Domingo, 19 de Agosto de 2007

As mãos

As mãos ??

Eu não tenho mãos

Nunca tive

Elas seriam longas, unhas perfeitas, a condizer com o vestido esverdeado, estilo Paris coleção Primavera / Verão 2003, luvas da Ulisses,  finíssimas, anéis soberbos oferecidos pelo meu grande amor num dia inesperado.

Mas eu não tenho um grande amor.
Eu nunca recebi um anel de um grande amor.
Nem esperado, nem inesperado, nem desesperado.

Por isso não devo ter mãos, aquilo que tenho nas extremidades dos braços, que são dois, nunca serviu as funções básicas do seu primeiro propósito.

Aquilo que tenho no lugar das mãos é uma coisa parecida, uns dedos tortos, uns medos mortos, umas ferramentas de acções descordenadas. Com o sentido do prático, do rápido, de frio.

Nem a minha aliança de casamento durou. Nem foi um grande amor que me deu. Fui eu. Aproveitei e comprei a dele, para não faltar na hora do casamento.

Eu devo ser o meu grande amor.
Que horror.

Aliança interna.

Ofereço-me  aneis, antes, durante, por tudo e nada,  invento e chego a acreditar que me são dados por alguém que reparou que eu tenho mãos. Mas elas não estão lá , nunca.

Estão ocupadas em ser transparentes, entregues à missão  de carregar pesos superiores aos que poderiam, porque também não tenho quem me carregue as malas. E eu vivo entre malas. Dentro delas. Fora delas.

Mas resistem a tudo, as mãos que eu teria.  Seriam de princesa,  de rainha, mas são concerteza de tristeza.

Só minha.

As mãos não sentem tristezas, só dores banais, de ossos disponiveis para o formato dos esforços.

Tenho muito orgulho nessas minhas armas de uso prático , uso-as para fazer a minha cama, a minha maquilhagem sempre desigual, a minha segurança quando desço as escadas, quando subo, quando chego, quando parto.

Ainda não tenho mais mãos, nada me convence que preciso delas a não ser o peso. E a velha mania de endireitar os objectos, as coisas.

As minhas mãos tortas nem ficariam bem direitas.

Eu sei , num conjunto de linhas e gestos, substituir a sua primeira função pelo outro lado das leituras de gestos.

Ainda bem que não tenho mãos, posso inventá-las, e quem sabe eu também invente um grande amor e tudo no final acabe bem, e o anel vá parar ao prego para pagar uma viagem para o paraíso.
Sem malas para carregar.
Adeus mãos

Adeus não.

Publicado por popogirl às 16:37
Link do post | Comentar | Adicionar aos favoritos

Ouça aqui

EMAIL/ CONTACTOS/ SITE OFICIAL

eugeniamc@sapo.pt http://www.eugeniameloecastro.com

Bem Querer / Futuros Amantes


Veja mais vídeos aqui!

AVISO AOS NAVEGANTES :

ESTE BLOG É (TAMBÉM) UMA BASE DE DADOS ACTUALIZADOS SOBRE EUGÉNIA MELO E CASTRO. DESTINA-SE AO REGISTO DE ENTREVISTAS, MATERIAIS DE IMPRENSA, MÉDIAS, MP3, VIDEOS, MATERIAL DE PESQUISA, BIOGRAFIA, HISTÓRIAS, OPINIÕES, CRÓNICAS, FOTOS, DATAS, AUTORES, MÚSICOS ENVOLVIDOS, ASSUNTOS RELACIONADOS, DEPOIMENTOS, LINKS RELACIONADOS, AGENDA DE SHOWS, ACTUALIZAÇÃO DE ACTIVIDADES, LANÇAMENTOS E RELANÇAMENTOS DE CDs, DVDs, PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS, GRAVADORAS, DIREITOS AUTORAIS, LETRAS, CONVIDADOS ESPECIAIS, ONDE, COMO E QUANDO.

Arquivos

subscrever feeds

blogs SAPO