Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008

Eugénia e o Bourbon Street...

Todos que acompanham com atenção a carreira da Eugénia sabem do seu profundo conhecimento musical. E ela sabe da sua competência, sabe do que é capaz. Mas o verdadeiro artista sempre busca novos caminhos para a sua arte. Daí a necessidade vital de saltar para o abismo. É dessa aventura sem limites que brota a energia daqueles que buscam o conhecimento e geram as transformações. Eugénia é assim, inconformista, iconoclasta, aventureira. Seu alvo é a música como entidade, sem intermediações, sem barreiras de nenhum tipo.
 
Alguém poderá ponderar que este espetáculo de standards do jazz, das grandes canções americanas de sempre, não seria propriamente um salto no escuro e sim uma partida ganha. Sim e não. Realmente, quem vai para um bar de jazz e blues está de certa forma habituado a repertórios similares ao que a Eugénia apresentou. Mas o envolvimento da artista com o repertório escolhido, canções que povoaram a sua infancia e juventude, e a forma que pela qual ele foi apresentado, fez toda a diferença. Não era mais um show de bar, mas sim uma profunda demonstração do que a música pode proporcionar, sem barreiras linguísticas e sem afetações de qualquer ordem. Eugénia cantou em inglês, em francês, em italiano, e até na nossa querida língua-pátria. Foi só um pouquinho, é verdade, um trecho da canção "You don't know me", de Caetano Veloso, com alguns versos modificados com muita graça e habilidade, e a bela "Olhos nos Olhos", de Chico Buarque, já no "bis" do espetáculo. Durante o show, a Eugénia já havia apresentado a sua versão em inglês para o clássico do Chico, que ficou ainda mais parecido com um "standard" americano do que o "original" do disco Desconstrução, uma jóia.
 
As interpretações profundas para "You've changed", "Cry me a river", "Time after Time", se alternaram a estupendas canções pop "modificadas a la Eugénia", como "Whispering Grass" da britânica Sandy Denny, cantora "cult" de folk rock inglês, já falecida, "Morning has broken", valsa famosa de Cat Stevens, com um andamento mais acelerado e com o tempo alterado das frases, um "engate" de tirar o fôlego das canções "Michelangelo Antonioni", de Caetano Veloso, "Mercifull" e "I'm calling you" (trilha do filme "Bagdad Cafe"), a sempre sensual "The laziest girl in town", de Cole Porter, e a francesa "J'attends", da própria Eugénia.
 
Os músicos estiveram bem, e a Eugénia esteve muito segura, senhora do palco e muito simpática nas suas intervenções entre as canções. E muito paciente também com um grupo de pessoas que teimava em conversar alto durante a apresentação. Já a grande maioria da platéia, interessadíssima em acompanhar o show, não teve paciência e houve até quem se exaltasse um pouco. Enfim, estamos em um novo tempo onde a boa educação parece virtude em extinção. 
 
A última música do "set", a já citada "You don't know me", do seminal disco "Transa" de Caetano, fica como um corolário do show e uma metáfora para a carreira da Eugénia. Ela parece nos dizer que vamos ter surpresas sempre, que não nos acomodemos, que fiquemos atentos, pois ela seguirá sempre na frente e poderemos perdê-la de vista. Para os que continuarem em seu "encalço", haverá, é claro, um imenso prazer pela descoberta sempre renovada de uma grande artista.
 
Eugénia, um beijo e muito obrigado pela sua generosidade.
 
Muri Pessoa
Publicado por popogirl às 02:25
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3 comentários:
De Darlan M Cunha a 25 de Janeiro de 2008 às 09:10
Num bar ou num banheiro, na copa de uma árvore ou num táxi, na varanda do sítio (entre brotos de bambu e beijos da hortelã e do coentro), sob a canícula numa construção civil (logo ali o rádio a pilha - iconoclasta, teimoso, doce amigo, entre o qual operários erguem nova construção -, enfim, venha de onde vier, o canto de Eugénia Melo e Castro, com certeza, não faz mal à saúde, não. Feliz foi quem esteve nesta apresentação. Terei esta felicidade, quando ela vier a Belo Horizonte.

Abraço.


De Génio a 25 de Janeiro de 2008 às 16:39
Excelente texto sr. Muri...foi quase como se estivesse lá, muito obrigado!


De João Brazuna a 26 de Janeiro de 2008 às 20:13
Uma excelente missiva! Os meus parabéns ao autor e à Eugénia por ser sempre sincera consigo e o seu público e nunca, mas nunca deixar de nos surpreender.

Abraço do João e votos de um magnífico fim de semana.


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