Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Texto escrito há uns meses

Estou em São Paulo. Há três dias que não saio de estúdio. Estou a gravar umas vozes, umas coisas, umas ideias novas de cantar, outras ideias. Já me tinha até esquecido de como é fechar os olhos e cantar. Tudo o que circunda o essencial do canto afasta o cantor do canto. As expectativas, as conversas, o meio, o mercado, as contas, os egos, as angustias, os contratos, as negociações. Um verdadeiro mar de nadas impossíveis de evitar para que tudo, ou seja, cantar, aconteça.

 
Estou a voltar a um começo que não aconteceu comigo. Eu quero cantar num bar, num começo de vida, numa meia-luz, com microfones fracos, ou sem eles, para 20 pessoas que nem prestam muita atenção. Tudo o que eu sempre evitei. Agora é o que eu quero, a essência do canto, para mim, para poucos, distraídos, simples.
Comecei há 25 anos atrás logo na ribalta das luzes, dos discos de ouro, dos melhores músicos do mundo, da perfeição técnica, da busca de um sucesso exterior e natural dentro da ideia de estrela maior. Cumpri as minhas metas todas, os meus sonhos, as minhas alegrias, que por vezes foram tristezas depois, ate por outros motivos. Gravei, fiz shows sem parar, aprendi a pisar um palco, a ter prazer em palco, a precisar do palco, a pertencer ao palco. Nunca fiz nada para além de compor e cantar e gravar e olhar e ouvir e querer tudo o que há de bom na música especificamente pela música e pela poesia, pelo canto, pelos músicos, pela ideia primeira e principal. Agora preciso apenas de cantar, cantar para mim, baixinho. Gravar baixinho. Tocar baixinho. Compor baixinho. Para dentro.
 
Eu descobri o canto para dentro, aprendi a cantar, em criança, para dentro, vou voltar para dentro. Mas por fora. Quero apenas cantar, não ter de explicar o que canto, porque canto, porque escolhi, porque nada. Não quero falar nada, nem dar entrevistas, nem me expor, nem me mostrar. As entrevistas nunca são o reflexo de um motivo maior, de uma ideia acertada, de uma dúvida interna, de uma insegurança real e natural. Responder a perguntas sem uma conversa explícita é impossível, traidor, desinteressante, errado, maléfico. Eu não quero ter de explicar nada. Porque não consigo não me boicotar imediatamente. Eu fujo de mim quando tenho de me expor por respostas e palavras e explicações e questões que não são as minhas mesmas. Não vou dizer, não adianta pensar alto, não sai certo, exacto, perfeito, humano, errático. Tenho ideias melhores para mim. Quando falo e me exponho sou outra pessoa, imediatamente. E não gosto nada dessa pessoa. Tenho de me treinar por dentro e aparecer tal qual sou. Não sei como fazer isso. E sumir de mim de vez em quando. Quero ficar calada. E cantar. E compor…
Publicado por popogirl às 03:17
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2 comentários:
De ninguém a 13 de Maio de 2008 às 22:30
Gosteiu. visita o meu tb


De Willians a 24 de Julho de 2008 às 04:52
Certamente, você já deve conhecer o poema abaixo. Nos final dos anos 70, foi musicado pelo Fagner. De qualquer forma, lembrei-me destes versos ao ler o seu "texto escrito há uns meses".


Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Cecília Meireles


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