Sexta-feira, 28 de Março de 2008

ENTREVISTA DO CHRISTIANO ROCHA À MODERN DRUMMER


Respeito e Dignidade
Levando a Música a Sério
Por Mauro Tarakdian
Crédito das fotos: Roberto Rocha


MD: Em que se baseia a proposta do CD Ritmismo? Qual sua intenção ao criar esta obra?
Christiano Rocha: Baseia-se em explorar o ritmo. O intuito é emocionar o ouvinte, músico ou não, e mostrar minha verdade como músico, apesar de que não dá para resumir vinte e cinco anos de música num disco de cinqüenta e cinco minutos. Também há o lado prático: o chapeiro da padaria põe mais queijo no sanduíche e a gerente do banco fica mais flexível. Aliás, se você pretende trabalhar com música instrumental, provavelmente precisará de um empréstimo bancário!

MD: Como se deu a produção do CD?
Christiano Rocha: Os processos de pré-produção e produção de Ritmismo foram longos. Tive muito cuidado quanto a repertório, arranjos e músicos. As gravações foram feitas sem pressa. Literalmente se paga um preço por isso. Felizmente, fui um dos ganhadores do Prêmio Estímulo de Música 2007, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura, de São Paulo (SEC). Isso foi fundamental para finalizar o disco e prensar 2000 cópias.

MD: O que você quis fazer no disco? E o que não quis?
Christiano Rocha: Não quis nomes em inglês, solar em mais da metade das músicas, deixar o volume da bateria alto na mix, exagerar nas percussões, etc. Quis fazer um disco fora do padrão “disco de baterista”, tocar músicas que eu gostasse e com quem eu gostasse. Também quis um encarte e uma capa elaborados, afinal a parte gráfica é importante, principalmente na época paradoxal em que vivemos, onde se ouve cada vez mais música, mas compram-se cada vez menos discos.

MD: Onde gravou e quais aspectos técnicos envolveram a captação do som da bateria?
Christiano Rocha: Gravei a maior parte das músicas no Estúdio Arsis. A variedade de estilos presente no CD impôs diferentes configurações e afinações. Isso exigiu um cuidado especial na microfonação, para revelar todas as sutilezas dessas escolhas. Os microfones, todos condensadores, foram escolhidos e posicionados de forma a captar todos os harmônicos que as peças da bateria produziam. Quase tudo foi gravado sem compressão. No bumbo foram usados AT4050 e Peavey Studio Pro M2; na caixa GT44; nos tons C3000; nos surdos CAD E200; no chimbal ATM33a; nos overs C414BULS e Crown PCC 160. Prés Manley, Focusrite, ART e Bellari. Na mixagem apenas equalização corretiva e compressão em paralelo nos toms, bumbo e caixa. Acredito que tudo começa com uma boa captação. Mixagem não é para consertar problemas de captação, e masterização não é para consertar problemas de mixagem.

MD: Quais equipamentos você usou nesta gravação?
Christiano Rocha: Usei uma Yamaha 9000, uma Ludwig e uma DW Collector´s Series na maioria das músicas. Utilizei também uma bateria eletrônica da Roland, diversos tipos de peles e baquetas, várias caixas, inúmeros pratos e alguns instrumentos de percussão.

MD: Quem produziu o CD?
Christiano Rocha: Adonias Júnior, Cláudio Machado, e eu. Aliás, o Cláudio, que é um músico excepcional, foi fundamental para dar uma cara ao trabalho.

MD: Como se deu o processo composicional do CD Ritmismo?
Christiano Rocha: Escolhi músicas de Zezo Ribeiro, Cláudio Machado, José Roberto Gaia, Wander Taffo e Fábio Augusto. Compus uma ou outra coisa para o disco fuçando em meu teclado. Não me considero um compositor, mas sou curioso.

MD: O quão importante é para você ler e escrever música? Você usou deste artifício em alguma composição do seu CD?
Christiano Rocha: É importante ler e escrever para, entre outras coisas, ampliar minhas opções de trabalho, como fazer “subs” sem ensaio ou tempo para decorar as músicas, o que é bastante comum, além de ser fundamental para dar aulas. A maioria das músicas do CD eu gravei sem ler. Prefiro tocar sem partitura.

MD: As faixas do disco foram improvisadas ou todas foram construídas a partir de uma idéia pré-concebida?
Christiano Rocha: Todas foram construídas a partir de uma idéia pré-concebida.

MD: Hoje que você já é um músico maduro é correto dizer que menos é mais?
Christiano Rocha: Não. Às vezes mais é mais! Claro que depende do contexto. Existe beleza na simplicidade, mas não dá para ser minimalista numa Elektric Band ou na banda do Hermeto ou do Zappa. Em contrapartida, às vezes duas notas falam mais que duzentas. São como nas bandas desenhadas do José Carlos Fernandes, onde uma página pode dizer mais que um livro inteiro. Uma única frase, tocada ou falada, pode marcar a vida de uma pessoa.

MD: Você explora ostinatos, compassos mistos para solo e levadas, polirritmias, modulações métricas, deslocamentos de tempo e todas essas coisas que os bateristas gostam em seu CD?
Christiano Rocha: Sim, tudo isso. Não é à toa que o CD leva o nome de Ritmismo. O requinte das composições e dos quarenta músicos convidados permitiu uma grande exploração rítmica, mas o disco tem também coisas simples, inclusive duas baladas.

MD: Qual sua intenção com o método Bateria Brasileira?
Christiano Rocha: Ampliar o restrito leque de opções em métodos de música brasileira no formato play-along e, se possível, ajudar a preservar a memória da bateria brasileira.

MD: Quais foram os maiores desafios para produzir o livro?
Christiano Rocha: Pesquisa; fazer playbacks com qualidade; liberar os direitos autorais; design gráfico; nadar contra a maré editorial, por ser um livro com 196 páginas; captar recursos.

MD: Você fez o livro sozinho ou contou com colaboradores?
Christiano Rocha: Vários músicos me ajudaram, direta ou indiretamente. No livro há transcrições de quarenta e seis bateristas, o que já é um diferencial. Não posso deixar de citar também o apoio do Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet, e das empresas Mtel e DM7, que patrocinaram o projeto, graças ao Rubens do Amaral Junior.

MD: O que é para você o mais importante para um baterista?
Christiano Rocha: Uma bateria e tocar no tempo.

MD: Como foi sua formação como baterista? Você estudou com algum mestre? Teve uma boa orientação?
Christiano Rocha: Fui muito bem orientado. Meu primeiro professor foi Ronaldo Basbaum, meu grande mestre. Estudei também com Emílio Gama; Pascoal Meirelles; Caio Seeber; Dinho Gonçalves; João Parahyba; Renato Pinheiro; Sérgio Gomes; Zé Eduardo Nazário; Bobby Sanabria; Frank Katz; Kim Plainfield, outro grande mestre que tive; Mike Clark; Ricky Sebastian e Zach Danziger.

MD: Quais são os bateristas que mais influenciaram você ao longo de sua carreira?
Christiano Rocha: Meus professores, que influenciaram minha formação como músico, ser humano e cidadão; Azael Rodrigues; Paulinho Vieira; Rubens Barsotti; Vinnie Colaiuta; Terry Bozzio e Jeff Porcaro. Na verdade a lista é enorme. Tento absorver tudo que me agrada, inclusive coisas de outros instrumentos.

MD: Qual a diferença entre o músico Christiano Rocha e o professor Christiano Rocha?
Christiano Rocha: Não sei, as contas são as mesmas.

MD: Em sua opinião onde os bateristas devem focar para serem bons profissionais?
Christiano Rocha: Mais em sua formação musical e pessoal. Menos no ego e no exibicionismo. Qualquer profissional tem que ter, no mínimo, preparo. Cada vez mais vejo gente pulando etapas, que mal solidificou sua formação, mas que já quer patrocínio, sair em capa de revista, fazer workshop, ganhar um Grammy, entrar para o Guiness Book, enfim, quer aparecer a qualquer custo. Temos que administrar nossas carreiras, mas de forma coerente. Conheço bateristas excelentes e atuantes, ou seja, que TOCAM, mas que não são devidamente reconhecidos. Claro que isso não é novidade. A novidade é que a música está ficando para trás.

MD: Quais as diferenças que você nota entre os músicos estrangeiros e os brasileiros?
Christiano Rocha: Ano passado fiz uma masterclass de música brasileira na escola The Planet Drum, em Londres, e notei que os estudantes estrangeiros têm mais memória cultural e respeito pela música brasileira. Tem mais: os músicos profissionais estrangeiros estão habituados a ter um Sindicato dos Músicos que presta, além de um mercado de trabalho mais decente. Nós não, apesar de nossa musicalidade singular.

MD: Quais seus projetos e trabalhos atuais?
Christiano Rocha: Gravei o novo CD da Eugénia Melo e Castro, chamado POPortugal. Faremos um DVD e depois outra turnê européia. Também estou gravando o CD da Adriana Godoy. Toco com o cantor Peninha e com violonista Zezo Ribeiro, com quem irei para a República Tcheca em outubro. Acabei de gravar a trilha do filme Bellini e o Demônio, juntamente com Eduardo Queiroz e Andreas Kisser, do Sepultura. Participarei, a convite do baterista francês Andre Mallau, de um evento de bateria no Conservatório de Perpignan, que será realizado em janeiro de 2009. Leciono no IP&T e comecei a preparar o play-along do CD Ritmismo. Mas olha, confesso que ando bem de saco cheio do meu jeito de tocar. Por isso comecei, entre outras coisas, a fazer aulas de percussão flamenca com o Luciano Khatib.

MD: Qual dica você deixa para nossos leitores?
Christiano Rocha: Não usem somente as mãos e os pés para tocar. Usem também os ouvidos, a cabeça e o coração. Tocar bateria não é correr os cem metros rasos.


SET UP:

Bateria: DW Collectors´s Series

A. 14”X6½” Caixa Pearl modelo Steve Ferrone
B. 10” X 8” tom
C. 12” X 9” tom
D. 14” X 11” floor tom (surdo)
E. 16” X 16” floor tom (surdo)
F. 20” X 18” bumbo

Pratos (marcas variadas)

1. 13” Sabian HH hi-hat
2. 15” Ziltannan hi-hat
3. 8” Sabian HH splash
4. 6” Zildjian Avedis splashRespeito e Dignidade
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Crédito das fotos: Roberto Rocha

Publicado por popogirl às 03:02
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