Sábado, 29 de Março de 2008

CRÍTICA DO CD PAZ - JORNAL "PUBLICO" DE PORTUGAL , EM 2002



Eugénia MC: Paz Inquieta
Sexta-feira, 15 de Novembro de 2002

Eugénia Melo e Castro sintetizou em MC muitas mudanças. "Paz", um projecto antigo, dá conta delas. Eugénia e o produtor, o multifacetado compositor brasileiro Eduardo Queiroz, explicam-nas.

POR Nuno Pacheco

Adeus Geninha, adeus Melo e Castro. Nasceu Eugénia MC. Ou melhor: ergueu-se a partir do que delas sobra. O resultado desta metamorfose chama-se "Paz" e já era esperado há muito tempo. Adiado como projecto desde 1987 e gerado em casulo ao longo dos últimos 15 anos, vê agora a luz do dia, com canções escritas para a gaveta e que só agora tomam forma definitiva. Como esta, que abre o disco e lhe dá título: "Agora que está tudo certo/ o céu e o inferno em paz/ pareço outra menina/ igual a outro rapaz." Na capa, numa aguarela de Fernanda Fragateiro retirada de um livro que esta artista plástica ilustrou para a mãe de Eugénia, Maria Alberta Menéres, reside o segredo desta "Paz":

"Esse boneco foi feito para um livro da minha mãe que se chama 'Quem Faz Hoje Anos' e que é uma espécie de agenda para as pessoas anotarem aniversários. A minha mãe fazia uma quadrinha e a Fernanda ilustrava cada dia. Essa é a do dia dos meus anos, 6 de Junho [Eugénia, aliás Maria Eugénia Menéres de Melo e Castro, nasceu a 6 de Junho de 1958 na Covilhã]. Quando o livro saiu, a Fernanda ofereceu-me a gravura, já lá vão dez ou doze anos. E eu pendurei-a na minha casa no Alentejo."

Muitas coisas que escreveu depois, fê-lo a olhar a aguarela. E a rever-se no que ela revelava mas também escondia: "Há uma melancolia minha, na observação da vida. Tem muito a ver comigo, daí a Fernanda ter feito esse desenho para o dia dos meus anos." Mas o disco não é propriamente melancólico e por isso Eugénia aparece no verso da capa a "contrariar" o boneco, copiando-lhe a pose e a cor, assemelhando-se ela própria a um desenho mas de cabeça erguida, enquanto o boneco se mostra cabisbaixo.

A ideia do disco explica-a a cantora a propósito da canção-título: "A letra de 'Paz' está escrita desde 1987. Não tem rigorosamente nada a ver com guerra, mas com as dualidades entre um desenho e uma pessoa, entre uma atitude mais reflexiva e uma atitude mais bem humorada, mais positiva, que passam muito pela paz e pela inquietação. Ora a inquietação é uma coisa extremamente saudável porque conduz às coisas que nos fazem andar para a frente. E a paz, para mim, nunca significa estagnação nem paragem no tempo. Esta paz é pós-apocalíptica, como costumo dizer. São pensamentos que me atravessam permanentemente. Ando sempre com um caderno e anoto aquilo que me passa pela cabeça: estou no carro e escrevo, levanto-me às cinco da manhã e escrevo."

Electrónica acústica. O trabalho no disco intensificou-se há dois anos, quando ela conheceu o produtor e compositor brasileiro Eduardo Queiroz. De passagem por Lisboa, onde apresentou o disco com Eugénia na Fnac de Almada no dia 2 de Novembro, Eduardo resume a sua trajectória (a conferir no site da empresa a que deu corpo, www.animamusic.com.br) deste modo: "Comecei fazendo bandas sonoras, depois fui-me especializando na produção. A Eugénia está com 16 discos e eu já estou com 18, entre bandas sonoras, produções próprias e alheias, músicas para o canal Disney no Brasil, duas longas-metragens, muita coisa de cinema. Sempre trabalhei com todos os estilos musicais: peças sinfónicas, rock pesado, samba, etc. O meu estilo é não ter estilo. Mas no final acaba por ter uma certa unidade, porque em tanta mistura acaba-se encontrando um caminho."

O trabalho com Eugénia foi, para ele, uma boa experiência. Começaram com releituras de velhas canções, e por isso duas delas ("Velho mar" e "Dentro") surgem no disco. Mas depressa se convenceram que era melhor partirem para material inédito e, além das canções saídas da gaveta, foram compostas três totalmente novas: "Zona invisível", "Mundos" e "Imagens".

Musicalmente, o disco afasta-se da sonoridade habitual de Eugénia Melo e Castro para se centrar numa malha de base electrónica mas construída com instrumentos acústicos (bateria, violoncelo, baixo, metais). Eduardo Queiroz explica porquê: "A música de samplers, electrónica, é uma coisa contemporânea, que veio para ficar e pronto. Mas o que me agrada é a estrutura dela: em cima de pequenas células vamos compondo, mudando pequenos pedacinhos, criando variações." Instrumentos como o baixo ou o violoncelo foram incitados a tocar como se fossem "cópias" da sua simulação electrónica, o que dá um efeito curioso. "Porque um disco é uma coisa viva, com gente a tocar, não uma coisa gelada de máquinas."

A voz foi outra coisa a mudar, e quase radicalmente. Eugénia recorda: "Quando eu começava a cantar, ele dizia: 'Nem gravei', 'não ouvi.' Parece brincadeira, mas é muito sério. Pela primeira vez tive um produtor que soube dirigir-me, depois de ter estado 20 anos autodidacta." Eduardo explica melhor o conceito: "Os tons das músicas são mais baixos, a voz dela é mais grave. Então a voz, que não é de uma menina mas uma voz madura, com 20 anos de carreira, tinha de ficar aveludada."

Zona invisível. Uma outra voz que surge no disco é a de Ana Mariana, filha da cantora, 23 anos feitos no passado dia 8. "Ela foi fundamental. Ajudou-me a constatar que, se eu fizer hoje um inquérito à garotada portuguesa, ninguém sabe quem é a Eugénia Melo e Castro. E eu não parei um minuto de trabalhar! Há uma zona invisível (daí a canção 'Zona invisível') em que eu caí em Portugal, em determinada geração. No Brasil isso não aconteceu, sempre estive visível o tempo todo." Mariana surge a cantar, em francês, parte de "Paris 88": "Eu fiz essa música em Paris, em 1988 [o título é literal]. Estava num cafezinho e o Chico Buarque estava sentado a dez mesas de distância noutro cafezinho, a ler o jornal. E eu, que sou muito amiga dele, não fui lá. Senti-o tão feliz, tão tranquilo por estar ali, sem ninguém, como se fosse uma pessoa anónima, que me surgiram na cabeça estas palavras: 'Existem menos lugares/ existem menos sentidos', 'Pequenos pontos no mapa/ resistem noites inteiras.' Como a Mariana fala francês perfeitamente, vive em Bruxelas, estuda lá, convidei-a para cantar a tradução dessa letra. Foi uma maneira de lhe agradecer ela ter-me puxado, e dado coragem, para procurar e encontrar uma pessoa como o Eduardo Queiroz."

Mas o francês não surge apenas ali, regressa em "Silêncio a dois", com uma citação parcial de "Avec le temps", de Léo Ferré, por desejo de Eugénia: "É uma das músicas que está sempre dentro de mim, até porque retrata a minha filosofia de vida: 'Avec le temps, va, tout s'en va'/ on oublie le visage et on l'oublie la voix'. Porque o tempo acaba por pôr as coisas nos seus devidos lugares, resolve muitas coisas, umas fora de tempo, outras antes do tempo ou já sem tempo. Em tudo o que eu escrevo... acho sempre que já não tenho tempo. Ou que ainda me vai faltar tempo. Daí eu nunca ter parado, estar sempre à procura."

Muitas mudanças. O som, a voz, o visual mudaram (conferir no site, também ele renovado, www.eugeniameloecastro.com). O nome também, parecendo agora ter sido bebido na cena rap ou hip-hop (é falso, porque na primeira maqueta que ela gravou no Verão de 1979 e que só em 2001 foi editada com o título de "Recomeço", as faixas já eram assinadas com Eugénia M.C.).

Ela explica como foi: "Eu nunca soube muito bem como lidar com o Melo e Castro. Menéres também não dava certo, até porque toda a gente sempre escreve Menezes, nunca acerta. Ainda pensei em Eugénia C, como sugeria o Jorge Lima Barreto no texto do 'Terra de Mel' [1981], mas por uma questão de família ficou Eugénia Melo e Castro. Só não suporto o Geninha, mas não suporto com muito respeito. Foi uma coisa que começou na comunicação social, em casa nunca ninguém me tratou assim, no Brasil ninguém me conhece assim. Finalmente, fiquei Eugénia MC."

E o que vai fazer Eugénia MC com este disco - além de vendê-lo, claro? Apresentá-lo onde puder, promovê-lo, passeá-lo por Portugal no ano que vem com vários espectáculos a começar em Abril, no Rivoli do Porto, e a acabar a 10 de Maio em Lisboa, no Grande Auditório do CCB. Razões para não parar há muitas. Para ela, sintetizadas numa única: "Ou eu encerrava um ciclo e ia ser vovó, porque um dia a Mariana casa, ou fazia uma coisa que me renovasse internamente, que me desse uma perspectiva de alegria, de novidade, de desafio e me deixasse mais contemporânea comigo mesma. Tudo o que eu fiz, por puro prazer e não para carregar uma bandeira na mão (detesto essa ideia da ponte cultural, acho uma grande chatice), estava feito. A alternativa era parar. E isso nunca."
Eugénia MC
Paz
Som Livre, distri. Sony
Publicado por popogirl às 02:56
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