela é boa na música."
Com jeito de miúda e um encolher de ombros, aquela figura franzina, à beira dos 50 anos, desvaloriza o caso: "Quem quiser saber, que saiba. Eu não ando com uma assessoria de imprensa atrás." Como disse e repetiu ao longo da entrevista, o tempo está a seu favor. Da primeira vez, a mensagem não passou de mais uma frase feita. Mas, duas horas de revelações depois, dadas em primeira-mão para a Vogue, percebi finalmente o verdadeiro significado daquilo.
 
Da Covilhã, onde nasceu há 49 anos, recorda uma infância tranquila e musical. "Lembro-me da enorme nespereira à qual trepava até chegar a uma formação de troncos confortáveis e para onde levava almofadas, manta, uma garrafa de Sumol e bolachas:" Por lá ficava o dia inteiro. Quase sempre, o sinal para irem para a mesa era dado pela avó, ao piano. "Tocava sempre a mesma música e nós já sabíamos que tínhamos cinco minutos para lavar as mãos e pentearmo-nos. A mesa era sempre um ritual." O avô, além de engenheiro químico, era maestro e violinista. "Por isso, lá em casa, sempre ficaram músicos, actores, etc. Havia uma actividade cultural intensa. Tanto que foi o meu pai que começou por levar os discos do Chico Buarque lá para casa. Trazia-os para ele, mas, depois, começou a perceber que eu os adorava e passou a cultivar isso em mim." Pelo meio, os colégios de freiras... "Fui expulsa de todos", conta. "Eu não acato ordens - é uma rebeldia que já nasceu comigo - e sou muito imprevisível. Estou quieta e as pessoas acham que eu estou simplesmente quieta, mas estou a magicar alguma coisa. Quando me levanto, é como se essa coisa já estivesse em andamento para se tornar realidade e não perco muito tempo a explicar o que é que eu vou fazer. Faço. E já nos colégios era assim: eu aturava aquela chatice monumental das freiras, aquele `não pode' a tudo; até que, às tantas, pensava: `mas não pode porquê?' Da mesma forma que, anos mais tarde, quando eu dizia que queria cantar com o Caetano Veloso e as pessoas me diziam que eu era doida, que não podia, respondia: `Mas não posso porquê?
 
A engrenagem pôs-se em movimento com uma conversa com o próprio Caetano Veloso. "Eu andava no teatro (Eugénia integrou o elenco de A Barraca entre 1977 e 78, onde trabalhou, entre outros, com Augusto Boal, Mário Viegas e Maria do Céu Guerra) e conhecia o Boal, que conhecia não sei quem e, naquela convivência, festa em casa de um, jantar em casa de outro, acabei por dar um jantar onde estiveram o Caetano e os músicos dele. Ele foi para Paris e, por causa de uns problemas logísticos, os músicos dele tiveram de ficar cá em casa. E foi mais ou menos nessa altura que eu falei com ele e lhe disse que queria muito cantar. Ele disse-me para falar com o Wagner Tiso [com quem veio a gravar Terra de Mel], que ele era uma pessoa encantadora e que podia ajudar-me. Ou seja, de tudo o que eu pensava fazer, com o Brasil só tinha respostas positivas; cá, era tudo negativo e gargalhadas a ecoarem... Como se eu estivesse a fazer uma coisa com a qual era impensável ousar." Tudo aconteceu exactamente como sonhava desde cedo. Já como cantora, conheceu e criou amizades entre os maiores músicos do Brasil, com os quais tem trabalhado em diversos projectos. Mas, como faz questão de dizer, "não se pode confundir amizade com competência profissional. Porque, se eu fosse só amiga e não fosse competente, ninguém apostaria em mim".
 
Em 1988, idealizou e criou o programa Atlântico, emitido em Portugal pela RTP e, no Brasil, pela TV Cultura. Apresentado por Eugénia Melo e Castro e Nelson Motta, o programa juntou, durante catorze semanas, músicos e cantores de países de expressão portuguesa, merecendo excelentes críticas por parte da imprensa. Foi nessa altura que o trabalho de criar pontes entre Portugal e o Brasil (que encara de forma quase missionária) se tornou mais visível. E, sem que se tivesse ouvido falar do assunto deste lado do Atlântico, no ano passado, foi distinguida com o Prémio Qualidade Brasil 2006, pela divulgação da música brasileira na Europa.
 
O grande interesse pela música brasileira surgiu numa altura muito especial da sua vida. Foi entre os 16 e os 18 anos, quando esteve internada num hospital em Inglaterra. “Tive leucemia do sistema linfático. Escapei por uma unha negra: estive dada como perdida para sempre - davam-me oito dias de vida. Acabei por entrar adolescente e sair uma mulher feita, com 18 anos e um olhar completamente diferente. Fiquei seis meses numa bolha sem me poder mexer por causa do transplante de medula que fiz, fiquei careca com a quimioterapia e com o cobalto fiquei sem pele, praticamente em carne viva. Regularmente, perguntavam qual a minha cor favorita - para forrarem o caixão - e vinha um padre confessar-me, que eu recusava, dizendo que não tinha tido tempo para cometer pecados."
 
Em 2002, lança o CD Paz, que marca a sua estreia como compositora. As letras foram todas escritas na altura do seu internamento. "Foi muito duro, mas, ao mesmo tempo, foi um período da minha vida extraordinário. Lembro-me dos meus anos de hospital assim como um presente, porque encarei a doença como um ponto da situação. E pensava: `Agora, ou fazes algo de interessante da tua vida, ou não vale a pena.' E, durante os dois anos em que estive internada, aquilo que eu ouvia de manhã, à tarde e à noite eram as cassetes com músicas do Chico, do Caetano, do Milton, do Ney... que a minha irmã me gravava. Por que é que a música brasileira tem esta importância para mim? Porque eu prometi a mim própria que, se eu saísse daquela cama, ia ser cantora e ia cantar com todos eles. Eu imaginava as letras, os espectáculos, nós a compormos e a gravarmos - e aconteceu tudo, tal e qual!" É também por isso que Eugénia diz que o tempo está a seu favor. "Eu nunca esperei chegar aos 49 anos. Para o ano, vou fazer uma festa de arromba."
Música: IN " REVISTA VOGUE " JULHO 2007 - Portugal
Publicado por popogirl às 02:08
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