Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

O MEU PAI !!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 
Jornal de Letras
Autobiografia de E.M. de Melo e Castro
Ensaio de viver
Se quiserem saber porque escrevo este ‘ensaio’ será melhor perguntar ao José Carlos de Vasconcelos, pois ele é que me pediu para escrever uma autobiografia e eu devo ter percebido logo, e bem, que ele queria saber como é que eu tinha sobrevivido aos meus 75 anos. Ele queria saber, como bom jornalista que é, como tinha eu aprendido a sobreviver a mim próprio! E queria mais, que o dissesse em público! O que não é nada de mais para um fulano que publicou cerca de 60 livros, desde 1952. Está lá tudo! Mas só já se encontram nos alfarrabistas e custam um dinheirão!
O facto é que os editores portugueses actuais fogem de mim como o diabo da cruz, pois dizem que têm muitos encargos e a poesia e o ensaio crítico (meus exclusivos géneros literários) já não têm leitores, o que é, evidentemente, uma ‘blague’ de mau gosto e péssimo hálito! Vamos adiante, porque é adiante que é o dia seguinte, e eu desde há muitos anos (sempre) vivo no dia seguinte. E é assim, vivendo dia após dia, mas com um projecto, que vou chegando ao dia de amanhã, através de peripécias comuns e incomuns, de amores e desamores, etc., etc. Mas fui sempre fiel, por 40 anos, à minha ocupação na tecnologia têxtil, até que os ventos do progresso europeu varreram as pequenas empresas que eram minhas clientes, para uma qualquer lixeira, e eu fiquei ‘pendurado’.
É que durante esses anos todos eu tinha uma profissão: a poesia; e um hobby: a tecnologia têxtil! Só que ganhava dinheiro com o hobby e gastava-o com a profissão! Até que, acabado o hobby, fiquei só com a profissão. Não tive outro remédio, doutorei-me em Letras na Universidade de São Paulo e fiquei com duas profissões: a Poesia, que é para mim uma espécie de espelho transgressivo e irrequieto, e professor de matérias ditas culturais e artísticas, o que francamente me agrada ! Sou por isso um homem profissionalmente feliz!
Provenho duma família de industriais de lanifícios, falidos. Por isso nunca usufrui nenhum benefício, antes tive que tentar arrumar a casa e seguir em frente, sozinho.
Até que um dia, a Câmara Municipal da minha terra natal, a Covilhã, como de certo o leitor já adivinhou, me atribuiu a Medalha de Ouro da Cidade, o que recebi com emoção, como é natural: era o ‘ouro’, em forma simbólica, já se vê! Nessa altura agradeci, lendo um texto de que faço agora uma citação, que penso ser autobiográfica, e também, de certo modo, simbólica.
«Pensar tem sido, sob diversas formas artísticas, científicas e críticas, o labor de toda a minha vida. Por isso penso que na minha idade, já um tanto avançada, poderei dizer isto, sem risco de ser mal compreendido. Porque é precisamente por isso que hoje aqui estou, pela compreensão da minha terra. Porque, tendo eu sido, durante a maior parte da minha vida um ‘desterrado’, afinal também tenho uma terra a que posso chamar minha, porque ela me reconhece, principalmente pelo que fora dela fiz e ainda estou fazendo, isto é, observando, escrevendo, criando, e gostando de dar aulas. E lembro-me muito bem, que ainda na primeira juventude, ao tomar conhecimento dos filósofos pré-socráticos, ter lido esta frase que foi para mim um programa de vida: ‘Ando neste mundo para ver e ouvir como um filósofo’.
Com um tal programa, logo se torna claro que os valores hoje vigentes, do lucro imediato e fácil, da superficialidade espectacular, e dos cultos hedonistas passageiros, nunca constituíram para mim nem um objectivo, nem um incentivo. É que só os valores desmateriais do pensamento e da criatividade foram, são e serão os meus mestres. Já Heraclito dizia: ‘Só há uma sabedoria: saber que o pensamento governa tudo e todos’. Talvez por isso, o estóico Diógenes, andava com uma candeia acesa em pleno dia, ao sol, à procura de um Homem. E assim andamos nós, enredados num mundo de labirintos, numa floresta de enganos, como disse Gil Vicente, mas agora aceleradamente em desenvolvimento, procurando um lugar para o pensamento e para a criatividade, num mundo de mísseis, terrorismo, dólares e euros, à procura talvez de nós próprios, perdidos em qualquer galáxia, num pequeno planeta ainda azul, tentando esconjurar a morte e o esquecimento, dos indivíduos e até da espécie, ameaçados por ciborgs, robots, androides e alienígenos, mas também por nós próprios : Homem lobo do Homem !»

Mas, como é que isto tudo começou? Quando eu nasci, não nasci, porque não soube que nasci. Só muito mais tarde é que me disseram e eu tive que acreditar. Por isso, nasci. Menino crédulo, cedo aprendi a ler e a rabiscar escritas (nesse tempo não havia escola infantil), mas não era habilidade nenhuma. Era só assim: com 5 anos acompanhava o meu pai, que era músico (além de ser engenheiro). Acompanhava-o nas suas visitas às aldeias, povoados e quintas na Serra da Estrela e na Cova da Beira, em busca de quem soubesse cantigas ditas populares, o mais antigas possível. Cantigas de que ele transcrevia a música num harmónio portátil, e escrevia as ‘letras’. Era o que hoje se chamaria uma pesquisa musicográfica, ou coisa parecida. Eu sabia de cor todas essas cantigas e foi assim que absorvi as primeiras formas da poesia, seus ritmos e rimas, num dizer diferente e encantatório.

(Ler texto completo na versão impressa do seu Jornal de Letras  de 10 a 23 de Outubro de 2007)


Ok, por enquanto está nas bancas em Portugal, na semana que vem eu publico totalmente este texto !!!!!!

 

E M de Melo e Castro


Publicado por popogirl às 21:53
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