Domingo, 25 de Novembro de 2007

Lisboa dentro de mim...

“Eça, o Tejo e os arranha-céus”, Revista Horizonte Geográfico
  
Lisboa é uma cidade de sol e azulejos. A luz do dia e dos foscos lampiões noturnos provoca reflexos nas pedras brancas e pretas - as mesmas pedras portuguesas encardidas e mal-usadas - exceto em Copacabana - aqui. Quando você se instala na Pastelaria Paris, esquina da Praça Camões e olha, mais adiante, o Largo do Chiado o tempo entra em suspensão.
 
O homem magro subindo a elegante Rua Garret é, sim, Fernando Pessoa, mas só um segundo antes de se transformar naquela estátua de bronze junto à porta de A Brasileira, um café tão antigo que era frequentado pelos personagens de Eça de Queiróz. Passada a ilusão fugaz, o mundo lisboeta se abre em duas direções: subir a Rua da Misericórdia ou descer a Rua do Alecrim: só o dilema poético colocado pelos nomes é todo um clima. Para cima, o Largo do Príncipe Real, um mirante sobre a cidade: e aí se nota o quanto ela é delicada. Aquela que foi a capital do reino e de um vasto império, e quase desapareceu em terremoto, mantém uma escala humana.
 
Se a direção for Alecrim abaixo - e sem esquecer, no meio do caminho, dê um aceno, imaginário que seja, para a estátua de Eça, em mármore branco, que retém nos braços a Musa desfalecida -, é o Tejo que o espera. O rio-oceano português é mais que um rio: é uma corrente da História em direção ao mar, já próximo, que define e emoldura Lisboa entre gaivotas e uma vaga maresia.
 
Mas Lisboa não é só esta nostalgia poética. Quando a noite cai, uma juventude bela ocupa os bares e danceterias instaladas nos antigos armazéns portuários: e ali a coisa ferve como nas ramblas de Barcelona, no Porto Madero, de Buenos Aires, em Ipanema. A nossa injusta imagem do lusitano da padaria e da portuguesa de bigodes vai por terra quando desembarcam de carros ingleses Rover esporte estas meninas e estes rapazes distantes - até demais - do fado. Se você conquistar um deles, e quiser um encontro mais romântico, e conclusivo, é só tocar para o Pavilhão Chinês - Rua da Escola Politécnica - um misto de antiquário e pub. Ali as coisas começam a acontecer com um certo luxo excêntrico.
 
Vivi dois anos em Lisboa - e por lá continuo a passar. Caiu uma ditadura triste e cruel, em 1974. Portugal abriu-se para a nova Europa - boas cabeças até acham que foi rápido demais -, mas as coisas ainda se equilibram sutilmente entre o moderno e as tradições. E é aí que está a graça de tudo.
 
Permanece a gentileza no trato: um garçom lisboeta é fidalgo, e come-se divinamente. Não perca o Solar dos Presuntos, a Casa da Comida, o Polícia (que só o nome já vale uma visita) e um boteco - aliás, tasca, como eles dizem - chamado O Faz Frio (também na Rua Politécnica), próximo da casa da cantora - e bela mulher - Eugénia Melo e Castro, que é fundamental ouvir para saber o quanto a música lusa sofisticou-se. Seus discos, diga-se, são vendidos no Brasil.
 
Por fim, um aceno do maravilhoso e do mistério: noites de névoa, ou luar, em Sintra, ao lado de Lisboa, que o poeta Byron chamou de "o glorioso jardim do paraíso". E no Portugal secreto e profundo do Alentejo, ao sul, os monólitos, alguns visivelmente fálicos, que remontam a culturas primevas, celtas talvez. Estão lá, inexplicáveis, nos campos de oliveiras, e flores amarelas, as giestas. Noivas e recém-casadas, às escondidas, neles roçam o sexo para garantir a fertilidade. Costume puro e ancestral, como o olhar do camponês o revela a mim. Tão verdadeiro quanto o novo Portugal que se ergue entre arranha-céus, modismos e multinacionais.
 

Por Jefferson Del Rios (o jornalista Jefferson Del Rios morou dois anos em Lisboa e visita anualmente a pátria do grande vate Camões)

Publicado por popogirl às 03:46
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