Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

De cortar os pulsos...

Vou começar por admitir que não fomos nós, os brasileiros, que inventamos essa história de dor de cotovelo e as conseqüentes canções de amor e desamor. Mas que aperfeiçoamos essa desgraceira toda, isso sim, não tenho dúvida. Não é à toa que somos produto de portugueses, mouros, africanos, e demais latinos de toda ordem. Tom Waits e Nick Cave que me perdoem, mas eles não passam de amadores!
 
Tem até a história de uma cantora italiana, não me recordo agora o nome, que, ao ouvir “Atrás da Porta” do Chico Buarque e Francis Hime, não se conteve e disse: “Nossa, como vocês são passionais!”. Vejam bem, não foi uma inglesa nem uma alemã! Foi uma italiana! Realmente, acho que somos imbatíveis.
 
Por outro lado, somos identificados como um povo alegre, que vive cantando e dançando nas ruas, e tomando caipirinha de manhã à noite. Hoje em dia, tudo se generaliza, tudo se rotula. É claro, a nossa MPB foi transformada em Música Prá Pular Brasileira, temos também esse fardo a carregar, temos que “sair do chão” a todo o momento que passa um trio elétrico. E também balançamos nos clubes, nas raves, nas festas, nos bailes funk, seguindo freneticamente os baticuns dos DJ’s.
 
Somos uma mistura disso tudo, para o bem ou para o mal. Mas, cá entre nós e que ninguém nos ouça, nas sombras do quarto escuro, na mais profunda solidão da cidade grande ou do ermo rincão, estamos todos nós simbolicamente cortando os pulsos, chorando nossas mágoas de amor e desamor, imersos em uma saudade sem fim.
 
Ainda hei de convencer a Eugénia a gravar um disco só com canções brasileiras desnaturadas, canções de amor e ódio, os nossos sambas-canção, canções de um tempo que não era proibido ser triste nem chorar convulsivamente nas esquinas. Vocês já imaginaram a cena? Eugénia cantando essas canções com todo o seu arsenal de sentimento, garra, sensibilidade e delicadeza? Haja lâmina afiada, haja pulso querendo ser cortado!
 
Como aperitivo (pode ser uma caipirinha sim, pode...), trechos de algumas pérolas brasileiras:
 
“Ouça” – Maysa:  “Quando a lembrança com você for morar / E bem baixinho de saudade você chorar / Vai lembrar que um dia existiu / Um alguém que só carinho pediu / E você fez questão de não dar / Fez questão de negar....... Se o meu mundo caiu / Eu que aprenda a levantar”.
 
“Vingança” – Lupicínio Rodrigues:  “Mas, enquanto houver força em meu peito / Eu não quero mais nada / Só vingança, vingança, vingança / Aos santos clamar / Ela há de rolar como as pedras que rolam na estrada / sem ter nunca um cantinho de seu / Pra poder descansar...”.
 
“Se eu morresse amanhã” – Antonio Maria: “De que serve viver tantos anos sem amor / Se viver é juntar desenganos de amor / Se eu morresse amanhã de manhã / Não faria falta a ninguém / Eu seria um enterro qualquer / Sem saudade, sem luto também...”
 
“Nunca mais” – Dorival Caymmi: Nunca mais vou querer o teu beijo, nunca mais /
Nunca mais vou querer o teu amor, nunca mais / Uma vez me pediste sorrindo / E eu voltei / Outra vez me pediste chorando / E eu voltei / Mas agora eu não volto / Eu não quero nunca mais / O que tu me fizeste, amor / Foi demais!”.
 
“Águas Passadas” – Marino Pinto / Paulo Soledade: “Se houve um tempo em que fomos iguais / Cruzamos agora opostos caminhos / Prá que insistir em olhar para atrás / Se águas passadas não movem moinhos...”.
 
“Só você... mais nada” – Paulo Soledade: “Só voce, mais nada / no silêncio da noite / no vazio da rua / quando nada acontece / só você continua / só você, mais nada / não sei se o que eu sinto é saudade / mas não posso viver / talvez eu ainda encontre outro amor / talvez eu consiga esquecer / só você, mais nada”.
 
“Ocultei” – Ary Barroso: “...Hoje, porém,abri as portas do destino / Mandei andar o amor / Um mero clandestino / Encerrei este episódio funesto / Agora, detesto aquele a quem mais amei / O meu mais ardente desejo / Que Deus me perdoe o pecado / É que outra mulher ao teu lado / Te mate na hora de um beijo...”.
 
“Velha Praça” – Marino Pinto / Mário Rossi: “... também meus olhos / se remoçaram / quando fitaram os lindos olhos seus / (mas) depois daquele dia / você sumiu de vez / e eu à sua espera / enquanto a vida passa / você me fez mais velha / do que a velha praça...”.
 
“Estrada Branca” – Tom Jobim / Vinícius de Moraes: “Se em vez de noite fosse dia / e o sol brilhasse e a poesia / Em vez de triste fosse alegre de partir / Se em vez de eu ver só minha sombra nessa estrada / Eu visse ao longo dessa estrada / uma outra sombra a me seguir / Mas a verdade é que a cidade ficou longe / ficou longe
na cidade / Se deixou meu bem-querer / Eu vou sozinho sem carinho / Vou caminhando meu caminho / Vou caminhando com vontade de morrer...”.
 
 
Ah, são tantas e tantas. Até a nossa roqueira-mor, a Rita Lee, teve os seus momentos de pura reflexão e abusou da sensibilidade na felliniana canção “Raio X”. Essa segue completa abaixo, prá “demonstrar” o teorema...
 
“Raio X” – Rita Lee:  “Foco o binóculo sobre o nariz / Entro nos apartamentos / Com olhos de raio X / Vejo a vida como um cinema / Cenas de amor e drama / Divinas comédias, colméias humanas / De longe as pessoas são todas iguais / De perto conheço esse rosto / De outros carnavais / Quem é que nunca teve um sonho / Quem é que não é sozinho / Quem os seus olhos procuram meu caro vizinho?.
 
Muri Pessoa
Publicado por popogirl às 14:37
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