Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

o Lobo

Era um prédio normal, moderno para a época, horrendo em qualquer época.

Era a segunda casa que o casal experimentava longe dos sogros e pais. Nem tão longe assim, era um apartamento literalmente colado à casa dos sogros, havia as meninas, ficava mais fácil assim. A parede lateral do prédio era o fim do jardim da “nossa” casa grande.
Era um terceiro andar, acho que não tinha elevador.
O nosso quarto era normal, duas camas de criança, uma porta de varanda e uma janela sem protecção de rede, naquela época as crianças ainda não tinham descoberto que podiam atirar-se pela janela fora, era tudo muito novo nas vidas de todos, e viver ainda era uma coisa, para mim, sem a menor explicação, embora fosse um espanto permanente.
A minha mãe ficava colada na porta, em pé, de castigo, até nós adormecermos. De vez em quando mexia-se, dava uns passinhos bem devagar, eu esperava ela sentir algum alivio na sua fuga, e no pior momento eu “acordava”, Mãe, fique aí !!!!!!!!!!!
Eu não sei nem porquê, era pura ditadura nocturna, mas ela tinha inventado isso e nós gostávamos de a ver sofrer em pé, de a sentir ali todas as noites. Um dia eu iria pagar por isso, esse inocente terrorismo manifestou-se num grau muito mais requintado e cruel na minha filha, anos mais tarde.
Mas a mãe que interessa aqui é a minha mãe, não eu.
Um dia, estávamos como de costume a brincar ao amor materno que tudo protege e evita, resolvi deixar a minha mãe fugir, fingi que estava a dormir e dei-lhe essa pequena ilusão de um sono profundo e calmo.
A minha cama ficava de frente para essa porta, do lado esquerdo, a minha irmã, que era um anjinho mais velho, dormia à minha direita, com a cama ao lado da tal janela, que também tinha uma tal porta, e também tinha uma tal varanda. Um prato cheio para os incalculáveis perigos, numa cidade mínima, de província, onde nada rigorosamente acontecia, e a imaginação da minha mãe ainda estava em estado de choque com o rumo que a vida dela tinha tomado, para poder voltar a realizar e descobrir o maravilhoso filme de terror que a vida afinal podia ser. Adrenalina pura. Naquela época com outro nome, não sei qual. Sim, ela já tinha tido muita imaginação, mas aquele casamento tinha-lhe adormecido, tipo torpor, os sentidos da imaginação.
Eu sei que isto aconteceu. Não adianta dizer que foi invenção infantil, delírio, sonho. Eu sei. Eu tinha 3 anos, eu sei muito bem tudo o que aconteceu naquela fase da vida da minha mãe. Tenho os espaços e os tempos cronometrados e síncronos.
Pela porta da varanda entrou um lobo. Calmo, devagar, um lobo enorme, eu nunca tinha visto um lobo. Nunca mais vi nenhum lobo. Mas este era um lobo enorme, com aqueles olhos de lobo, mas manso. Acho eu. Sempre me tinham contado que os lobos eram muito maus, muito ferozes e perigosos. Ele passou imponente na frente da minha cama, foi até à porta do quarto, onde a minha mãe costumava mofar em pé todas as noites, e voltou atrás. Ela já tinha escapado nessa noite, pé ante pé. Felizmente para mim. Eu quase não respirava para tentar passar despercebida. Estava imóvel, paralisada de espanto deitada dentro dos lençóis, presa. Nem chegava a ser medo. Mas ele estava ali, e ele sabia exactamente onde eu estava.
O lobo veio na direcção da minha cama, olhou bem devagar, subiu na minha caminha ( não pulou, subiu) e entrou nos meus lençóis. Ali ficou e ajeitou-se para dormir, como se fosse a coisa mais natural daquele mundo.
A nossa respiração acalmou e dormimos em paz. Ele também estava entre o medo e a certeza de ter chegado ali. Tudo estava certo, tudo tinha corrido bem. O lobo estava orgulhoso de mim, e dele, eu sentia, e isso acalmou-me. Além disso era inverno, um frio de rachar, e foi a noite mais quentinha e serena da minha vida.
Eu fui a primeira a acordar. O lobo continuava a dormir, assim como a minha irmã. Eu não me podia mexer, ele podia acordar.
Agora eu podia olhar bem para ele. Era mesmo um lobo, a luz da manhã que entrava pelas frestas da persiana deixavam ver muito bem. Mas estava tudo fechado, como é que ele tinha entrado pela varanda e estava tudo fechado ????
O lobo continuou imóvel, meio preguiçoso, e eu ali, paralisada. Fiquei sem saber o que fazer. Mas era uma sensação tão boa, o lobo ali, com a cabeça na outra metade do meu travesseiro, dentes brancos, profundamente adormecido, tranquilo, foi acordando devagar, com os olhos brilhantes, parecia que me dizia, não tenhas medo, nunca nada será impossível, e eu vou estar sempre aqui.
Depois levantou-se, sempre muito devagar, caminhou pelo quarto e foi embora como entrou, sem mistério.
Nunca pude contar a ninguém, eu já era meio maldita, passava sempre por mentirosa, melhor ficar calada. Mas nunca mais torturei a minha mãe para ficar ali especada em pé na porta do quarto, todas as noites. Não sei porquê.
O lobo nunca mais voltou. Só eu voltei.
 
Soube recentemente que os lobos têm alma, tem sentimentos e pensam em matéria humana. Eu pertenço aos lobos.
Publicado por popogirl às 03:09
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