Terça-feira, 1 de Abril de 2008

CD PAZ – JORNAL “EXPRESSO”, EM 2002

Prova de resistência
7 de Dezembro de 2002
 
No seu novo disco, Eugénia MC procura fazer as pazes com o mundo, Por Jorge Lima Alves
 
Eugénia Melo e Castro (ou Eugénia MC, como ela prefere ser chamada agora) tem um novo disco. Chama-se Paz e é todo muito suave, muito cool, o que não quer dizer que ela encontrou finalmente a serenidade, como se verá por esta entrevista. Ou melhor, por este excerto da longa conversa que tivemos a propósito não apenas desta obra mas de toda a sua carreira.
 
Este disco é muito diferente de tudo o que tinha gravado até hoje, em grande parte devido à colaboração do produtor brasileiro Eduardo Queiroz. Como é que o conheceu?
 
O Eduardo produz música para filmes. É o que mais gosta de fazer. Ele estava a trabalhar num projecto multimédia para o Museu de Petrópolis e usou uma música minha, do disco Lisboa Dentro de Mim. Convidaram-me para ouvir o trabalho, e eu fiquei de boca aberta. Ele tinha transformado a canção completamente, e o resultado era absolutamente extraordinário. Era o som que eu andava à procura há uns anos, sem conseguir explicar o que queria a ninguém. Dei-lhe a ler as minhas letras, e ele disse-me: «Vamos fazer isto juntos. Eu só vou preparar bases, você é que vai fazer as melodias. Você quando canta improvisa imenso, portanto tem uma facilidade enorme em compor.» As músicas foram compostas no tom em que estão. Eu cantei no meu tom natural, e ele adaptou a música a esse tom. O que significa que este disco tem os meus tons naturais. Por isso, o disco está todo muito mais baixo, menos agudo. Na parte da interpretação, foi a única vez que ele mostrou as garras. Disse-me: «Olha, as letras são muito fortes. Se tu interpretares isto com dramatismo, ninguém vai conseguir ouvir. Limita-te a cantar, normalmente, sem intenção, porque as palavras dizem tudo.» Quando me fugia o pé para o drama, ele carregava no botão e dizia: «Nem gravei. Não ouvi.» Foi sensacional, porque, pela primeira vez, cantei suave. Quando ouço os meus discos mais antigos, há ali demasiado dramatismo. Mas isso vem da minha escola, tanto pelo lado português como pela MPB, com a Maria Bethânia e o Milton Nascimento. O Eduardo, como é mais novo do que eu, tem 34 anos, não vê essas coisas assim, quer é fazer aquilo que tem na sua cabeça. Usou-me como uma instrumentista, e foi muito interessante ser conduzida. Sempre tive o sonho de ser apenas a voz de um grupo de rock qualquer. O que eu queria mesmo era fazer um trabalho em conjunto.
 
O disco tem uma componente electrónica mas...
 
... É um disco electro-acústico. Tem uma componente electrónica mas músicos a tocar em cima. Com uma curiosidade: os músicos procuraram imitar as sonoridades electrónicas, em vez de ser ao contrário, como de costume, o que lhe dá um tom diferente, acho eu.
 
A sua filha participa no disco.
 
Houve a ideia de convidar a Mariana, porque foi a Mariana que me disse: «Mãe, tens que rever um pouco a tua coisa musical, porque os meus amigos não sabem quem tu és. Tu caíste numa zona invisível.» Deu-me coisas a ouvir. Deus, por exemplo, Belle & Sebastien, Portishead e outros cujos nomes não me lembro.
 
E acha mesmo que caiu numa zona invisível?
 
Nunca parei de trabalhar — foram 16 discos em 20 anos, não é pouca coisa — mas, a certa altura, aqui em Portugal, isso deixou de ser visível. Eu mesma sentia que não valia a pena continuar. Depois de no ano passado ter feito o Recomeço, a tal maqueta que deu origem ao primeiro disco que eu fiz aqui com o Júlio Pereira, e lançar O Motor da Luz, um disco ao vivo que para mim encerra, de facto, um ciclo interpretativo. Feito isso, podia ter parado, porque os discos estavam todos lançados, as prateleiras arrumadas, e eu sentia-me com a missão cumprida.
 
Mas zangada com o seu país?
 
O Eugénia Melo e Castro III, produzido pelo Guto Graça Melo, foi o disco que marcou o início do meu afastamento aqui, em relação ao agrado gerado pelos meus dois primeiros discos, Terra de Mel e Águas Todo o Ano. Fiquei três anos sem fazer nada. Apavorada. Literalmente apavorada.
 
Porquê?
 
Porque tinha acabado de ganhar os prémios todos que se podia ganhar naquela época: os Sete de Ouro para melhor cantora, melhor interpretação, melhor disco... E eu não sabia o que queria ainda. Aquilo para mim ainda era tudo um teste. Tinha vinte, vinte e poucos anos e, de repente... Só quem não sabe lidar com o sucesso é que acredita nele. Eu não acreditei, porque sabia que não era ainda aquilo que queria fazer. Senti-me extremamente pressionada, era como se quisessem catalogar-me. E isso assustou-me imenso. Eu não achava que estivesse a cantar bem, aquilo era tudo feito em cima do joelho. O primeiro disco que fiz bem pensado foi o Eugénia Melo e Castro III, que foi muito mal recebido aqui. A partir daí foi uma relação um bocado de amor e ódio com Portugal.
 
Para além do «Eugénia Melo e Castro III», quais são os discos que considera mais marcantes na sua carreira?
 
Lisboa Dentro de Mim e Coração Imprevisto, porque é um disco de piano e voz. Foi um desafio enorme que fiz a mim mesma: fazer um disco sem rede. Eu tinha acabado de perder a tiróide e de ficar quase um ano calada. Quando cheguei cá com o III, um disco feito com muito trabalho, com preciosismo, vinha como quem traz um bebé, com um orgulho enorme. E levei tanta pancada, mas tanta pancada, que — eu que somatizo imenso — perdi a voz. Formei uns tumores e tive que tirar a tiróide. Fiquei um ano sem falar, porque ao operarem-me tiraram-me uma corda vocal. Tinha tirado da cabeça a ideia de voltar a cantar, por isso, quando recuperei a voz, depois de ter sido operada em Chicago, disse para mim mesma: «O meu próximo disco vai ser sem rede, só piano e voz.» Participaram nesse disco Wagner Tirso, Pedro Caldeira Cabral, Carlos Zíngaro e Zeca Assumpção, na música com o Caetano Veloso, mas claro que esse disco também levou porrada de criar bicho. A partir daí nunca mais me deram sossego aqui em Portugal. No Brasil, Coração Imprevisto foi considerado um dos dez melhores discos do ano. Há aqui uma disparidade de interpretação da minha pessoa. Aqui era a Geninha, que cansou um pouco os portugueses com os seus brilharetes, com os seus convidados, pois tudo foi interpretado como se eu estivesse a armar. Jamais me passou pela cabeça que cantar com Tom Jobim ou com Caetano Veloso fosse uma ofensa nacional. Fiquei a saber. O Tom Jobim até me disse uma frase muito interessante: «Sucesso é ofensa pessoal.» Ele também sofreu um pouco isso, com as suas idas para os Estados Unidos. Tenho orgulho do que consegui fazer no Brasil, sem empresário, sem agente, sem ninguém para batalhar por mim ou abrir caminhos. Até o programa «Atlântico» foi assim, foi interpretado como um acto de snobismo. «Ela faz isto porque é rica, ela faz isto porque é mulher, porque tem muitos amigos», era o que se dizia, quando o que eu queria era conseguir fazer alguma coisa de divertido... porque, para mim, era uma vivência de grande prazer e de grande alegria. Tudo isso foi super mal interpretado aqui e passei um mau bocado. Só não desisti da minha carreira por causa do Brasil. Já disse isto várias vezes e vou dizê-lo até morrer: ser artista em Portugal é uma prova de resistência.
 
Neste momento, toda a gente se queixa de que a música portuguesa não vende, que não passa na rádio...
 
O problema foi criado pelas próprias editoras. Foram elas que criaram o círculo vicioso e altamente duvidoso de manipulação dos meios de comunicação. Parece que isto é uma coisa meio incontrolável em todo o mundo. É um sistema internacional, multinacional, de sacanagem. E portanto, agora, estão a receber o troco. Primeiro criaram os vícios e agora queixam-se dos viciados. Se a música portuguesa não passa na rádio foi porque criaram as «play-lists». Quem é que impõe as «play-lists», não são as próprias multinacionais?
 
Porque é que chamou «Paz» a este disco?
 
Para onde caminha a humanidade? Isto é o caos total. Nós vivemos mini-apocalipses. Essa história do ano 2000, do apocalipse... Qual apocalipse? O século XX foi o século dos mini-apocalipses constantes, permanentes. A cada segundo morrem crianças com fome, gente morre em guerras, acidentes naturais... estamos a matar o planeta. Isto não é um apocalipse? Esta paz de que falo é uma paz de esperança num futuro longínquo, porque acredito que a humanidade cresça na inteligência. Aquele desenho da Fernanda Fragateiro na capa do disco, com aquele bonequinho triste, e depois a minha fotografia já a olhar para cima representam o real e o irreal, a tristeza e a alegria, os dois pólos que, na minha opinião, deveriam ser os motores da vida. A tristeza e a alegria, e não a fome e o excesso, por exemplo. Porque há uma tristeza criativa, quando se trata de uma dor interna de questionamento e não de uma dor que venha de flagelos sociais.
Publicado por popogirl às 04:38
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Ouça aqui

EMAIL/ CONTACTOS/ SITE OFICIAL

eugeniamc@sapo.pt http://www.eugeniameloecastro.com

Bem Querer / Futuros Amantes


Veja mais vídeos aqui!

AVISO AOS NAVEGANTES :

ESTE BLOG É (TAMBÉM) UMA BASE DE DADOS ACTUALIZADOS SOBRE EUGÉNIA MELO E CASTRO. DESTINA-SE AO REGISTO DE ENTREVISTAS, MATERIAIS DE IMPRENSA, MÉDIAS, MP3, VIDEOS, MATERIAL DE PESQUISA, BIOGRAFIA, HISTÓRIAS, OPINIÕES, CRÓNICAS, FOTOS, DATAS, AUTORES, MÚSICOS ENVOLVIDOS, ASSUNTOS RELACIONADOS, DEPOIMENTOS, LINKS RELACIONADOS, AGENDA DE SHOWS, ACTUALIZAÇÃO DE ACTIVIDADES, LANÇAMENTOS E RELANÇAMENTOS DE CDs, DVDs, PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS, GRAVADORAS, DIREITOS AUTORAIS, LETRAS, CONVIDADOS ESPECIAIS, ONDE, COMO E QUANDO.

Arquivos

subscrever feeds

blogs SAPO